Chales Kiefer, patrono da 54ª Feira do Livro: o mercado gaúcho do livro está em crise

O Patrono da 54ª Feira do Livro de Porto Alegre recebeu a reportagem do Jornal do Mercado para uma entrevista, permeada de curiosidades, revelações e muito bom humor. Com vocês, Charles Kiefer, um dos mais importantes escritores contemporâneos do Rio Grande do Sul.

   

     Jornal do mercado: Como vês a tua indicação como Patrono desta Feira do Livro?

Charles kiefer: Bom, eu faço parte da indicação desde 2001, quando abriu a história dos patronáveis. Vi com um certo espanto porque sempre defendi a idéia do mais velho.

Mas o argumento da Câmara é que os escritores, mesmo com idades mais baixas, podem morrer. Por exemplo, o Caio (Fernando de Abreu), o Scliar (Moacyr) e o próprio Luis Antonio Assis Brasil que eram bem jovens.

Isso no fundo é o resultado de um trabalho de mais de 30 anos. Sempre vendi muito livro, sou um dos autores gaúchos que mais vendeu livros, muitos traduzidos. Minha carreira não se resume só a Porto Alegre. Só pela Mercado Aberto (editora) vendi mais de 300 mil livros e agora pela Record mais 37 mil. Isto não quer dizer nada no que diz respeito à qualidade – isso só daqui a algumas décadas se saberá.

 

JM: O Patrono da Feira é só uma homenagem, ou ele tem um papel especial na Feira?
CK: Antes o Patrono era só a cereja em cima do bolo. Segundo me contam alguns, os primeiros patronos nem apareciam na Feira. Depois parece que o Assis Brasil é que começou essa coisa de ser envolver mais. Depois teve um patronato excepcional que foi o Ruy Carlos Ostermann que se envolveu profundamente com a Feira. Depois os patronos começaram a se envolver muito, embora não tenha nenhuma autoridade na Feira. É uma figura que é ouvida, sugere coisas, participa dos eventos. Eu já fazia muito isto como autor, sempre lancei livro de alunos, já fiz muita coisa durante a Feira. Agora só vou multiplicar isto.

JM: E o mercado livreiro gaúcho, como está o mundo literário do sul?

CK: Em crise, não é? O Rio Grande do Sul já foi um grande pólo do livro, hoje tem poucas editoras expressivas – já tivemos quatro ou cinco com representação nacional, hoje não. Esse é um fenômeno na economia gaúcha nos últimos 20 anos, mas se acentuou muito a partir do governo Britto, onde veio o neoliberalismo de forma avassaladora – que hoje está de joelhos. O mundo está descobrindo o socialismo de Estado. O capitalismo teve que pedir socorro pro Estado. Esse processo neoliberalizante, terrível, fez com que a literatura gaúcha migrasse para o centro do país porque as editoras gaúchas já não tinham mais pernas para correr. Os grandes conglomerados editoriais em São Paulo e Rio de Janeiro puxaram e destruíram tudo o que havia aqui e agora vão ser destruídos pela economia global. Ou seja, o veneno que eles aplicaram nos pequenos vem de volta para eles também. Acho que a coisa tem que ser mais equilibrada, na relação do estado com a economia da sociedade. Isto fez com que todo o micro sistema literário que era auto-sustentável – o escritor escrevia aqui, publicava aqui, vendia aqui – fosse praticamente  destruído. Sobraram pequenas editoras de fundo de quintal e uma grande editora, que é a L&PM, que consegue respirar nesse irrespirável ar de neoliberalismo.  É engraçado porque, do ponto de vida macro econômico estrutural, foi isto que aconteceu. Agora, do ponto de vista da produção criativa isto aqui é uma verdadeira explosão de talentos. Virou um celeiro para as grandes editoras. Só a Record veio buscar aqui mais de 20 escritores. O último que está pra lá, que fui que indiquei, um extraordinário escritor, é o Altair Martins, que vai lançar o primeiro romance pela Record.

JM – Em relação ao estado, tu já fostes secretário da cultura de Porto Alegre, subsecretario de cultura do Estado. Como foi esta relação com o universo estatal?
CK- Fui super empenhado, amei o que fiz, me dediquei, mas quando nasceu a Sofia, minha segunda filha fiquei contemplando longamente os olhinhos dela  no hospital, aí saí para um jardinzinho, liguei pro Olívio (Dutra, Governador do Estado na época) e pedi para sair. Desde então, passei a me dedicar à minha pequena, voltei à minha vida de escritor, de professor que é mais calma que a política. Eu envelheci muito, adoeci na política, é muito stress, muita loucura, mas a relação ficou de respeito e admiração pelos homens públicos, que fazem muita coisa, um trabalho imaterial que as pessoas não percebem muitas vezes.

