Deomiro Salami “Eu não sabia nem o que era cidade”

PERSONAGEM

Deomiro Salami “Eu não sabia nem o que era cidade”

Com invejável alegria este antigo mercadeiro conversou por mais de uma hora com a nossa reportagem. Tempo suficiente para contar toda a sua vida no Mercado Público. Filhos de Augusto e Mercedes Salami, nasceu em agosto de 1934, em Cruz Alta, numa família de quatro irmãos e uma irmã, Deomiro veio adolescente para o Mercado para construir, desde cedo, uma vida vitoriosa. E feliz.

 

 

 

 

    Ele veio no barco Osvaldo Aranha, diretamente de Porto Mariante para Porto Alegre. “O interior não dava, nem para os pais, que acabamos trazendo para cá também. Hoje tem incentivo, mas naquela época não tinha nada. Era aquele arado puxado por uma juntinha de bois e mais nada”, recorda. Conta que vieram praticamente “fugidos”, ele e o irmão, Luís Salami. E trouxeram também, depois, mais uma “gurizada” do interior, entre eles Aquilino, Desidério de Paoli, Licindo Freitas, Domingos Sauer e muitos outros. “Fomos trazendo toda a gurizada nova, da nossa idade”. Ele chegou com 13 para 14 anos. E lembra que naquela época era pé no chão para não “estragar o calçado” nas entregas de ranchos, feitas em sacolas, carregadas nas costas, a pé. Nos bairros mais distantes, como Partenon e Glória, era de bonde. Lamenta, não ter nenhuma foto para mostrar. “Não se tinha (dinheiro) nem para comer, imagina tirar fotografia”. Mas o rapaz tinha pressa de crescer. Quando chegou a época do serviço militar, entre 17 e 18 anos, convenceu o tenente do alistamento a não ir para o exército. “Ia servir na cavalaria em Bagé e perder a sociedade na banca onde eu já tinha a metade”. Nessa época já trabalhava na banca 17, junto com o Bianchi Toniolo. A parte dele, pagou em prestações. Diz que naquela época era fácil fazer negócios no Mercado, principalmente porque os mais velhos queriam encerrar seus negócios, partindo para a aposentadoria.

 

 

 

 

 

    Trabalhando “que nem doido”

     “Se o trabalho matasse eu estaria morto. Mas adorei o que fiz”, diz. Trabalho que começava muito cedo. Acordava às cinco horas da manhã, para pegar o bonde dos operários. Esse trabalho duro lhe rendeu uma trajetória fulminante no Mercado. Ele começou na banca 5, de secos e molhados, mas logo ficou sócio na banca 15. “Depois comprei a 33, eu e o Remi Groff, e a 20, com o Claudio Pozzebon”. E, então, vem a fase dos açougues, quando compra as bancas 20 e 21, (Açougue Laçador), enquanto o irmão Luís assume a 23 e a 24, o (Açougue Rodeio), onde hoje ficam as bancas das verduras. “Eram os dois melhores açougues do Mercado”, afirma. Empreendedor nato, já naquela época, teve também uma distribuidora de carne (Uru) onde hoje se localiza a banca de livros e revistas. Para o novo negócio comprou três caminhões, dois para transportar gado e um para ovelha. Comprava o boi vivo e abatia no frigorífico Languiru. Conta que tinha fins de semana que eram vendidas até 400 ovelhas. O movimento intenso e a grande procura da população ao Mercado, explica, devia-se ao fato de naquela época não existirem supermercados. O Mercado era assim, o grande centro de abastecimento de alimentos da cidade. Com a chegada deles (os supermercados), os armazéns de secos e molhados do Mercado foram perdendo a freguesia. Uma das razões pela qual Deomiro preferiu mudar para o ramo das carnes.

 

 

 

 

    Tempos difíceis no Mercado

   Depois da distribuidora de carnes, Deomiro conta que “sossegou”. Já estava muito bem estabelecido. Seus açougues tinha de 18 a 20 funcionários, escolhidos “a dedo”. A única queixa é relacionada à reforma do Mercado: “Trocaram os nossos melhores pontos por camaradas que estavam no portão e que nunca botaram um real no Mercado. A gente era pioneiro, mas a comissão da época trabalhou contra nós. Tiraram outros também”, recorda, referindo-se aos chamados “tomateiros” que passaram a ocupar o espaço dos dois açougues – onde hoje estão as bancas de hortaliças. Lembra que no início a mudança foi muito difícil, “uma pedreira”. Outra lembrança negativa é a do período da escassez de carne e outros produtos no Mercado. Era conseqüência do tabelamento na época, da extinta SUNAB, quando os preços eram tabelados. Com isto os atacadistas e fornecedores deixavam uma margem de lucro muito pequena para os varejistas. Além da carne, arroz, feijão, banha, manteiga eram os principais mantimentos que faltavam. Para enfrentar a crise, Deomiro conta que buscou outros produtos para vender no açougue, como focinho de porco e produtos para feijoada. Perseverante, nunca desistiu. Afinal, o pior já tinha passado. Tempos que morava com colegas até em porão, chegando em casa depois das noves horas da noite.

 

 

 

 

 

    Depois de muita luta, a vida de aposentado

   Trazido pela família de Aldo Valezan, com quem morou seis meses,  começou como empregado na banca 35.  Pegou o tempo em que as carroças estacionavam na praça Parobé para abastecer o Mercado, assim também como o tempo da “bolsa”, que ficava onde hoje é o Palácio do Comércio – outra fonte de abastecimento. “Naquele tempo no Mercado existia uma lona para segurar a chuva, depois veio uma coberturazinha de alumínio. As bancas era mais cumpridinhas. Na Páscoa, de quinta para sexta-feira o Mercado não fechava os portões. A gente cochilava em cima das sacarias. Se vendia bacalhau e camarão que nem água”, lembra. Casou em 1957, com Annunziata Salami, a quem conheceu no Mercado, onde ela também trabalhava. Orgulha-se de dizer que foi o primeiro da turma a ir à Buenos Aires (quando casou). “Eu, xucrinho da silva, em Buenos Aires”, diverte-se. Com Annunziata, falecida em 2003, teve três filhos: Almir, Leila e Loiva. Os pais eram visitados duas ou três vezes por ano, antes de serem trazidos para Porto Alegre. Seu pai, inclusive, trabalhou na banca 21, de Luís, e no antigo mercado das frutas. Deodomiro fez muitas amizades no Mercado. Hoje a sua felicidade é a vida de aposentado. Morando num sítio em Guaíba, em uma confortável casa, com grama, açude, plantas, piscina, chimarrão e caminhadas cedo da manhã. Diz que deveria ter parado há muito tempo. “Aqui é cheirinho de mato, isso que é vida”, resume. Do Mercado, só tem agradecimentos. “Aproveitei bastante. No Mercado eu gostava de tudo do que eu fazia, tinha dinheiro, saúde. Quando vim para cá não conhecia nada. O Mercado foi minha fonte, minha faculdade. Ele significa tudo o que eu sou e o que eu tenho no dia de hoje”, resume.

 

 

 

 

Foto: Fabrício Scalco 

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