Deolino Gueno, uma vida dedicada ao Mercado

Deolino Gueno, uma vida dedicada ao Mercado

 

Recém saído do quartel, teve uma pequena experiência como sapateiro. O lajeadense Deolino Gueno, nascido em 1931, acabou sendo influenciado por amigos, como Luis, “um amigão”, Dalcy e Deomiro Salami que já trabalhavam em Porto Alegre para que viesse também. Ele relembra bem, com muita precisão de detalhes, toda a sua longa trajetória de mais de 50 anos de Mercado. Trajetória vitoriosa, diga-se.

 

Criado no interior, o rapaz não queria correr riscos. Mas pegou o ônibus e veio para a cidade grande. Lembra que quando chegou “o sol já estava querendo entrar”. Na dúvida se o Mercado ainda estava aberto, foi para um hotel, muito próximo do seu grande destino – a uma quadra, mais precisamente.  No táxi não entregou sua pequena mala, com medo de ser roubado. A grande cidade era um enigma assustador para o jovem interiorano. No hotel, passou a mão em um jornal para dissimular a ansiedade, tão grande que acabou chorando e já com vontade de voltar imediatamente. No outro dia, cedinho, pediu um táxi na portaria do hotel. Informaram que não era preciso, podia ir a pé de tão perto. Mas o medo falou mais alto e ele exigiu um táxi. O Mercado ainda estava fechado quando chegaram. “Me espera, se eu não encontrar meu amigo, vou embora de volta agora mesmo”, falou para o assustado motorista do táxi. E entrou carregando, claro, a sua mala. Em poucos passos vislumbra o amigo Dalcy, que o havia convidado para vir para a capital. “Avistei ele é disse pro taxista: é aqui! Me clareou tudo, na hora já fiquei outra pessoa”, conta ele hoje, tantos anos depois.

 

Vai dar bom balconista

Começava ali uma longa história, de muitos empregos, passagens por bancas, sociedades e sempre com a certeza que era preciso ser firme, ter persistência e, principalmente, vontade de trabalhar. Entrou de empregado na Banca 9, de Emílio e Aquilino Toniolo, família de grande tradição no Mercado. O primeiro serviço: separar os ovos, que vinham em caixas de madeiras, 30 dúzias em cada uma. “Tu agora vais tirar os  ovos, mas não me quebra!”, disse-lhe o patrão. O rapaz não se assustou. “Eu era ligeiro nos ovos, não quebrei nenhum. Aí disseram: esse vai dar um bom balconista, não quebrou nenhum ovo!” A banca vendia muitos ovos. Ele recorda que nos períodos de chuva, as cargas vinham de barco pelo Guaíba, porque as estradas do interior eram muito ruins e aí, “não descia caminhão”. Era ele o encarregado de ir nas docas comprar os ovos. E, por ordem do patrão Deolino comprava tudo, bem cedo, para que nenhuma outra banca tivesse ovos para vender. Naquela época, para ver a validade deles se usava a peculiar técnica de colocá-los contra a luz, uma lâmpada numa caixinha estrategicamente colocada para este fim. “Botava e passava o ovo. Se aparecia uma mancha escura era porque já estava passado”, recorda. Depois disso, vieram os carimbos que, em cada ovo, datavam a seu prazo de validade. A banca também tinha frios, queijos, etc, mas a maioria dos produtos era de sacaria, “tudo a granel, arroz, feijão, açúcar, nada de pacote”.

 

Tempos de escassez, de leite e arroz

Lembra também dos tempos de escassez, tanto de leite quanto de arroz e banha. Isso lá por 1952. O leite só tinha no entreposto Deal, na esquina do Mercado, av. Borges Medeiros com av. Júlio de Castilhos. Cada pessoa só tinha direito a 1 litro de leite, a mesma coisa com arroz, que tinha uma cota limitada de venda no IRGA, Instituto Riograndense do Arroz. Deolino lembra que na banca iam fazendo rodízio para comprar os produtos para passar para os clientes, Era uma forma de satisfazê-los e, assim, fazer o “chamariz” para a banca. Nessa época morava com mais sete “rapazes” que também trabalhavam no Mercado, todos dividindo aluguel e outras despesas, entre eles Luís e Deomiro Salami. Ele, como era um dos mais novos e ganhava menos, só entrava com a mão de obra, fazendo café e cuidando da limpeza.