JM – O Rio Grande do Sul é sempre apontado como um dos estados com maior índices de leitura. Isto é real?
CK – É real. Isto também explica porque estas grandes editoras brasileiras vieram buscar autores aqui. Aqui a gente vende, porque o autor gaúcho, se vira, se mexe, participa de feira, vai para a escola. Nós temos uma dinâmica diferente. Hoje esta relação está assim: 5 ou 6% de leitura do Rio Grande e 1,8% do restante geral. Isto significa que o Rio Grande tem duas ou três vezes mais consumo per capita de livro. E nós sabemos que isto é leitura. Sempre gosto de citar o exemplo de Morro Reuter que talvez tenha o maior índice de leitura per capita que eu conheço. A biblioteca pública de lá empresta uma média de três a quatro livros por mês e os funcionários da prefeitura páram 10 minutos a cada hora por dia para leitura. E os cidadãos em dia com as contas municipais recebem um bônus para gastar na feira do livro de lá. O tótem da entrada da cidade é construído por uma pilha de livros. A Unesco considera Morro Reuter um exemplo para o mundo. Porto Alegre tem esta gigantesca Feira do Livro, de 54 anos, que vende meio milhão de livros, a maior feira de livros aberta da América Latina. E tem também a Jornada da Literatura, de Passo Fundo. Somos o estado que mais tem oficinas de literatura, e quem começou isto foi a Ligia Averbuck,  nos anos 50 e depois a Regina Zilbermann . Outro indicativo desta diferença em relação à leitura é que o Instituo Estadual do Livro (IEL) é mais antigo que a Secretaria de Cultura. Isto tem uma explicação sociológica bem longa, mas que eu quero fazer: o primeiro ato do governo revolucionário de 1835 foi separar o estado da religião, criar um ensino laico e gratuito, depois a profunda influência do positivismo no Rio Grande, que todo mundo fala mal, mas por considerar a família como célula mater da sociedade, investiu muito em educação. Outro fenômeno, a força de Brizola que, quando governador, encheu o estado de “brizoletas” (escolas populares de ensino fundamental). Eu sou filho de “brizoletas”. Depois temos o IEL e dentro dele o nascimento de um programa que se estende até hoje que é O Autor na Escola, que levou os escritores para dentro das escolas, mostrando livro, falando de literatura. Ou seja, aí se criou a feti-chização do livro junto às crianças. Claro e ainda tinham Simões Lopes Neto, Erico Verissimo, mas acho que nós escritores não somos os mais importantes no processo. E pra fechar este ciclo, algumas leis, como a LIC, (Lei de Incentivo à Cultura, estadual) o Fumproarte (municipal) e uma lei que fizemos lá na Secretaria de Cultura estadual, eu e o Luiz Marques, (Secretário de Cultura na gestão Olívio Dutra) que é a FAC, Fundo de Apoio à Cultura e que nunca foi colocado em prática. E está lá como uma boa alternativa, uma das leis mais democráticas; ouvimos toda a comunidade cultural do Rio Grande. Só que o nem o Rigotto nem a Yeda colocaram o Fundo em prática, principalmente agora que a LIC está em crise, uma briga deplorável.

JM – Em relação ao projeto Associação Jovem leitor?
CK – Nós temos muitos escritores, estão faltando leitores. É uma entidade civil, pública, eu e os meus alunos, que estamos fazendo projetos de leitura, criando biblioteca e doando livros para crianças e jovens carentes, nas comunidades menos aquinhoadas. Temos vários tipos de projetos para atender várias necessidades, estamos agora na fase de aprovação dos estatutos. Aproveitei o momento, agora que sou Patrono, para dar mais visibilidade.

JM – E com todo este engajamento, ainda sobra tempo para o escritor?
CK – Não, mas estou com dois livros, um infantil que sai agora, que fiz para minha pequena, chamado “A Revolta das Coisas” e outro, também infantil, que está quase pronto, “A Menina e o Mendigo”. E estou com um romance novo que estou trabalhando, que não sei quando vai sair, “O Dia de Matar Porco”. Nos anos 90 fui muito lido, vendi uns 100 mil livros do “Caminhando na Chuva”, mas eu caí nas vendas, de cinco, seis mil para 100. Isto é uma constatação cientifica, tenho todos meus gráficos, sou muito organizado neste sentido.

