Celso Luís Rossatto: toda uma vida no Mercado

Ele começou ainda menino, com oito anos, no Mercado. Trazia almoço para o pai, Alfeu Rossado, que tinha com o avô Ricardo uma antiga banca de secos e molhados no lado externo, junto à Praça Parobé. Naquele tempo ele ficava só meio turno, mas a partir dos 13 anos passou a ficar os dois turnos e estudar à noite. Vida dura desde o começo, que vem até hoje, embora agora tenha um pouco mais de folga. Um pouco, na verdade, porque ainda continua chegando ao Mercado às 6h30 da manhã.

Casado com Ereni Rossatto e pai de Thomás, que ajudou na banca aos sábados por um tempo, Celso divide o trabalho com o primo Renato Rossatto. Diferente dos tempos do avô, do pai e dos tios, encontraram uma outra forma de abrir um pouco mais de tempo para cuidar da vida: 15 dias para cada um. “Assim a gente pode fazer algumas coisas, viajar, ir ao médico”. Os primos, da terceira geração, herdaram a vocação da própria família. “Quando meu avô Ricardo Segundo Rossatto começou na Banca 36A, trabalhando com meu pai e os tios (Antônio e Alírio Rossatto). Depois, quando cresceram, eles compraram a Banca 10 em 1967, que virou uma fruteira”, lembra. O filho de Celso, Thomás, não seguiu a tradição familiar – depois de algumas passagens ajudando na banca, enquanto fazia a faculdade, foi efetivado onde estagiava e hoje trabalha com Relações Internacionais.

 

 Foto: Letícia Garcia

Desde criança no Mercado

Hoje, aos 49 anos, Celso ainda tem uma vida puxada, principalmente na segunda-feira, dia de fazer a Ceasa. Acorda às 2h da manhã e vai às compras. De lá, vem direto para o Mercado, aonde chega ao amanhecer. Trabalha durante todo o dia e só no cair da noite é que vai para a casa. No Mercado ele praticamente passou a vida. Começou indo levar almoço para o pai, “porque antigamente os mais velhos tinham a mania de não comer na rua, só a comida de casa. Assim, a minha avó levava para o meu avó e eu para o meu pai”, recorda. Depois de certo período, quando já estava começando a trabalhar, ele mesmo fazia o almoço, nos fundos da banca. O trabalho era atender os clientes; no caixa, só o avô. O garoto, que nunca trabalhou em outro lugar fora do Mercado, aos 13 anos já estudava à noite. Depois fez o 2º grau, mas não continuou os estudos.

 

A dura rotina, sempre

     A rotina com o pai? “Vinha, trazia o almoço e ficava atendendo. Depois ele ia para a Ceasa, e em seguida eu comecei a ir com ele, de madrugada. Depois eu ia para a casa, dormia, voltava para trabalhar e à noite ia estudar”. As diferenças de antes e agora, para ele, é que naquele tempo os clientes faziam rancho porque não havia os grandes supermercados, somente lojas e armazéns pequenos. Tinha muita entrega, que eram feitas de Kombi, muita venda para os navios. “Era bem diferente. Hoje em dia é só varejo pingado”, relata. Mas ainda existem muitos clientes antigos, dos tempos do seu pai e avô, de mais de 20 anos, que conheceram Celso ainda pequeno. Na grande reforma dos anos 90, a banca veio do lado externo para dentro do Mercado, perdendo muito espaço. “Ficou todo mundo lá em cima por um tempo, (1º piso) trabalhando provisoriamente, e todos tiveram prejuízo, mas depois foi bom, apesar de a gente perder área”, registra.

Mercado, ontem e hoje

Ainda em relação às diferenças das épocas do Mercado, ele acha que mudou muito, principalmente em relação às questões de higiene, lembrando os programas existentes atualmente, como o PAS (Programa de Alimento Seguro). Cita também o que ele chama de “modernidade”: “O pessoal começa com logomarca, exposição de produtos. É a atualização do Mercado. Não tenho saudades do Mercado antigo, não. Tem que melhorar para aprimorar”. Bem diferente dos tempos em que as entregas eram de balaios, pesados. “Tenho até um problema de coluna, hérnia de disco, de tanto carregar peso. Hoje as compras são menores e a entrega é feita por um motoboy”, compara. E muitos clientes passaram a vida comprando com entrega. Ele lembra de um advogado que conheceu ainda quando pequeno e que continuou comprando assim até morrer, há poucos anos.

 

Lembranças e futuro

Quem conhece bem o Mercado, sabe que a Banca 10 é especializada em frutas, legumes e verduras, e pioneira em inovações. Foi no tempo do pai de Celso: “Resolvemos botar frutas exóticas, porque o comum já tinha, banana, laranja… Comecei a pesquisar e encomendar. Até os supermercados vinham aqui olhar e observar o que tinha”, revela. Das lembranças, recorda de um incêndio que destruiu a banca, nos anos 70, quando o pai e os tios escondiam dinheiro na própria banca. Depois, foram dias colando as notas para trocar no banco. Lembra dos gatos nos telhados de zinco, alimentados por uma senhora famosa por cuidar deles, e da época em que só folgava depois do meio-dia de domingo. Tem muitos amigos no Mercado, inclusive entre os mais velhos, que o conheceram quando menino, e também da nova geração e da turma do futebol. Sair do Mercado? “Não consigo. Em momentos de estresse até dá vontade. Depois, a gente para, pensa, descansa e volta com força de novo”.

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