De bombacha

Foto: Ricardo Stricher/PMPA

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

Pode ser do outro lado do país: passou um bombachudo, já se sabe que é gaúcho. Isso porque o modo de vestir é uma marca cultural, e roupas são parte do quebra-cabeça que forma a identidade gauchesca. A indumentária, de longe, é a característica mais aparente do gauchismo, e de todos os componentes da pilcha, a bombacha é o que mais carrega a assinatura do sul.

Assim como outros elementos culturais do RS, a bombacha é compartilhada com os gauchos do pampa além-fronteira, argentinos e uruguaios. O traje tem forte simbolismo, ligado à tradição rural e campeira – seu uso está relacionado à montaria e à lida nas estâncias no Rio Grande antigo. “Creio que a bombacha é um elo entre o passado, o presente e o futuro da cultura regional e campesina do estado”, afirma Terson da Costa Praxedes, pesquisador e historiador da Fundação Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (FIGTF), com quem conversei para traçar um relato sobre a história da vestimenta no RS.

ANTES DA BOMBACHA

O tradicionalismo costuma dividir a história da pilcha masculina em quatro fases: chiripá primitivo, braga e chiripá, chiripá farroupilha e, finalmente, bombacha. Quando portugueses e espanhóis colonizaram o pampa, a vestimenta padrão passou a ser o chiripá indígena, também chamado chiripá primitivo ou chiripá-saia: traje simples, um tecido retangular de couro cru ou algodão que ia até os joelhos, amarrado à cintura e preso por uma tira de couro. O contato com os ibéricos incluiu outros elementos à roupa indígena, como a guaiaca presa à cintura. O chiripá-saia foi usado por muitos anos pelos peões, enquanto os estancieiros, conforme enriqueciam, passaram a adotar roupas europeias. Uma delas foi a braga – calções largos acompanhados de ceroulas de crivo, uma espécie de calça branca justa com franjas finas na barra. No período da Guerra dos Farrapos, o chiripá indígena foi adaptado pelos gaúchos para facilitar a montaria – assim, o tecido, maior, foi passado entre as pernas e amarrado, ficando como um fraldão. Também conhecido como chiripá-fralda, geralmente era acompanhado das mesmas ceroulas de crivo, e foi uma criação pampeana legítima. “O chiripá farroupilha foi usado entre 1820 e 1865”, explica Terson. Foi então que entrou a bombacha.

ORIGEM TURCA

A história da chegada da bombacha até o sul da América não é precisa, mas alguns pesquisadores procuraram refazer sua trajetória através do tempo. Existe mais de uma versão, e uma delas está ligada à invasão árabe à Península Ibérica, no século VIII: os mouros trajavam bombachas e este hábito foi incorporado pelos nativos, já que o domínio da região durou 600 anos. Assim, a vestimenta teria chegado ao pampa através dos colonizadores, especialmente os espanhóis da região de Maragateria, ao norte do país. “Uns dizem que é árabe, outros dizem que é turca – e é nesta segunda hipótese que eu acredito mais”, pontua Terson. Nessa segunda versão, mais aceita, a bombacha fez seu caminho através de duas guerras: a da Crimeia (1853-1856) e a do Paraguai (1864-1870). Na Crimeia, ingleses, franceses, sardenhos e turcos uniram-se contra a expansão do Império Russo. A industrial Inglaterra, com sua produção têxtil, confeccionou bombachas para os aliados turcos durante todo o conflito e ficou com um enorme excedente quando este acabou. Com o início da guerra contra o Paraguai, os ingleses, apoiadores da Tríplice Aliança (Argentina, Brasil e Uruguai), venderam aquelas bombachas para os exércitos no Rio da Prata. Ao voltarem para casa, os militares sulinos levaram consigo o novo traje – que se adaptava perfeitamente ao clima temperado e tornava as cavalgadas muito mais confortáveis. “De traje militar passou a ser um traje civil e se incorporou definitivamente ao cotidiano sul-americano”, observa Terson. No início, a bombacha só era usada por peões no trabalho nas estâncias, mas logo foi adotada pelos mais ricos, já que se adequava ao estilo de trabalho e de vida predominante no RS. Entre o fim do século XIX e o XX, o gaúcho começou a sair da margem, num processo nacional de valorização do homem regional. A bombacha, seu traje diário, foi valorizada junto com ele. Nos anos 1940-50, principalmente, o homem campeiro virou símbolo da regionalidade cultural, e o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) difundiu a bombacha como traje identitário do gaúcho rio-grandense.

 LARGA E CAMPEIRA

“O que caracteriza uma bombacha não é o favo, não é a sua largura, e sim o punho com botão colocado na boca da calça”, define Terson. Assim, a bombacha pode ser larga ou mais estreita, com ou sem favos (chamados “de mel” ou “de abelha”), de brim, linho, algodão, tergal ou outro tecido – mas sempre com punho abotoado no tornozelo. Terson explica as particularidades em cada região: na fronteira, elas costumam ser bem largas e com favos, chamadas também “de dois panos”; no Planalto Médio e Missões, são médias, nem muito largas, nem muito justas; no litoral e na Serra, são estreitas, quase calças-bombachas, conhecidas também como bombachas campeiras. Geralmente são usadas com botas altas, botas sanfonadas ou alpargatas. Em 1989, a indumentária gaúcha passou a ser considerada traje oficial e social do Rio Grande através da Lei Estadual da Pilcha, nº 8.813, desde que seguidas as recomendações do MTG. Mas, quando saem das bailantas e cavalgadas e entram no ambiente urbano (coisa cada vez mais comum), as bombachas são adotadas por homens e mulheres, indiscriminadamente, preocupados apenas em valorizar a cultura daqui.

COMENTÁRIOS