Danúbio aos 85 anos: do Clube de Gravura de Bagé para o velho continente

É assim que Danúbio Gonçalves, que completou 85 anos de vida e 50 como profissional das artes plásticas em 30 de janeiro deste ano, transcreve sua história de vida pessoal e profissional. O bageense mostra virilidade ao dar prosseguimento em sua vida e nos seus projetos.

Danúbio, que além de ter uma capacidadeartística inquestionável, faz opinião em sua coluna no jornal cultural Fala Brasil. Recentemente o artista plástico esteve no México para gravar cenas para um documentário sobre sua vida e obra, produzido pelo diretor Henrique Freitas Lima. Em uma boa conversa nas mesas dos Altos do Mercado, o artista plástico falou dos tempos do Atelier Livre no Mercado. Lembrou do coordenador das atividades neste espaço, o amigo Xico Stockinger, um dos mais importantes escultores gaúchos. E do tenso momento em 1964, durante o golpe militar, quando o Atelier abrigou por alguns dias o “Comitê de Propaganda e Resistência Popular”.

Ele que dirigiu o Atelier durante longos anos, lembrou ainda de outros que também estiveram a frente do espaço, como Paulo Porcella, Aglaé Machado e Tatata Pimentel. Admirador confesso da raça negra, o artista recorda da infância onde esteve aos cuidados de uma senhora negra, guardiã de seus desenhos. “Eu sempre tive uma admiração pela raça negra, quando minha mãe morreu, eu tinha dois anos. Foi então que uma mulata começou a cuidar de mim por um certo tempo. Com dez anos fui para o Rio de Janeiro, nesse período eu enchia a casa de desenho e eles colocavam tudo no lixo. Quando eu tinha 30 anos, ela dizia que tinha desenhos meus dos meus cinco, oito anos. Para mim foi uma surpresa, ela era analfabeta. Então ela me deu, coisa que para mim

O Atelier Livre nos Altos do Mercado
Segundo Danúbio, o que viria a ser o Atelier Livre surge na capital gaúcha no antigo abrigo dos bondes, reunindo personagens como Iberê Camargo e Xico Stockinger, que sempre foi um grande companheiro de Danúbio. Com o passar dos anos às coisas foram melhorando para os promissores, mas ainda não reconhecidos, artistas plásticos em Porto Alegre.  Foi quando o secretário de cultura da época, Brito Velho, conseguiu um espaço para no Mercado Público, aí sim, nomeando o lugar de Atelier Livre. Antes disso, os espaços para exposições dos artistas eram restritos, havia o Correio do Povo e na Praça da Alfândega, onde ocorria a exposição das “gravuras abertas”. Sobre as tendências artísticas da época, o artista é enfático com suas respostas. “A grande tendência no RS era figurativa e não o abstrato.  Porque o Clube de Gravura foi fundado na base de carreira gráfica popular do México. O Carlos Scliar foi à Europa, onde ele conheceu Leopoldo Mendez, um grande gravador e ele tinha uma espécie de clube
de gravura. Então ele resolve fazer uma coisa semelhante aqui em Porto Alegre com a gente, e nós criamos o Clubede Gravura aqui.”

Danúbio relembra dos frequentadores e das restrições que o Mercado sofria em sua época. “As pessoas bem prendadas não subiam, pois tinham o preconceito com o Mercado Público. Então vinham pessoas populares e artistas que foram meus alunos naquele tempo. Esse era o público que se apresentava. A gente via pessoas que não tinham nada a ver conosco.” Questionado sobre movimento artístico em plena época da ditadura militar, o bageense lembra-se do amigo e também artista plástico Francisco Lisboa, que era um dos mais atuantes na época.

Sobre as reformas no Mercado Público, cita as melhorias e ainda faz algumas comparações do seu tempo de Atelier Livre no Mercado. “Eu acho que era uma coisa necessária, né? Eles não tiraram o conteúdo do Mercado, pelo contrário, o movimento do público, tanto na parte de cima como na de baixo, é fantástico. O Mercado Público ganhou com isso, há vida hoje, deu uma circulação muito grande. Era inevitável essa mudança e foi uma mudança para melhor. Dentro do conceito da época, é totalmente sofisticado”, conclui.

 

Recentes
Antigos

COMENTÁRIOS