Confeitaria Rocco, lembrança dos grandes tempos da cidade

A Confeitaria Rocco é um marco dos tempos em que a velha província começava a ganhar ares mais cosmopolitas, principalmente no centro da cidade, onde se concentrava o poder político com os seus mais expressivos líderes, como Getúlio Vargas, a dita alta sociedade e seus aristocráticos personagens. Hoje, pela sua importância histórica e arquitetônica, integra o rol dos bens tombados pela prefeitura, desde 1997.

 

CENTRO HISTÓRICO, por Emílio Chagas

Quem passa pela esquina das ruas Riachuelo e Dr. Flores, junto à praça Conde de Porto Alegre, antiga Praça do Portão, talvez não imagine que ali, naquele suntuoso prédio fosse um dos pontos mais importantes da cidade há mais de meio século.  Em estilo eclético, com elementos de composição e decoração de fachadas baseadas na arquitetura e na mitologia clássica greco-romana, a Confeitaria Rocco era o cenário de numerosos banquetes, encontros políticos, abrigando ainda uma fábrica de doces, confeitaria e salão de festas dos mais concorridos da cidade. Seu proprietário era Nicolau Rocco, um italiano que antes trabalhou na famosa confeitaria El Molino, em Buenos Aires. Vindo para Porto Alegre, antes da Rocco, fundou a Confeitaria Sul-América. Para projetar o prédio, contratou o arquiteto Salvador Lambertini, que morreu em 1911, antes da conclusão da obra. Para concluir os trabalhos foi chamado, então, um dos mais importantes engenheiros gaúchos, Manoel Itaqui, responsável por prédios como o Observatório Astronômico da UFRGS e o viaduto Otávio Rocha, entre outros. Assim, a Rocco foi inaugurada em 20 de setembro de 1912.

 

Luxo e requinte em todos os detalhes

Rapidamente o local conquistou a cidade e sua sociedade, não apenas pela riqueza e beleza arquitetônica, ambientes decorados com luxo e requinte com rico mobiliário e balcões de tampos de mármore, mas também pela qualidade dos seus produtos. Na imponente fachada, entre inúmeros detalhes, chama a atenção o trabalho do escultor italiano Giuseppe Gaudenzi, radicado no estado: seis enormes atlantes – três jovens, representando a América e a Fartura, e três velhos, que simbolizam a Abundância e a Europa. O frontão, de Frederico Pellarin, um conjunto escultórico traz vários simbolismos, como a luz, infância e a música. Destacam-se ainda as sacadas, todas trabalhadas em ferro e as grandes colunas e pilastras com capitéis em forma de cabeça de leão. São quatro pavimentos, distribuídos numa área de 1.560 m². Inicialmente a fábrica de doces ficava no subsolo, sendo o térreo destinado à confeitaria, com acesso ao público em geral. O grande salão de festas ficava no segundo pavimento e no terceiro, copa e outras salas. Acima, o terraço com uma bela vista da cidade, naquela época, baixa e com poucas edificações mais altas.

 

Passado glorioso, futuro incerto

Tudo no prédio foi concebido buscando uma alusão às artes, em especial à música, traduzindo uma época de valores culturalmente mais nobres. Pinturas murais de grandes dimensões e iluminação cenográfica, salão de festas solicitadíssimo para banquetes e bailes aristocráticos, bem ao estilo positivista, de monumentalidade e simbolismos, demonstravam a cultura dominante do período – que sucumbiu com os novos tempos. A Rocco resistiu até 1968, quando fechou. O prédio foi declarado de utilidade pública em 2012, para fins de desapropriação, e pertence aos herdeiros do fundador. Seu destino? Várias possibilidades já foram aventadas, permanecendo como uma incógnita. Mas uma coisa é certa: os tempos não voltam mais.

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