Danilo Schaeffer dos Santos: “O Mercado abriu as portas para mim”

Nascido em Passo Fundo em 31 de agosto de 1969, Danilo mora em Canoas desde 1979.  Começou como empacotador na rede Zaffari de supermercados, na unidade canoense, onde passou por várias seções. Define o período como um aprendizado muito bom. Depois, foi trabalhar na Cooperativa Dália, em Porto Alegre, onde também teve uma bem sucedida e agitada trajetória, sendo deslocado para trabalhar no litoral. Na volta, a empresa, que tinha uma banca no Mercado, fez uma proposta para que Danilo fosse seu supervisor.

Foto: Leticia Garcia

Começava, assim, a sua história no Mercado Público. E de maneira bem simples: varrendo e limpando, “que a loja estava uma bagunça”. Aos poucos, foi subindo. “Brincavam que eu era faxineiro, mas acabei me tornando chefe deles, liderando mais de 100 pessoas, participando até de reuniões na prefeitura.” Como cada trabalho, para ele, sempre foi de aprendizado, diz que os mais antigos, italianos e portugueses, ensinaram muito o novato no começo. Lembra bem do período da reforma dos anos 90, quando o movimento do público foi muito afetado. Eram tempos difíceis, de inflação, instabilidade econômica e bancas deslocadas para o 2º piso. Foi quando a Cooperativa Dália resolveu abrir mão da loja no Mercado para investir no seu minimercado, onde a empresa tinha sede, em Encantado. Com isso, Danilo ficou desempregado. Então trabalhou como taxista durante dois anos, em Canoas. “Mas era muito perigoso, por causa dos assaltos. Vi que não tinha futuro”, diz. O primeiro com quem falou no Mercado foi Ademir Sauer, dono da Banca 26. Ali ficou por cinco anos. Foi uma boa experiência, época de muito coleguismo. “Aí surgiu uma oportunidade na Banca do Holandês e acabei vendendo o meu passe em 2005. Este ano completou 11 anos que estou na banca.”

Conquistando e fidelizando os clientes

Ao longo desses anos, estabeleceu uma ótima relação com os clientes – alguns procuram por ele desde quando entrou no Mercado, em 1989. “É uma clientela de carteirinha, e aqui tem o que eles querem. A gente faz tudo o que o público quer, sabemos o jeito que o cliente gosta. Onde se é bem atendido, a gente sempre volta. E o bonito é que isso passa de pai para filho – aconteceu comigo também. O meu pai comprava aqui, era ferroviário, vinha receber no Banco do Brasil e me trazia no (restaurante) Embaixador para comer um pastel e tomar refrigerante.” Segundo Danilo, tudo conta para a boa imagem do Mercado: a limpeza, o bom atendimento e o sorriso de muito obrigado. Tem algumas lembranças do Mercado antigo, quando os terminais de ônibus eram no atual Largo Glenio Peres. “O pessoal descia do ônibus e já estava com um pé dentro do Mercado. Hoje, com a crise, o movimento caiu um pouco. Por isso tem que cativar o cliente.” Também lembra que antes não existiam os shoppings.  “As pessoas vinham dos bairros para fazer compras no Mercado. E os shoppings também têm estacionamento, ar condicionado.” Outra lembrança, mais recente, foi na Copa do Mundo. “O primeiro lugar que os turistas visitaram foi o Mercado Público, principalmente os holandeses. Foi uma coisa bonita.”

Os muitos diferenciais do Mercado

Na sua opinião, o Mercado está melhor em vários aspectos. “Em termos de limpeza, agora tem mais higiene. Antes era mais ‘povão’, hoje o cliente é mais selecionado”, compara. Entre os diferenciais do Mercado, aponta as vendas a granel que, segundo avalia, barateiam em até 30% os preços. Também o atendimento personalizado, atencioso e os produtos fresquinhos – carnes, peixes, frios – são outros atrativos. Com 26 anos trabalhando no Mercado, dali nem pensa em sair, apesar de achar que o trabalho sempre foi um pouco puxado no horário. “Mas não me queixo, o salário é bom, não dá para reclamar – tenho uma folga por semana.” Por essas coisas, Danilo é muito agradecido a todos que ajudaram na sua vida profissional, abrindo as portas do Mercado: à antiga Cooperativa Dália, a Ademir Sauer e a Sérgio e Adriana Alcântara, os donos da banca do Holandês.  “Quem trabalha aqui, fome não passa. Tudo o que eu consegui foi através dele – como uma casa e faculdade para o meu filho, que está fazendo Educação Física”, registra.

Mercado, segundo lar

Com cinco décadas trabalhando e convivendo no Mercado, fez muitas amizades com colegas e clientes. É ele quem organiza, por exemplo, os torneios de futebol do Mercado há 10 anos.  Ou seja, tem um convívio direto com os funcionários e com todas as bancas. Por isso também sentiu muito neste último incêndio. “Todo mundo sofreu no coração. Fiz até uma poesia sobre isso. Foi uma preocupação muito grande com o desemprego, e as despesas continuaram com as compras, salários. Mas, graças a Deus, foram só 37 dias parados.” As lembranças ruins ele compensa com os bons momentos, como a vez que pediu para a cantora Isabela Fogaça cantar “Porto Alegre é demais” no piano do projeto Piano Livre, no centro do prédio, fazendo o Mercado parar. Tem expectativas para o seu entorno, como o projeto do Cais do Porto, ou com um possível estacionamento subterrâneo. O que é Mercado para ele? “É a nossa segunda casa. E a gente tem que cuidar muito bem dela, preservar e melhorar para o amanhã. O Mercado não é só comércio; é cultura também, é a tradição de Porto Alegre.”

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