Cláudio Costa da Silva: “Temos que ter orgulho de ter uma banca no Mercado”

Cláudio Costa da Silva: “Temos que ter orgulho de ter uma banca no Mercado”

 

Ele viveu os tempos das primeiras peixarias, passou por reformas, mudanças de ramos de negócios, cresceu e amadureceu no Mercado. Com o esforço de uma vida construiu amizades, patrimônio e, principalmente, uma boa família. Por tudo isto, tem muito orgulho e gratidão ao Mercado.

 

Uma típica história vivida em família no Mercado. O avô Boaventura da Costa foi quem começou tudo, com uma banca de peixe. Como reza a tradição do Mercado, trouxe o genro Nicolau Ignácio da Silva, em meados dos anos 40, pai do nosso personagem Cláudio Costa da Silva, que a exemplo de outros antigos mercadeiros, veio com 10 anos de idade, em 1953. A banca, para variar, era uma peixaria, mais ou menos onde atualmente é a Banca 12. A peixaria não foi por acaso; o pai primeiro foi pescador, depois abriu outra peixaria na antiga “Coréia”, área onde ficavam os que vendiam peixes em mesas de pedra. Mas em seguida mudaram para uma banca, praticamente uma das primeiras, modesta, mas bem situada. E com uma grande novidade: um refrigerador que conservava o peixe. Por isso, já não era preciso mais cortar o rabo do peixe. “Eram três chamadas. As 9, 9 e meia e 10 horas. Aí vinham os fiscais e cortavam o rabo do peixe”. Isto, claro, na “Coréia”, onde não havia frigorífico. Peixe com o rabo cortado pelos fiscais significava peixe condenado. Eram apenas duas bancas que tinham o privilégio do frigorífico e as primeiras que ficavam fora da área dos bancos de pedra. A do seu pai, a banca 2, de peixe, e a banca 1, do Modesto, recorda ele. “O peixe era embalado com jornal e foi assim durante muito tempo, uns 20 anos, eu acho”. Dos fiscais tem, contudo, boas lembranças. “Incomodavam pouco, conversavam, eram legais”, diz. Tinha uma sala de fiscalização, com uma balança “bem no meio do corredor”, onde o peixe era pesado. Pesavam, recebiam o imposto de 2% e faziam o trabalho deles, resume. O trabalho era duro, começando às 6 horas da manhã. Mas, às 10 horas já tinham vendido praticamente todo o peixe – embrulhado em jornal. Calcula que foi nos anos 70 que chegou o novo papel de embrulho. E assim, com os novos tempos acabaram-se também a “Coréia” e os bancos de pedra.

 

O garoto fileteador de peixe

Outro diferencial da banca é que o peixe era pescado pela própria família, vindo da Lagoa Mirim, Tapes, Jaguarão, São Lourenço. O pai tinha barco de pesca e teve até quatro caminhões para transportar o pescado. O que sobrava ia para São Paulo.  Depois da banca 2, a família também adquiriu a banca 49, aberta entre 1959 e 1960. E a partir daí, começaram a surgir novas bancas; “O Chinga abriu a banca 3, depois veio a São Pedro”. Com a nova banca, com mais estrutura e mais movimento, vieram também os irmãos mais velhos, Zélio Dadai e Wilmar Neni. “Naquela época se vendia bastante, não tinha supermercado, peixe era no Mercado”, recorda. Os campeões de vendas – tainha e bagre, este último um peixe que dava sempre em grandes quantidades. No começo o garoto fazia apenas meio turno. Depois, foi crescendo e o horário aumentou, entrando até a noite. O trabalho: embalar e fazer filé, que era o que mais gostava de fazer. Mostra com orgulho a foto com o primo Paulo “Banana” Nunes da Silva a sua destreza em filetear um peixe, aos 14 anos.

