Celso Luiz Feiteiro, o peixeiro-maratonista do Mercado

Nascido em Caçapava do Sul, em 17 de maio de 1959, Celso mora em Porto Alegre há 49 anos. Casado, quatro filhos, trabalha no Mercado Público desde o ano 2000. Além de ser um peixeiro convicto, também é um maratonista dedicado — e vitorioso.

Foto: Letícia Garcia

O primeiro contato com o Mercado Público foi através de Gabriel Mendo da Cunha, sócio-proprietário da Japesca, uma das mais tradicionais bancas de pescados mercadeiras, onde o então funcionário do supermercado Big fazia as compras de peixe para abastecer a peixaria da loja. Isso, segundo ele, levou um bom tempo. Até que o Big mudou de direção, o que provocou a sua saída. Mas, como frequentava muito o Mercado ainda, acabou sendo convidado por Gabriel para trabalhar na Japesca.

Um detalhe: no supermercado, ele também já trabalhava no setor da peixaria. Tinha, portanto, experiência na área. “Trabalhava no açougue, mas me prontifiquei quando abriu uma vaga na peixaria. Eu me identificava porque na minha família já tinha pescadores. Então comecei a trabalhar com peixe. Continuo até hoje e gosto muito.” Ele afirma que o mais importante para um peixeiro é ter conhecimento dos tipos de peixes — quais são os de mar, os de água doce, os que têm espinhas.

“Isso é importante para poder estar ajudando o cliente na sua escolha.” Ele informa que a Japesca está no mesmo local desde a época em que entrou, e lembra que uma mudança importante, depois do incêndio de julho de 2013, foi a automação da loja, “que veio para melhorar”, diz.  “Antes, a gente trabalhava ‘direto’ com os preços num papelzinho para entregar para o cliente. Melhorou bastante.” A sua rotina: começa a trabalhar às 6h na montagem do balcão, botando o gelo, abastecendo o peixe, se preparando para a abertura às 8h, quando ele também participa, ajudando no atendimento aos clientes.

 

Treinando no intervalo

Nos intervalos, Celso aproveita para fazer os seus treinos, já que é maratonista há 42 anos. “Uso o tempo de 1h30 de intervalo para treinar na rua para as competições dos fins de semana. Saio do Mercado, vou pela ‘beira-rio’ (Av. Edvaldo Pereira Paiva) até o (supermercado) Big do (Bairro) Cristal, volto, tomo um banho, boto uniforme e volto para o trabalho, até às 17h.” A vontade de correr vem desde cedo, aos 14 anos, quando “já tinha este lado do esporte”.

Celso praticava judô, mas precisava fazer um reforço para ter mais resistência. “Aí comecei a fazer treinamento de pista, na Redenção, e um treinador me viu, gostou e perguntou se eu queria treinar com ele.” Decidido a experimentar, aceitou o convite, e começou a treinar. “Dali em diante, comecei a ganhar competições, e acabei sendo o corredor que sou até hoje.” Ele gosta de participar de provas longas, maratonas de 42 km ou supermaratonas de 50 km — ganhou várias, agora levando o nome da Japesca no uniforme, como forma de patrocínio.

Já correu em quase todas as cidades e estados do Brasil, como Brasília, Paraná, Rio de Janeiro, Santa Catarina, São Paulo e praticamente todo Norte e Nordeste. Só na corrida da São Silvestre, que encerra o ano esportivo no Brasil, ele já participou 21 vezes. “Antes, era boa, não tinha muitos participantes, a largada não era tão tumultuada. Decidi só participar de provas aqui no estado — tem até melhores.”

 

Conhecido de todos

Celso é um dos tantos já aposentados que estão no Mercado com dificuldades de parar de trabalhar: “Continuo aqui pelo amor que eu sinto pelo Mercado Público e pela Japesca. Amo trabalhar aqui porque é o meu lar — 90% do meu tempo, passo aqui dentro, fazendo o que eu mais gosto, que é trabalhar com peixe”. Também como outros “veteranos” do Mercado, tem uma freguesia fiel. “O bom é isso, porque atendo pessoas já há vários anos: elas sempre procuram por mim, quando não estou ali, mandam me chamar.”

Além de trabalhar há muitos anos no Mercado, por ser também maratonista acabou sendo muito conhecido por todos, colegas e clientes. “Sempre saio para treinar, já apareci em jornais, em muitas matérias para a TV — Globo Esporte, RBS e outras emissoras em reportagens sobre as corridas.”

Mas, não só por isso, tem muitas amizades, “como de família”, no Mercado. Das muitas histórias vividas no trabalho, uma marcante é a matéria que a apresentadora Cristina Ranzolin, do Jornal do Almoço (RBS) fez, vivendo a sua rotina de peixeiro. “Ela trabalhou no meu lugar, limpando peixe e atendendo no balcão.”

 

Amor pelo Mercado

Assim como muitos mercadeiros, ele também cita o último incêndio entre as lembranças mais fortes. “Nesse dia, eu estava numa competição no Gasômetro, e um rapaz da equipe da corrida, que também participava, me mostrou no celular. Naquela prova eu ia subir ao pódio, tinha chegado em 1º lugar, mas nem subi: vim direto como estava, de calção e camiseta, para ver.” Por sorte, a Japesca não foi atingida pelo fogo, mas pela água dos bombeiros, ficando inteiramente alagada.

Para definir o Mercado, Celso diz que é um lugar onde se trabalha com amor pelo que se faz, sendo importante ser cortês, cuidar o bom atendimento, a qualidade dos produtos, orientar os clientes e ter responsabilidade. Para ele, o Mercado ainda é uma grande referência de peixe na cidade, “tanto que, de uns anos para cá, aumentou bastante o consumo dele aqui”.

Concluindo, fala do seu imenso prazer de acordar cedo para ir trabalhar, encontrar os colegas, principalmente o chefe Gabriel, “que é uma pessoa muito querida” e com quem espera continuar trabalhando mais alguns anos. “O Mercado é o meu segundo lar e as pessoas aqui são a minha família.”

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