Claudio Klein: “Mário Quintana me disse: ‘O Mercado Público é protegido pelos fantasmas do tempo'”

Mario Quintana me disse:  “O Mercado Público é protegido pelos fantasmas do tempo”

 

     Claudio Klein, porto-alegrense, há 47 anos no Mercado, olha o passado com olhos de um guerreiro. Vê a sua vida na vida do Mercado.

     Nascido em berço de palha como muitos que aqui passaram, Cláudio não fechou os olhos diante das dificuldades. Percebeu que o que a vida lhe cobrava, mas acabava por lhe dar orgulho a cada tarefa realizada.
Já com 6 anos trabalhava com o pai, servindo taça de café, pão e manteiga. Acordava às 4 horas da manhã e estudava à tarde. Aos 8 anos trabalhou numa malharia, lembra com alegria: “eu já tecia um blusão de lã em uma hora e meia”. Do tempo de criança, lembra dos passeios de bicicleta na Redenção. Ou ainda dos filmes vistos no cinema Carlos Gomes ou no Capitólio, “gostava de ver aquela tela, mas as minhas horas de lazer foram poucas, eu trabalhava durante o dia e estudava à noite, chegava em casa às 23h. Tudo isso me passou muita responsabilidade, hoje sou muito grato por isso”.
Até que um certo dia o atual sócio, Oscar Endress falou com o seu pai, Benno Klein. Que precisavam de um assistente na Banca 43. Ele foi e começou as atividades. “Entrei na banca 43, de propriedade de Arlindo Oswaldo Musskopf, carregando pacote, varrendo a banca, limpando os azulejos, fazendo reposição de produtos e atendendo a freguesia da banca”. Que já naquela época buscava um posicionamento na área de produtos importados.  Os grandes navios aportavam em Porto Alegre fazíamos permutas de café por caviar, salmão, cerejas, azeite de oliva, todas aquelas especialidades que não tinham em outros países.
“O pessoal ia até o porto e via o que tinha de produtos especiais. A gente não comprava, só trocava por especiarias que faziam parte de uma gastronomia mais nobre”. Assim a banca começou a engatinhar para atender o público mais nobre. O que se perpetua até hoje, no mesmo lugar onde tudo começou.
Vendo novas possibilidades ele aceita a proposta para trabalhar na Nestlé do Brasil, onde fica durante dois anos, na área de vendas e relações humanas. Mas os fantasmas do Mercado o trouxe de volta. Seu Arlindo o chama. “Tu volta para o Mercado, nós vamos cobrir o teu salário, tu vai ser sócio da banca 43. Eu gostaria que você voltasse a trabalhar aqui”. A banca então é vendida para os sócios Oscar Endress, Neroci Almeida e Cláudio Klein. Trabalharam durante seis anos para comprar a loja”, diz.
Dentro do Mercado fez muitas amizades. Foi membro da Associação do Mercado – ASCOMEPC durante 12 anos. Procurou manter o Mercado para que as futuras gerações conhecessem a história do MP. “Cada banca, tem a sua história, todo o trabalho desenvolvido, os seus donos e funcionários”.
Recorda ainda de quando queriam derrubar o Mercado. O presidente da Associação era Antônio Mello, e ele, membro do conselho. “Foi feito um grande movimento para evitar tal tragédia, jornalistas, historiadores, políticos, advogados e clientes … todos nos apoiaram, fazendo uma corrente muito sólida. Eles não estariam destruindo um prédio e sim famílias inteiras. “Mário Quintana vinha, dava uma passada pelo Mercado, tomava uma salada de frutas. Era ponto de encontro de poetas, escritores, jornalistas, políticos. Me disse que o Mercado jamais seria demolido. Curioso, perguntei a razão. Porque o Mercado é protegido pelos fantasmas do tempo. Isso é algo que jamais esquecerei”, disse. Aqui circulam todas as pessoas, desde o mar-miteiro até o executivo. Até o presidente da república, general Ernesto Geisel, visitou o Mercado e fez aqui suas compras. Na 40 e 43 ele vinha. A partir do Mercado a cidade se desenvolveu, grandes empresas, a própria prefeitura, tudo se desenvolveu junto com o Mercado.”

O guerreiro baixa a guarda
Cláudio se emociona ao lembrar dos 10 anos que passou sem tirar férias. Trabalhava de segunda a domingo, ainda quando era empregado. No dia do seu casamento saiu do trabalho uma hora e meia antes. “Botei minha fatiota e fui pra igreja. Meu patrão me deu quatro dias de folga e no terceiro dia eu voltei, com medo de perder o emprego”. Nunca chegou um dia atrasado, muito menos faltou ao trabalho, às vezes até chegava mais cedo. Lembra entre sorrisos que certo dia chegou uma hora antes pensando que já estava atrasado. Não tendo remédio foi tomar café no Pana-mericano, onde encontrou seu patrão. “Cláudio o que está fazendo aqui essa hora? Você virou a noite?” Remador, quase profissional, remava, das 4 às seis da manhã, três vezes por semana pelo Grêmio.
Ele acha que o Mercado, apesar de ter seus problemas é linha de ponta na conservação de produtos e de entendimento comercial. Decepções: “Minha única tristeza é que pouca coisa aconteceu por parte do poder público. Estacionamento, calçadas externas, banheiros públicos, segurança, iluminação externa – deveriam dar mais atenção ao nosso Mercado. Ele está carente de uma série de coisas básicas por parte do poder público. Você quer ir no banheiro, é um horror, quer pegar uma escada rolante, tá parada, porque falta manutenção.” Lembra que durante a reforma teve gente que morreu, que perdeu seus bens para honrar os compromissos : “Foi um ano horrível que passamos”, recorda. E conclui dizendo que toda a sua vida está atrelada ao Mercado Público. “Meu crescimento e sucesso. Tudo o que eu tenho devo ao Mercado Público. Continuo trabalhando 12 horas por dia aqui dentro. O Mercado para mim é a minha primeira casa.” Emocionado, volta para a sua Banca.

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