 

Mudanças de ramo

Com o fim do Mercado Livre Nicolau viu uma nova oportunidade. Então, em 1967, mudam de ramo, passando a vender frutas e verduras. Porém, a mudança durou poucos anos. Havia muitas bancas do gênero, inclusive nos arredores do Mercado. Sem falar dos prejuízos. “Ia muita coisa fora”. Vem, então a mudança definitiva para ser o que é até hoje: uma flora. Ele não tinha experiência, mas tinha parentes que trabalhavam com estes produtos no antigo mercado que havia, onde hoje é o Trensurb. A adaptação levou uns seis meses para se consolidar. No mesmo ramo já havia a banca 1, também chamada a Banca da Bandeira, que vendia velinhas, ervas, chás. Não considera as outras floras concorrentes. Pelo contrário, acha bom que existam porque isto leva as pessoas a pensarem que quanto mais houverem num mesmo local melhor, porque “se não achar numa, vai na outra”. De qualquer forma, afirma que antes se vendia mais porque haviam menos lojas. “Hoje até em super se compra velas, tem muitas florinhas, existe mais quantidade de mercadorias”. Não teve dificuldades com o novo ramo. Foi aprendendo no dia a dia, sem se envolver com a religião, apenas vendendo os materiais. O segredo era prestar bem atenção.

 

A família, reforma e dificuldades

Casou 1972, tocando sozinho a 49, é sócio majoritário. Os filhos vieram em seguida, Cláudio Costa da Silva Jr, Francine Garcia da Silva e Juliano Garcia da Silva. Como o pai, também começaram cedo no Mercado, aos 14 anos. Como vários donos de bancas, passaram dificuldades com a reforma. Para começo de conversa, foram para o piso superior. “Foi bem difícil, movimento parado. Foi feio, não só pra mim, mas para muita gente. Eu desci devendo, tinha filhos em colégio particular. Foi um longo período, muito ruim”, diz ele, lembrando que muita gente não se adaptou com os novos negócios. E outros nunca retomaram o ritmo anterior dos seus negócios. Contudo avalia que foi importante a reforma, principalmente por trazer uma cobertura “fantástica”. “Primeiro não tinha nada. Era a céu aberto, depois teve um telhado de zinco, depois de madeira, que queimou. Aí fizeram a reforma. Claro que teve uns que saíram prejudicados, mas são coisas da vida e do mercado”, avalia.

 

Passando o comando. E realizado.

Há mais ou menos 15 anos passou o comando para os filhos, principalmente para Cláudio Júnior, o mais velho. Diz que o processo foi bem tranqüilo, porque eles já vinham trabalhando. Porém ainda sente muita falta, mas com o tempo vai “arrumando outras coisas pra fazer”, inclusive para a loja. Têm ainda muita saudade do movimento “diferente”, de ver pessoas, da vida do Mercado, onde fez muitas amizades. “Quem trabalha no Mercado sempre faz amizades, dificilmente se dá mal com algum. Um serve o outro e se ajudam bastante”. Tem muita gratidão ao velho Mercado. “Para mim ele representou bastante, tudo o que eu tenho consegui dali”, diz referendo-se a sua família e patrimônio. A esposa teve e continua tendo, papel fundamental, ajudando a fazer produtos em casa para levar para a flora. É muito grato também a parceiros fornecedores, que vendiam mercadorias sem pressa de receber. Por isto considera o crédito um dos maiores patrimônios. “Às vezes vale mais do que dinheiro. Quem tem crédito tem tudo na vida e só tem quem é honesto. O importante é ser honesto e aproveitar as oportunidades que as pessoas te dão”. Este é o legado que deixa para os filhos, afirma o guerreiro que na banca gostava de tirar filé e na flora, de procurar mercadoria e fiscalizar a qualidade para os clientes. Trabalhos que sempre cumpriu muito bem. E por eles, teve recompensas: “Graças a Deus está tudo bem, tenho uma família boa, os filhos bem encaminhados, donos dos seus narizes”.

                                                                                              Fotos: Fabrício Scalco/JM – Arquivo pessoal/Cláudio Costa da Silva

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