JM – A que se deveria isto?
CK – O Brasil mudou e o mundo também. O livro deixou de ser um fetiche. A venda caiu de uma maneira geral por vários fatores. O principal deles, o preço alto, multiplicação de autores, a oferta mudou extraordinariamente. Tu entras hoje numa livraria e encontras centenas de autores gaúchos para escolher. Por isto estou investindo na Associação do Jovem Leitor. Nós investimos pesadamente na produção, mas esquecemos do consumidor. Vamos pensar nele agora. Ah, o consumidor não tem como comprar! Então vamos dar o livro, viciar ele na leitura. Depois ele dá um jeito de comprar. Talvez a literatura tenha que usar esses métodos do capitalismo. Nós só vendemos livros na sobra do dinheiro. Por isto o estado precisa fazer alguma coisa. O governo federal desde o Fernando Henrique Cardoso e chega no Lula, que mantém e aumenta esta política, distribui livros nas escolas. Hoje o Brasil é o maior distribuidor mundial de livros nas escolas. No ano passado foram distribuídos 157 milhões de livros. Os nossos livros são comprados diretamente nas editoras e distribuídos nas escolas. Aqui no Rio Grande o último governador que comprou e distribuiu livros em boa quantidade foi o Pedro Simon. Mais de 30 anos e nenhum governador comprou livros e distribuiu nas escolas. Falta essa visão pública. Aqui se prefere cortar merenda dos alunos e fechar escolas.

JM – Tens algum escritor que te instigou no início?
CK – Sim, desde pequeno eu ficava imaginando que ia escrever. Aí foi uma frase que eu li numa “Seleções”, eu acho, “se queres ser universal, pinta tua aldeia”. Achava que era do Tolstoi, mas parece que na verdade era do Turgueniev. Um escritor precisa de quatro coisas: imaginação, observação, leitura e escrita. São as pedras fundamentais de qualquer escritor. Todo aluno que vem para a minha oficina, que quando criança ficava numa janela, sonhando, pensando, aquelas crianças chamadas de imaginativas, aquele adolescente completamente fora do ar, vira escritor.

JM – Mas, voltando à Feira, o que tu nos conta sobre o que está sendo preparado?
CK – Corremos o risco de ter uma Feira do Livro capada. Até hoje ainda não tinha a definição da LIC. Estão faltando 700 mil. Por isto tem muita gente, escritores de fora, que talvez não venham. Coisas maravilhosas do mundo inteiro. Esta verba é para pagamento de cachês de escritores, passagens e estadia.

JM – E as tuas propostas?
CK – Patrono tem essa coisa de ter bandeiras, proposta. A minha primeira é a redução do preço do livro. Isso passa pela reavaliação da lei do preço fixo do livro no Brasil. Pra derrubar a lei, tem que haver fomento e lei compensatória entre grandes e pequenas livrarias. A segunda proposta é a de democratizar ainda mais o processo de escolha do patronato. Quando a gente fez a lei, (de escolha do Patrono da Feira através de votação), no tempo do Raul Pont, (prefeito de Porto Alegre) quando eu era secretário da cultura, a gente previa a votação em livraria, internet e isso voltou de uma forma mais plutocrática. Por que o cara que entra na livraria, compra um livro não pode votar no Patrono? Não é ele o usufrutário final do processo? E não é exatamente ele que não vota?

JM – E a tua relação com o Mercado Público?
CK – Tenho um livro que se chama “Pó de Mico, Barbicacho e Diabo Loiro” que se passa uma boa parte no Mercado Público. É livro nunca publicado, um romance.

Quem é charles kiefer

     Charles Kiefer nasceu em Três de Maio (RS), em 1958. Formado em Letras, é mestre em Literatura pela PUC-RS, tendo trabalhado como editor junto à Editora Mercado Aberto, de Porto Alegre. Estreou na ficção em 1982, com a novela Caminhando na Chuva, de temática adolescente. Também é poeta e ensaísta e muito respeitado por sua produção ficcional de romances como Valsa para Bruno Stein (1986) e A Face do Abismo (1988), além de livros de contos como Dedos de Pianista (1989). Em 1985, Kiefer ganhou projeção nacional com a novela O Pêndulo do Relógio, agraciada com o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro. Achou sua temática literária num diálogo de “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo. Ou seja, a sua aldeia alemã. Mas não é apenas escritor: dedica-se intensamente ao universo literário como um todo, como professor e oficineiro de literatura. Por ele já passaram mais de dois mil alunos, muitos já bem encaminhados e com livros publicados. Durante esta Feira do Livro, além das suas tarefas como Patrono, estará coordenando,a 1ª Maratona Nacional de Leitura de Contos e o 2º Encontro Nacional de Oficinas.

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