LITERATURA: Valsa para Bruno Stein: literatura no cinema

Charles Kiefer – escritor

Charles Kiefer é um dos mais importantes escritores contemporâneos do Rio Grande do Sul. Escritor profícuo, premiado e traduzido em vários países, tem como seus livros mais conhecidos “Caminhando na Chuva”, “Quem Faz Gemer a Terra” e “Valsa para Bruno Stein”, este recentemente adaptado para o cinema e tema deste depoimento do escritor ao Jornal do Mercado.  O filme, com dificuldades de distribuição, leva Kiefer e o diretor a pensarem em um circuito alternativo de distribuição, incluindo, escolas, comunidades, vilas, interior, universidades, etc. “Valsa…”, premiado no Festival de Cinema de Gramado com o Kikito de melhor atriz, para Ingra Liberato, teve pré-estréia em Caçapava do Sul, cidade onde foi rodado. Além de freqüentador do Mercado, Charles Kiefer foi Secretário Municipal da Cultura, principalmente neste período, desenvolvendo uma relação maís próxima como o nosso velho Mercado Público

“Escrevi “Valsa para Bruno Stein” com 26 anos. Tu escreves um livro em determinado momento da tua vida, depois vai fazer outras coisas, e aquele você simplesmente esquece. 20 anos depois fiz o contrato com a Record (editora) e recebi em casa os originais redigitados e achei horrível. Aí sentei e reescrevi o livro todo porque tenho trabalhado muito as questões estéticas. Agora acho que ficou um livro maduro. E coincide que esta nova edição sai com o filme. E estou passando por este processo com todos os livros. Sobre o “Valsa…” a história não mudou, o que mudou foi a linguagem, que reelaborei e burilei. E não é muita coisa, mas uma ou duas frases num capítulo para um escritor é um desastre se estão mal feitas. Um leigo não vê muita diferença, mas a gente que escreve sabe o quanto é importante.
Na medida que fui envelhecendo fui me tornando mais chato comigo mesmo. Agora mesmo estou escrevendo um livro novo há um ano e meio, toda a semana, já fiz 800 páginas, mas sobraram oito ou nove. Eu me filio a esta linha que tende a equilibrar o estético com o artístico. Uma coisa é a expressão estética que todo ser humano tem. Agora, o artístico – que é a arte em, cima do estético é que tem me preocupado mais. Claro, tem que ter um cuidado para não se tornar um formalista – dar mais valor à forma do que ao conteúdo. Mas eu tenho posições mais à esquerda, então acho que este risco eu não corro. Pelo contrário, sou muito acusado de ser político demais, especialmente pelo livro que escrevi, “Quem Faz Gemer a Terra”. Mas procuro equilibrar uma literatura de cunho social, mas bem escrita e bem elaborada.

O filme
O filme é uma novela à parte. Eu tenho uma longa parceria com o Paulo Nascimento (diretor do filme), a gente é meio compadre, já fizemos três filmes. Trabalhamos neste roteiro já há 15 anos. Ele fez um trabalho muito bom de adaptação. Ele não gosta que eu diga isto, mas acho que como diretor ele me respeita demais. Acho que como diretor de cinema ele tinha que me desrespeitar, porque é outra linguagem. Ele fez um filme literário, que não é nem pra brasileiro, nem para americano, é um filme pra europeu. Não tem corrida de carro, não tem tiroteio, não tem palavrão. É um filme lento, bem feito. Merecia três Kikitos, um pro Walmor Chagas, que está extraordinário e um  pros meninos que fazem os três personagens, a parte dos empregados, que está maravilhosa, em pé de igualdade com os papéis principais. A fotografia é ímpar no filme, na cidade de Caçapava do Sul, um lugar com muita pedra, uma paisagem que lembra muito o filme “Paris Texas”, de Wim Wenders. As tensões internas entre o Bruno e a Valéria (personagens centrais), foram muito bem trabalhadas. É um filme de olhares, de climas, silêncios, poucas falas, começa com muita intensidade. Eu me surpreendi. Cada vez que eu vejo o filme, melhor eu acho que ele é.”

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