Cezar Brandão: “Comecei e vou terminar no Mercado”

Assim como muitos, ele veio para o Mercado através de um amigo. Naquele tempo tudo era mais informal no Mercado. Poucas bancas assinavam a carteira, fazendo com que muitos empregados mudassem constantemente de local de trabalho. Dos velhos tempos, lembra ainda do antigo Mercado Livre, que estava sendo demolido naquela época, e do enorme movimento, maior que hoje, no Mercado. Mas, depois de mais de 40 anos nele, parar não está nos seus planos.

 

Os estudos, logo teve que abandonar: o pai tinha dificuldades, lembra. De uma família grande, Cezar foi à luta cedo. Entre idas e vindas pelas bancas do Mercado, em 1972 teve sua carteira assinada pela primeira vez na Banca de Cunha & Rocha – era o início de uma trajetória trabalhando em peixarias. Porém, em um dos incêndios do Mercado, todo o quadrante onde trabalhava foi queimado. Com a banca fechada para reforma, acabou sendo contratado pela banca 4, de Artur de Oliveira Lima, onde trabalhou de 1975 a 1978. Depois disso, Banca 1, que era do Francisco Assis Nunes, atual dono do restaurante japonês Sayuri. Aí, começou a melhorar sua situação financeira, com pro-labore e mais participação nos lucros.  Até que recebeu um telefonema, do então gerente da Japesca, Gedeon Garcia Fraga, com o qual já tinha trabalhado e até ensinado os ofícios de peixeiro. Nessa época a Japesca tinha as lojas 4 e 5, ampliando o negócio com a compra da 6 e da 7. Desde então, o seu conhecimento, como gosta de dizer, é o peixe. “Cada patrão me ensinou uma coisa, mas aprendi muito com o Chinga (João Lopes da Cunha). Ele dizia: quer ir para a frente, primeiro tem que ser honesto e ter mercadoria boa, que o teu crédito vai longe”. Lição que ele levou para toda a vida porque, diz, a pessoa desonesta ganha hoje, mas perde amanhã. Orgulha-se de citar o seu próprio caso, cuidando do dinheiro da banca, administrando e controlando tudo – até a tele-entrega.

 

Trabalhando em família

Também, como é muito comum no Mercado, sempre trabalhou com irmãos. Numa época chegaram a ser em cinco. Hoje são três, Luiz Carlos (28 anos de banca), que é sócio, e Alceu (26 anos de Japesca), que trabalha diretamente com ele. Outro irmão, Getúlio, que trabalhou 19 anos na banca, já está aposentado, assim como Airton, o quinto irmão. A relação com os manos era boa, apesar de “umas rusguinhas”. Todos, contudo, “passaram” e aprenderam com ele. Os principais ensinamentos básicos, para quem começava, eram arrumar o balcão, depois trabalhar com a balança-relógio. O treinamento era quando não tinha movimento. “Botava o peixe na balança e ensinava. Hoje com a balança digital, é barbada”, diz. Mantendo a tradição do Mercado de “geração para geração”, Cezar também trabalhou com os quatros filhos, dois homens e duas mulheres, Tiago, Julio, Daisy e Denise, respectivamente, que preferiram tomar outros caminhos a partir da entrada na faculdade. E quando o assunto é família, ele tem lembranças marcantes. A filha Denise nasceu prematura, com sete meses.  Durante 72 dias esteve com um quadro clínico pouco esperançoso, período em que Cezar se ausentava frequentemente da Japesca. “Ela estava desenganada pelos médicos. Eu ia lá todos os dias e nunca fui mandado embora (da banca)”, reconhece, agradecido. Foi, então, que fez promessa de convidar Gabriel Mendo Cunha, filho de Chinga, na época um garoto de 15 anos, como padrinho da filha, se ele aceitasse e se ela sobrevivesse. Gabriel aceitou e hoje Denise está com 17 anos, bem saudável. Mas a vida lhe reservaria outras surpresas desagradáveis: a esposa Palmira viria a falecer precocemente, em 2000, deixando-lhes os filhos com 4, 8, 15 e 16 anos, respectivamente, para criar sozinho. “Nessa hora tem que ser forte, voltar e trabalhar”, resume.

 

A vida no Mercado

Em relação aos tempos antigos do Mercado, afirma que tinha mais movimento e vendas. “Abria os portões e era um terror de vendas. Hoje se vende bastante, mas não como antes”. A queda, ele atribui à chegada dos supermercados e outros comércios. Lembra que sacolinhas de plástico não existiam, apenas as de papel. A rotina era, também, bem mais pesada, trabalhando de segunda a domingo. “Pegava às seis da manhã e saía às sete da noite, diferente de hoje, quando a gente tem duas horas de intervalo de almoço e folga aos sábados”. A chamada “Coréia”, área onde ficavam as peixarias mais populares, era uma homenagem ao Beira-Rio, que destinava um espaço com os preços mais baixos aos torcedores de pouca renda. “Eram as peixarias dos pobres, onde tinham os peixes mais simples. Eram 3kg de peixe a um real. Pegava 50, 100 caixas e vendia tudo”, lembra. Atrás da “Coréia” ficava a “Geral”, com os peixes mais caros e para outro público, de maior poder aquisitivo. Os hábitos de consumo do peixe também mudaram: antes os que mais saíam eram os peixes inteiros – tainha, pintado, corvina. “Hoje em dia procuram mais filé de pescada, anjo, abrotea, linguado, salmão, os peixes mais nobres, muito vendidos para os restaurantes mais sofisticados”, explica.

 

Um homem realizado

Eram tempos mais difíceis. “Este clima (temperatura quente em agosto) não existia, era um vento minuano. O inverno era muito mais rigoroso que hoje. O peixe bem gelado, congelava as mãos. Hoje os procedimentos do trabalho são bem mais sofisticados. Antes a gente nem via a semana passar”, compara. Cezar, por exemplo, hoje fica mais na “administração”, “como um técnico de futebol”, compara. Tem muitas amizades no Mercado, e uma rotina simples: almoça no Taberna 32, e compra carnes para o churrasco no açougue de Ildo Pozzebom. Acha que o Mercado poderia fazer mais publicidade, como os supermercados, por exemplo. Outra grande mudança é o número de mulheres trabalhando ali, nos últimos 20 anos. “Antigamente eram duas ou três, hoje tem 60% de homens e 40% de mulheres. O Mercado está bem mais light, se modernizou, ficou um shopping”, constata. Realizado, com filhos e netos, mesmo perto da aposentadoria, não se imagina longe do Mercado, o qual não troca por nada. “Se sair daqui não sei fazer mais nada, dessa área eu entendo bastante, vou continuar trabalhando enquanto dá. Comecei no Mercado, sem filho. Hoje sou pai e avô, tenho minha casinha própria e meus filhos com saúde, cheguei a um bom patamar. Comecei no Mercado e vou terminar nele”, afirma.

 

Foto: Letícia Garcia

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