Celso Marcadela: o filho do Mercado

Desde os 11 anos ele já convivia com o Mercado. Ia levar comida para o seu pai, que nele trabalhava, naqueles duros tempos de acordar muito cedo e trabalhar até bem mais tarde. Mas o contato mais direto com o mundo mercadeiro começou mesmo aos 14 anos, em 1967. Nascido em Porto Alegre, em 1956, Celso Marcadela, 57, construiu a sua vida praticamente no Mercado. Separado, com duas filhas com quem tem uma ótima relação, Amanda, 24, e Juliana, 27, para ele “a vida é superação”.

 

“Eu brinco que se o Mercado tivesse um filho, seria eu”, diz ele. A razão é muito simples: seus pais se conheceram no Mercado. A mãe, Maria Emília, veio de Bento Gonçalves, com 17 anos, trabalhar na banca da sua família. Uma família, aliás, com grande tradição no Mercado. Seus irmãos Amélio, Aquilino, Arlindo, Benê e Emilio Toniolo já eram donos de bancas quando ela chegou. Por sua vez, o pai, Délcio, veio de Montenegro para trabalhar com um tio, do qual mais tarde tornou-se sócio. “Os dois se conheceram aqui, praticamente sou filho do Mercado”, brinca. Celso tem boas lembranças do pai. “Era um parceiro. Eu tinha 14 anos e a gente fazia sauna e ia a bailes juntos. A minha mãe era aquela dona de casa, dedicada aos filhos”, lembra. Com muito esforço o pai pôde bancar os estudos para os quatro filhos, todos formados em faculdades particulares. Celso “pendia” mais para o trabalho, mas em função da mãe também foi fazer um curso superior. Começou Engenharia e depois passou para Administração, porque “alguém tinha que ajudar o pai na banca e eu era o mais velho dos irmãos”.

 

Mais tempo no Mercado do que em casa

 

Para ele, o Mercado é o pátio da sua casa, onde recebe os amigos e vê seus parentes. Na sua própria casa diz que entra praticamente só para dormir. “Sempre fui de trabalhar – na vida a gente tem duas opções, ou trabalha ou estuda, tem que fazer uma escolha”, avalia. Do curso, acha que foi importante, mas o que resolveu mesmo foi a prática, o dia a dia, bem diferente do que a teoria dos livros. Como todo mundo, Celso teve períodos difíceis na vida. Os anos de 2006 e 2007 foram duros para ele: separação (e sérios problemas em decorrência dela), perda da mãe e de um dos seus melhores amigos do Mercado e da vida, Luizinho Pozzebon. “Mas a gente aprende muita coisa, a gente tem que superar”, diz. Das coisas boas, lembra de imediato das duas filhas: “Quando elas nasceram, foram os melhores anos da minha vida”, afirma. Viu muitas mudanças no Mercado nesse tempo todo. Para ele, hoje está bem melhor. Uma das coisas que mais mudou foi o atendimento. “Era diferente. A cultura dos fregueses e dos balconistas mudou muito. Não tinha tanto diálogo, era mais violento, muitas vezes cliente e freguês saíam no tapa. Não existia balança eletrônica, e sim de ponteiro. Demorava para pesar, sacola de plástico nem pensar, era tudo enroladinho, uma ‘malinha’, com fita, feita no capricho. Ali se via quem era bom balconista mesmo”, recorda.

 

O Mercado e a família

 

A rotina também era muito diferente, principalmente para quem andou até de bonde, como ele. E o Mercado também era muito diferente. “A estrutura, um telhado muito baixo, um calor intenso, insuportável, gato, rato, uma sujeira… Mas cada tempo é um tempo, não tem um melhor que o outro. Hoje tem muito mais conforto”, resume. Das lembranças, a figura do pai está sempre presente. Quando fez 18 anos, esperava ganhar um carro, mas acabou ganhando um “relógio que não funcionava e uma caneta que não escrevia”. Ele era rígido com Celso, o único na banca que nunca tinha hora para o almoço. “O pai era bom, mas muito exigente. Acho que não era intencional, ele foi importante para a minha formação”, analisa hoje. O velho Délcio gostava de reunir os tios e a família todos os fins de semana com um barril de chope e churrascadas. As mulheres da família adoravam. “Naquele tempo elas não trabalhavam (fora), se dedicavam ao lar, então domingo era uma festa”.

 

As grandes amizades que o Mercado trouxe

 

Outra marca do Mercado são as amizades, embora muita gente daquela época já tenha se afastado dele. Por outro lado, muitos que começaram como empregados hoje estão bem de vida. “Muitos que começaram comigo agora são proprietários, lutaram para isso. É uma mesma turma que há mais de 30 anos se reúne todas as quintas-feiras para o futebol. Hoje já nem jogam mais, é só para comer o churrasco. O Luizinho era um desse grupo”. Depois de trabalhar mais de 30 anos, acredita que hoje o trabalho está mais fácil, com mais tecnologia, o que permite se dedicar mais ao atendimento personalizado. Tem clientes que se lembram dele ainda de calças curtas. “Isso passa de geração para geração. Tem gente da época do pai que se emociona, e clientes que os pais deles compravam com meu pai e hoje eles compram comigo. Tem gente que entra na banca e chora”, revela. Outro aspecto que mudou consideravelmente, na sua opinião, é o público. “Está bem melhor, tem todas as classes. Antes quem comprava era o povo, eram raros os clientes que a gente via que era classe alta”, compara. Um pouco disso se deve, analisa ele, ao fato de muitas bancas passarem a se especializar em bacalhau, em vinhos, bebidas finas, “o que vai chamando outro público, diferente. Na minha época, sábado era um dia que se fazia só limpeza, não tinha público. Hoje é o melhor dia da semana, vem gente para almoçar nos restaurantes, melhorou bastante”. Morando hoje na Aberta dos Morros, perto de Ipanema, e curtindo a namorada Verônica, não vacila muito quando perguntado sobre o Mercado em sua vida: “Tenho muito orgulho de trabalhar aqui”.

 

Foto: Letícia Garcia

 

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