Claudio Costa da Silva Jr: “O Mercado é um membro da família”

Ele é um dos tantos que começou cedo no Mercado, levado pelo pai. Natural de Porto Alegre, nascido em 25 de junho de 1974, casado, com uma filhinha de um ano e meio, Júnior começou aos 13 anos no mundo mercadeiro. Ele estudava meio turno e no outro trabalhava na banca do pai, Claudio Costa da Silva, que, por sua vez, herdou a loja que era do seu pai, avô de Júnior.

Foto: Leticia Garcia

“Quando o meu pai começou, era uma peixaria, que depois transformou em uma fruteira. Mas como não dava muito movimento, passou a ser Flora Rainha do Mar em 1953”, lembra. Daquele tempo, tem lembrança dos corredores das peixarias, dos primos e da rádio Mercado, que ficava nos fundos da banca. Tem memória ainda da localização das bancas antigas, quando existiam duas bancas 1 e corredores estreitos. Seu início foi no balcão. Lembra que o seu pai transformou a fruteira aos poucos, com “umas coisinhas de flora, velinha, chazinho”. A aceitação foi boa, fazendo com que ele migrasse para o ramo das floras. A 49, aliás, mantém clientes daqueles tempos até hoje. Consciente da religiosidade que emana do Mercado, acredita que “todo mundo tem seu santo, sua crença, acende uma velinha. O pessoal gosta desse tipo de coisa, dessa tradição, das coisas místicas. O Mercado Público atrai bastantes eventos nesse sentido, as pessoas fazem fila para tomar o seu passe e receber um axé”. Quando estava entre os 18 e 20 anos, seu pai começou a vir menos ao Mercado. “Em determinado momento, vinha só meio turno. Minha irmã trabalhava comigo e depois meu irmão também começou a vir. Com o tempo, eu passei a tomar conta, a assumir. E o pai, a ficar em casa, vindo de vez em quando.”

 

Clientela amiga

Nos tempos antigos, diz que o Mercado era um dos poucos centros de abastecimento de Porto Alegre e que, com o tempo e com os shoppings centers, o comércio se expandiu mais. “Mas a tradição dos clientes continua até hoje, embora um pouco menos. Eles conhecem a gente pelo nome, sabem qual é a banca ‘do baixinho’, ‘do gordinho’, ‘do altinho’. Vejo que antes eram os adultos que vinham, hoje eles trazem os mais novos. Ou seja, estão tentando passar essa tradição para as novas gerações. E isso tem dado certo.” Em relação às vendas, diz que antes a concorrência era mais fraca, embora  a população tenha aumentado. “Mas acho que antes tinha mais venda. Hoje, os shoppings, lojas em bairros, e até nas cidades mais próximas da Região Metropolitana, fazem com que alguns clientes não venham mais aqui.” Do período da reforma, não tem boas lembranças. Como muitas outras, a loja teve que ir para o 2º piso, o que afetou bastante as vendas. Só para se ter uma ideia, a Rainha do Mar tinha seis funcionários e, enquanto esteve fora do seu ponto, passou a operar com apenas dois. Hoje voltou ao patamar dos seis colaboradores. Das mudanças daqueles tempos até hoje, diz que o Mercado, especialmente na administração, teve muitos altos e baixos. Acha que evoluiu, mas também, em alguns aspectos, parou: “Parece que ficou meio atirado. Da reforma para cá, modificou a estrutura, deu uma cara nova, melhorou bastante. Mas atualmente está bem parado, não sei se por causa da restauração do incêndio, mas está um pouco esquecido em alguns detalhes – coisas que não aconteciam antes, como problemas em piso, bueiros. Neste ponto está deixando a desejar”.

 

Rotina puxada e muito trabalho, sempre

Hoje a rotina de Claudio ainda é puxada. É ele quem abre e fecha a loja, “ficando direto, sem tempo para nada”. Mas, com a filha pequena, quer ver se muda um pouco essa realidade, para ficar mais tempo com ela e a esposa. “Quero ver se consigo alterar, folgar de manhã ou de tarde, como era antes.” Aliás, o nosso personagem sempre trabalhou muito. Já entregou jornal para assinantes, das 4h às 7h da manhã, para depois ir trabalhar no Mercado. E ainda tinha faculdade à noite. “Era onde eu dormia (risos). Perdi várias cadeiras por isso. Depois tranquei a Engenharia na PUCRS e me formei em Educação Física na Ulbra.” Ele também ajudou um tio a distribuir leite da antiga Corlac pelo interior, teve outros empreendimentos e foi professor de Educação Física em colégios e creches – mas sempre ligado ao Mercado em algum turno. E sua ligação com o Mercado também é muito afetiva. “Tenho muitos primos que trabalham aqui. Primos no peixe, em restaurantes, em fruteiras, nas carnes, que trabalham com frios. E minha relação é muito boa no Mercado, tenho amigos em todas as bancas. Antes tinha o ‘rádio-corredor’, que agora é ‘rádio-cafezinho’. Estou sempre enturmado com os amigos.”

 

Lembranças, alegrias e decepções

Nesses 28 anos de Mercado, viu muitas histórias e brincadeiras. Por exemplo: “A gente já viu clientes serem agraciados com milagres aqui dentro, de entrar de muletas e sair sem precisar delas (risos)”. Muitas traquinices também, como guerra de moelas de peixes com os primos, quando eram pequenos, colocar serragem dentro do guarda-chuva dos amigos, enrolar tijolo como pacote, jogar pó de mico uns nos outros…  Talvez por essas coisas que ele considere o Mercado uma família – são até 12h dentro do prédio. Saudades do Mercado antigo? “Acho que era um pouco mais aconchegante. Talvez seja impressão por causa do antigo telhado, que era mais baixinho, hoje está mais moderno”. Mas Júnior frisa que sempre se deu com tudo mundo, com pequeníssimas exceções: “Um ex-amigo teve uma atitude que me decepcionou muito. Mas a vida continua, bola para frente. E, como já dizia um grande sábio, ‘o que não me mata, me fortalece’”.

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