 

De banca em banca, negócio em negócio. E muitos sócios…

Só trabalhou um ano com os irmãos Toniolo. O amigo Luis Salami era, então, gerente na banca 11 de Dionísio e Demétrio Toniolo, que lhe disse um dia “Eu preciso de uma pessoa que faça tudo o que tu faz”, ao que Salami respondeu: “O único que garanto a mão é o Gueno”. Começa a disputa pelo jovem trabalhador. “Tu só sai se for para a tua banca, de empregado não”, disse-lhe o patrão Emílio Toniolo. Depois de muitas negociações, incluindo empréstimo de “dois contos de réis” com o seu pai, o patrão Emilio e o amigo Salami, montam finalmente sociedade com Demétrio na Banca 11. Depois disso pularia para nova sociedade na banca 14, onde inicialmente comprou uma quarta parte trabalhando com o antigo dono Eliseo Toniolo.

 

Tempos de dureza

Quando veio para a atual banca, era um bar e restaurante, virou sócio de Emilio Fioli. Naquela época existia muito malandro na volta do Mercado”, recorda. Resolveu mudar de ramo e investir em uma fruteira. O problema todo é que bem nesta época a prefeitura colocou todos os ambulantes justamente no lado de fora do Mercado, junto à sua banca – voltada para a Praça Parobé. Foi um período em que ele trabalhou muito. Ia de madrugada buscar frutas e ficava depois da hora “para pegar algum movimento”, vendendo alguma coisa para os armazéns, como ele diz. Porque durante o dia não vendia nada. “Aguentei o tirão e um dia seu Emilio, o sócio  chegou e disse: quer ficar com minha parte, não agüento mais!”. Após isso, tornou-se proprietário único do atual estabelecimento, a loja 153. Tempos de dureza, não só financeira: era muito puxado o ritmo de trabalho, já a partir das cinco da manhã até às 10 da noite. E nos domingo ia até ao meio dia. Era o rei da banana, brinca. Mas logo as coisas melhorariam. “O nosso pulo do gato foi na reforma do Mercado”. Isto porque as obras começaram primeiro no interior do Mercado, liberando as bancas externas, que ficaram menos tempo paradas durante a reforma. Finalmente os caminhos estavam abertos, inclusive para, aos poucos, ir migrando para outros produtos, como sorvete, saquinhos plásticos, embalagens. “Fui trocando de ramo devagarinho, para ver o que rodava”, diz ele.

 

Lembranças do mercado:

Muito trabalho, como não podia ser diferente. Mas, muita amizade e solidariedade. “O mercado era uma irmandade, era só amigo – um ajudava o outro. Hoje é cada um por si”, afirma. Tem muita gratidão pelo Mercado. Foi com ele que criou sua família de cinco filhos, frutos do seu casamento com sua esposa Edy, com a qual está casado desde 1958.  Das lembranças do Mercado, recorda das boas relações patrão/empregado, de amanhecer e anoitecer no Mercado, da freguesia dos “grandes” nas bancas 43 e do Holandês (“os armazéns eram mais o povão”), de carregar muitos ranchos e mais de 300 cestas no natal na Banca 14, das boas amizades, dos incêndios, dos bailes com os amigos no Gondoleiros, da boemia do Treviso, das primeiras peixarias e do balcão de pedra. Hoje, mantém sua rotina, com a diferença, que fica apenas sentado. É o repouso, merecido, do guerreiro.

 

Foto: Fabrício Scalco

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