Alcy Cheuiche – Contar nossas histórias

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

 

Alcy Cheuiche é um grande nome da literatura gaúcha. É membro da Academia Rio-Grandense de Letras e sócio-fundador da Associação Gaúcha de Escritores. Herdou do pai o gosto por histórias e o entusiasmo pela vida do campo. É consagrado por seus romances históricos, a grande maioria ambientados no estado e com temas regionais, como “O mestiço de São Borja”, “Sepé Tiaraju: romance dos Sete Povos das Missões” e “A guerra dos Farrapos”. Cheuiche traz sua visão da cultura gaúcha para a coluna deste mês.

Foto: Letícia Garcia

Eu nasci mais no litoral, em Pelotas, mas fui com quatro anos para o Alegrete. E quando abri os olhos, enxerguei aquela pampa toda. Meu pai tinha paixão por leitura, principalmente do que era nosso – então, além de contar as histórias para nós, aquela história para crianças, ele sempre dava um jeito de contar a história da própria história. Ele nos contava histórias sobre os acontecimentos do Rio Grande do Sul – as missões guaranis, a Guerra dos Farrapos… Meu pai era uma pessoa que herdou esse dom de narrar dos árabes, mas ele não gostava de escrever. Eu comecei, então, a escrever. Lembro que uma das primeiras coisas que escrevi foi quando ele nos contou um duelo entre Bento Gonçalves e Onofre Pires, quando vínhamos de carro, à beira do arroio de Sarandi. Naquela noite eu escrevi um poema sobre o duelo e de manhã, na hora do chimarrão, eu o dei para ele. Comecei com a poesia, mas gosto mesmo é do romance, e acho que, como dizia Tolstoi, “o universo começa no pátio da nossa casa”. Então nós temos que contar primeiro as nossas histórias para depois nos preocuparmos com as outras. Eu sou um homem que adora o campo. Então quando o meu livro passa pelo campo eu sei que ele é muito autêntico. Gosto muito de escrever sobre a minha terra, e de sentir o cheiro da terra.

 

Gaúcho e a região do pampa

A cultura gaúcha, no meu entender, representa toda uma história que começa com os índios guaranis. Quando nós falamos em gaúcho hoje, nós dizemos “é nascido no Rio Grande do Sul”. Mas esse termo é comum ao Uruguai, à Argentina, a toda essa região da pampa. O gaúcho é o homem que foi trabalhar no campo. Quando expulsaram os índios, ficaram dois milhões de cabeças de gado vagando em toda essa região. Então foram esses mestiços de índio, de negro, de branco, que formaram o gaúcho, esses mestiços é que iniciaram a história do Rio Grande do Sul. E é bonito que o gaúcho tenha crescido. Primeiro era sinônimo de bandoleiro, de gente que andava por aí – e não eram bandoleiros, realmente eles eram figuras que não se deixavam dominar (daí veio o termo gaudério). Agora, para mim, acho que não podemos falar em nada sem entender a cultura de toda essa região. Às vezes estamos usando palavras que dizemos que são gaúchas, e realmente elas vieram do quichua, ou do aimara, que vem lá da Cordilheira. Dois exemplos: charque, que é carne de sol em todo o Brasil, é uma palavra que vem do idioma quichua, que era do Império Inca. Nós temos que abrir mais a nossa cabeça para entender a verdadeira cultura gaúcha.

 

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