Clóvis Althaus Júnior: “O Mercado é uma imersão no Brasil”

Casado, dois filhos, Clóvis é de família gaúcha, mas nasceu em São Paulo, em agosto de 1970, num breve período em que seu pai trabalhou lá. Vinha no Mercado com a mãe desde pequeno, tem muitas lembranças deste tempo. Há quase 20 anos com o Café do Mercado, que ocupa três espaços do prédio, auxiliado por aproximadamente 15 pessoas, Clóvis comanda um pequeno império ligado ao café, atendendo mais de 1500 lojas em quatro estados brasileiros.

Foto: Leticia Garcia

Além das três cafeterias no Mercado, ainda tem em Porto Alegre uma na galeria do Cine Vitória, no centro da cidade, e mais a matriz no bairro Navegantes, onde é feita a torrefação. Despertou para o café ainda pequeno, com a mãe, que gostava muito de café – sem açúcar, o que chamava muito a atenção do garoto. O pai também teve uma pequena influência, por ter trabalhado por algum tempo numa empresa de café. Mas o despertar mesmo veio quando morava na Califórnia/EUA. Lá começou a ver o surgimento de algumas redes de café de qualidade e do espresso. “Quando voltei para o Brasil, surgiu a oportunidade da banca aqui no Mercado Público, bem na época em que ele estava reabrindo, depois da reforma, em 1997. A banca era exatamente onde está hoje, no Quadrante II.” Nos EUA, percebeu a tendência de mercado de café de alto valor agregado. “Era com isso que eu queria trabalhar, e não vender grandes volumes com pequena margem.” Assim, o administrador de empresas, que já havia trabalhado em grandes grupos, como Gerdau, Shell e Brahma, se tornou um empresário no ramo do café especial.

 

Surge o Café do Mercado

O começo foi bastante difícil, já que era a única banca existente nessa área do Mercado. “Era uma ‘caverna’ nesse canto, escuro. O lixo orgânico era do lado. O cheiro era mais que complicado e passava pouca gente, quase ninguém. A gente tinha que gritar ‘café feito na hora!’ para os clientes no corredor”, lembra. Para complicar ainda mais, a SMIC proibiu a venda do café espresso no começo, “mandando tirar a máquina, sem dar maiores explicações” – a liberação levou seis meses. E aí, deslanchou. Clóvis lembra que a venda de grãos também começou a crescer, porque “uma coisa leva à outra”, ou seja, as pessoas tomavam um espresso e também levavam o café. “Começou a criar uma comunidade em torno do café. Desde o início, demos descontos para os funcionários do Mercado, virou um ponto deles, que passaram a nos indicar, e o nosso cantinho começou a ficar conhecido.” Ele acredita que tenha sido o pioneiro no Mercado nesse segmento. De qualquer maneira, o interesse pelo espresso e o desenvolvimento do barismo, afirma, com certeza, ter acontecido através do Café do Mercado, “não só aqui, mas no Rio Grande do Sul”. Da pequeníssima equipe inicial, restou Josselo Escouto, o torrador de café que está com Clóvis há 18 anos. Consolidado no Mercado, o negócio se expandiu, passando a oferecer treinamentos e se colocando à disposição de outras cafeterias. Além das mais de 1500 já referidas, só a matriz atende mais de mil clientes com a torrefação – e não só cafeterias, mas também restaurantes, padarias, hotéis e lojas.

 

O cherinho irresistível que atraiu clientes

Para chegar nisso, foi preciso muita estratégia, principalmente de usar o irresistível poder do aroma do café. “De vez em quando, a gente moía um pouquinho, botava no ventilador para pegar as pessoas. Elas vinham ‘flutuando pelo nariz’, como nos desenhos animados”, brinca Clóvis. “Em 1999, a cafeteria da Célia (Estação Café), que era considerada a melhor de Porto Alegre naquele momento, passou a trabalhar com a gente e aquilo foi uma coisa muito importante. Ela já tinha sido eleita pela Veja Porto Alegre Comer & Beber como a melhor da cidade.” Aliás, o Café do Mercado, mais tarde, também ganhou duas vezes como o melhor espresso da cidade e foi indicado outras tantas para a premiação dessa revista. E diversos outros prêmios, como os de barismo: no Campeonato Brasileiro de Barista 2007, a representante do Café levou o prêmio de Melhor Performance Técnica e, na edição 2008, outra representante ganhou as estapas RS e SC e o bronze nacional.  Além de ter dois campões gaúchos no campeonato regional, numa época, segundo Clóvis, em que havia participação maciça das principais cafeterias do RS.

 

Os cafés especiais e importância do Mercado

Clóvias define a freguesia como o fator mais gratificante, explicando que as pessoas têm um carinho muito grande pelo Café. “A gente conseguiu construir uma marca bastante sólida e de qualidade, principalmente com esses projetos que criamos, dos cafés especiais de origem. Nosso trabalho mais importante é trabalhar com café certificado. O Brasil tem um sistema de certificação de cafés por lote que é um dos mais importantes do mundo. E a gente é um dos maiores expoentes desse trabalho no país”, revela. Em relação ao Mercado, acredita que as suas bancas estão cada vez melhores, se atualizando. “O Mercado está em lento processo de renovação. Acho que precisa de uma injeção de ânimo no prédio. No incêndio, a população teve uma comoção e veio nos apoiar. Agora percebemos que as pessoas estão esperando o Mercado voltar com força total.”Clóvis fica no Mercado todas as manhãs, alternando entre as duas lojas, cuidando das coisas da operação. “Sempre que posso, torro o meu café – meu passatempo preferido. À tarde vou para a fábrica. Minha vida foi construída dentro do Mercado, o sustento da minha família. Então, ele é muito importante, adoro estar e trabalhar aqui, onde a gente potencializa o Brasil.”

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