Daniel Josué De Souza – De menino de rua a especialista em bacalhau

Foto: Letícia Garcia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Natural de Butiá, nascido em 11 de junho de 1974, casado e com cinco filhos, dois deles trabalhando no Mercado (Daniela, na Banca 19, e Roger, na Banca 38), Daniel tem uma das mais curiosas histórias de personagens mercadeiros. Ele vem de uma família pobre e muito grande, de oito irmãos. Foi baleiro, engraxate, pedinte e picolezeiro. Saiu de casa com seis anos, e junto com o irmão de oito, Paulo Celso, costumava ir da casa, na Estrada do Forte, até o Triângulo da Assis Brasil – e depois, a rota era o Centro da cidade.

 

“Este trajeto a gente fazia todos os dias, a pé. Vimos que no Centro, tinha mais gente, e mais possibilidades de ganhar comida e viemos trabalhar aqui. Fiquei assim dos seis aos nove anos. Aí começamos a circular por dentro do Mercado e encontramos pessoas maravilhosas. Aqui, na volta do Mercado, tinha o Seu Miranda, da (padaria) Pão de Açúcar, que sempre me dava dois pãezinhos de manhã. A gente ganhava retalho de frios das outras bancas.” Acolhidos, os irmãos foram adentrando ainda mais o Mercado. Engraxando os sapatos de Ademir Sauer (da Banca 26), aos nove anos, perguntou se tinha alguma vaga. “Ele viu que eu tinha um bom diálogo e disse: ‘pode vir amanhã’. No outro dia, eu estava bem cedo no Mercado, mas o guarda não me deixou entrar porque eu era um pivetinho. Esperei o Mercado abrir e, então, fui na banca. Ali fiquei 24 anos. O Ademir foi uma espécie de pai para mim.” Para Daniel, o Mercado é diferente. “O Mercado não é um emprego, mas uma família. Todo mundo é meio parente.” Aliás, três irmãos também trabalham no Mercado: Daltro e Paulo, na Banca 26, e Fábio, na Banca 12. Grato aos seus patrões, gosta de lembrar que Ademir lhe deu mil dólares quando se casou e que o futuro patrão Sérgio (Lourenço, da Banca do Holandês) adiantou seis meses de pagamento quando ele estava reformando a sua casa. Na 26, começou limpando e varrendo a banca. Mas, graças à sua desinibição e facilidade de se comunicar, foi ganhando espaço e desenvoltura, buscando mais conhecimentos na área e se especializar em bacalhau.

 

DESCOBRINDO O MUNDO DO BACALHAU

Quando começou a trabalhar, as coisas melhoraram. “Eu tinha muito piolho, o Ademir mandou cortar o cabelo, viu que eu me coçava muito. Ganhei o apelido de ‘Cebolinha’, porque usava o estilo ‘milico’ até me curar. A formação que eu tenho hoje, de homem e de caráter, é graças aos permissionários do Mercado – não só ao Ademir, mas também ao Sérgio, à Adriana (Alcântara), da Banca do Holandês, que tratam os funcionários como filhos. Agradeço muito à família Sauer – Ademir, Ari, Domingos, Sérgio e Valdir –, nós passamos de uma situação paupérrima para uma estável.” Dos 24 anos em que permaneceu na Banca 26, destaca pessoas que foram importantes na sua carreira, como os colegas Justino e Celso, além do chefe. “Eram irmãos, pais, e com eles inclusive aprendi a ler mais, eu que estudei só até a 3ª série. Não tive a oportunidade de estudar mais, mas tive bons colegas.” A saída da 26 se deu por um “desgaste normal”, depois de duas décadas e meia na banca. Mas saiu muito bem e foi acolhido de braços abertos na 31, a Banca do Holandês. “Tinha a mesma estrutura da 26, patrão junto com os empregados. E com a mesma qualidade de produtos da 26.” Para ele, um dos segredos para ser bem-sucedido no Mercado é gostar dos clientes, que ele considera fundamentais. “Aqui já atendi presidentes da república, governadores e prefeitos, além de vários atores.” E o aprendizado com o bacalhau foi tendo na “teoria e na prática”, atendendo muitos portugueses mais velhos e chefs. Com eles, assimilou as técnicas, como dessalinização e manuseio, por exemplo, para dar “mais confiabilidade ao cliente”.

 

A DIVERSIDADE DO MERCADO

Orgulhoso do Mercado, acredita que ele proporciona produtos da mais alta qualidade aos clientes – e com grande circulação de mercadoria, o que garante frescor. “E aqui o cliente encontra tudo o que ele quiser, desde presunto Pata Negra de R$ 550 o kg a uma mortadela  de R$ 5, cachacinha de R$ 2 em uma garrafinha de plástico e champanhe de R$ 2 mil, caviar e guisado. Isso faz com que venham clientes de todos os níveis sociais. E todos têm que ser bem recebidos”, observa. Para a rotina puxada, diz que é preciso ter “empenho”, principalmente para cortar e arrumar a mercadoria, no seu caso, os bacalhaus, mantendo o produto sempre em dia e novo. E para levar essa rotina, diz que gosta muito do clima com a “vizinhança”, ou seja, os colegas das bancas próximas e as naturais brincadeiras – principalmente sobre futebol. “De manhã cedo é um chimarrão, uma conversa, a gente está sempre interagindo. Estou há 34 anos aqui, todo mundo é meio primo, amigo. A gente vai na casa de um, de outro, comer um churrasco. Tem católicos, espíritas, evangélicos (seu caso), umbandistas, e a gente se respeita.”

 

DIFERENÇAS DO MERCADO ANTIGO E O ATUAL

Dos tempos antigos, lembra quando o Mercado não tinha telhado e as bancas eram cobertas apenas por folhas de zinco, bem próximas dos funcionários. “Quando a gente subia para buscar erva-mate, chegava a ‘queimar’ as costas. Antes era um Mercado mais simples, mas ele não perdeu muito as características, arquitetônicas principalmente. Ficou legal esta reforma porque o telhado subiu, ganhou em amplitude. E ficou mais refrigerado do que antigamente.” Diz também que os produtos naqueles tempos eram mais simples: arroz, feijão, charque. “Quem vinha comprar champignon era um doutor, um general. A gastronomia mudou muito. E o cliente também: hoje ele está mais sofisticado.” Outra grande mudança, registra, é a questão da segurança. Houve uma época, garante, que eram os próprios funcionários que tomavam conta. “Eles tinham pedaços de pau dentro das bancas. Às vezes, dava briga, gente puxando faca.” Também faz o seu registro contra ao que ele define como “incompetência política” em relação aos prazos de reconstrução do Mercado, depois do último incêndio. De resto, tudo tranquilo: “Eu devo muito ao Mercado, ele foi a porta que Deus abriu, através de muitas pessoas, para a minha dignidade. Não reclame da vida e seja feliz com o que você tem”.

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