Cláudia de Paoli: “Eu sou filha do Mercado”

Os pais, Olga e Leonel de Paoli, se conheceram no Mercado, para onde vieram trabalhar, ambos do interior – ela de Bento Gonçalves, ele do interior de Lageado. De uma família tradicional no Mercado, os Toniolo, Olga era uma das poucas mulheres a trabalhar nele, num ambiente predominantemente masculino, o que lhe acarretava muitas recomendações por parte dos pais. Mas o amor foi mais forte e ela acabou conhecendo Leonel, tomando cafezinhos e começando um namoro. Resumindo: hoje estão casados há 43 anos, sendo Cláudia fruto dessa união. Daí porque ela gosta de dizer que é “filha do Mercado”. 


 

Aliás, filha nascida em fevereiro de 1975, que também se criou pelos corredores do Mercado. “Naquela época não tinha escolinha e minha mãe me trazia para cá. Ela conta que minha cama era uma caixinha de maçã, com pelego”, diz. Menina travessa, certa vez foi parar no HPS ao encher o nariz com grãos de feijão na fruteira onde o pai trabalhava. Bateu a cabeça, escapava da banca, entre outras travessuras. Desinibida, falava com muitas pessoas. Certa vez foi levada pela mão de um segurança para comprar uma boneca, mas sob o olhar do pai que seguiu os dois pelos corredores do Mercado. Lembra dos muitos gatos do Mercado antigo, com os quais a mãe a proibia de brincar. “Eu chorava”, lembra. Quando Cláudia tinha quatro anos, a mãe engravidou do irmão, que nasceu com deficiência auditiva. “Minha mãe teve que parar de trabalhar, então. E passou a cuidar dele, levando em escolas especiais.” Foi em meados da década de 80 que a atual banca Bandeira entrou na vida da família. A Bandeira é a flora mais antiga e tradicional do Mercado, pois veio sendo transmitida de geração a geração da família negra Bandeira, procuradíssima pela comunidade afro-religiosa por décadas. A última proprietária, Dona Morena, só venderia com a condição de que a banca não mudasse de ramo.

 

Entrando no mundo das floras

 

O problema era que Leonel nunca tinha trabalhado em outro lugar, além da agropecuária e da fruteira. Uma flora não estava nos seus planos: além de ser de uma família católica, interiorana, não conhecia nada do assunto. A avó de Cláudia, por exemplo, católica fervorosa, ficou furiosíssima com a novidade – não soube diferenciar negócios de religião. Como diz Cláudia, no começo os próprios clientes ajudavam muito a família a entender o assunto, mostrando os produtos, explicando coisas que não conheciam. “Meu pai fechou os olhos e tocou o negócio, teve que se adaptar com o novo ramo. Só que ele aprendeu e gostou e, depois da reforma, nem pensou em mudar. Eu comecei a pesquisar. Tem muita força aqui dentro, a história do Bará… Eu particularmente adoro, embora não conheça. Nem sei o que se faz numa terreira, mas sei fazer uma oferenda”, resume, acrescentando que hoje ela e o pai são quem ajuda e orienta os clientes. “Eles pedem ajuda, a gente acaba sempre sendo um pouco psicólogo”, diz. Até chegar nessa condição, foram anos de aprendizado daquela jovem que fez Magistério, depois Pedagogia – mas que acabou optando pelo Mercado. Ainda estudante, vinha para ajudar na banca – no Magistério era muito trabalho e salários baixos. O pai, que estava prestes a se aposentar, convenceu a filha que seria mais gratificante ficar no Mercado: “Fui ficando, ficando e acabei me apaixonando por isto aqui. Gosto do que faço, de lidar com pessoas, de balcão, de vendas. Adoro, sou apaixonada pelo Mercado, gosto do cheiro, da cor. Compro aqui tudo do meu dia a dia, frios, ervas, etc.”.

 

A tradição da banca

 

Em todos esses anos, diz que muitas coisas mudaram na rotina. A começar pelo Mercado, que antigamente era “muito feio e sujo. Muita coisa se modernizou de lá para cá. A gente trabalhava com cheque, voltava uma pilha deles, hoje tem a facilidade do cartão”. É por essas coisas que ela não tem nenhuma saudade do Mercado antigo. “As pessoas ficavam mais tempo trabalhando aqui, mas, no aspecto físico, melhorou muito. Lembro do impacto visual quando mudou o Mercado, com os corredores bem largos, sem a (banca) Central bem no meio, com escada rolante”, diz. Ela também nota uma grande mudança no perfil do público da flora, dizendo que de uns 10 anos para cá a clientela se diversificou muito. “Antes era só de Umbanda, hoje tem até freiras e padres que vêm buscar incenso, velas. Os turistas adoram, entram por curiosidade. Os brasileiros, baianos e cariocas, gostam de ver as diferenças entre as religiões daqui e de lá. Os de fora do Brasil gostam de fitinhas do Bonfim, das guias, lembrancinhas da cidade”, registra. No geral, diz que tem um público muito fiel que sempre compra na Bandeira, banca ainda muito procurada diariamente por uma clientela antiga. “Tem pessoas com 70, 80 anos que passam por aqui, perguntam pela família Bandeira, e dizem que vinham com a mãe comprar na loja”, diz.

Cláudia e o Mercado,

uma relação de amor

 

Ela diz que a sua relação com o Mercado (e mercadeiros) é “bem tranquila”. Garante que as quatro floras são parceiras, não se considerando concorrentes, cultivando amizades, “vão nos aniversários”. A chegada do filho Lorenzo mudou sua rotina: agora ela só vem ao Mercado à tarde. De manhã, a banca fica com o pai, um avô coruja encantado com o neto. Sim, o pai continua trabalhando porque “se ele parar, ele morre, nem sabe viver sem o Mercado. Nem que seja só uma hora por dia, tem que estar aqui”, assegura. No último incêndio, diz que não conseguia nem olhar as imagens: “chorava como criança”. O seu amor pelo Mercado vem desde pequena: “Cresci aqui dentro, minha gravidez foi toda aqui, meu filho adora o Mercado, se solta quando está aqui. Tudo na minha vida tem um pedacinho do Mercado – tenho uma casa, faculdade, tudo saiu daqui. Vou ser eternamente grata ao Mercado”, finaliza.

 

COMENTÁRIOS