Casa dos Bancários: cultura, sindicalismo e cidadania no Centro Histórico

Centro Histórico, por Emílio Chagas

A inauguração da Casa dos Bancários em agosto de 2006 marcou uma nova época no histórico Sindicato dos Bancários, respeitado pela sua trajetória e tradição de lutas. Muito além de uma nova sede, a Casa passou a conjugar uma série de frentes até então novas no meio sindical mais ortodoxo: o espaço ganhou contornos culturais, gestando novas ações e práticas, criando novos ares na política sindical tradicional. Com uma visão de que o bancário é, antes de tudo, um cidadão, a diretoria avançou, com amplos debates com a categoria, numa linha de reestru­turação, renovação, incluindo o Sindbancários em contextos que até então não trafegava. Só o cinema desde a sua inauguração, em 2008, já levou mais de 17 mil pessoas ao espaço, por exemplo.

 

Tudo começou com a velha sede da rua da Ladeira. O prédio, construído na década de 20 e comprado em 1983 pelo Sindicato, foi um QG das greves gerais e palco de muitas lutas e conquistas, como diz Milton Sinas, da comunicação do Sindicato. Em 1986 foi desativado, passando o Sindicato a operar outros lugares, no edifício do antigo cinema Cacique e na Galeria Malcon. A antiga sede ficou, então, 10 anos desativada. Em 2002 assumiu a Diretoria que tinha como presidente Devanir Camargo da Silva. Uma das suas bandeiras era acabar com o abandono da velha sede, abrindo debate com a categoria: demolir, construir um novo prédio ou restaurar.  “Estudos foram feitos e se optou pela revitalização”, informa Sinas. Foram chamados os arquitetos Marcos Schuck e Anna Maria Hennes para fazer o projeto de reforma do prédio, que não é tombado, mas pertence ao sítio histórico da cidade. O Sindicato buscou recursos junto ao projeto Monumenta, que exigia a preservação da fachada do prédio. O pedido foi aprovado em primeiro lugar, mas a burocracia inviabilizou a liberação do empréstimo.  As obras começaram em novembro de 2003, e concluídas com recursos próprios da entidade.

 

 

Mais que uma sede, um espaço de reflexão

Foram investidos cerca de R$ 2,5 milhões na obra e a sede batizada como Casa dos Bancários, após votação realizada pela internet. A proposta ia muito além de centralizar a administração e qualificar a prestação de serviços para os bancários. Já, como previa o projeto, o novo espaço privilegiava também investimentos em cultura e cidadania. Assim, a chamada Casa dos Bancários previa uma sala de cinema com 82 lugares, auditório com capacidade para 180 pessoas, biblioteca, café-restaurante, espaço para inclusão digital. E, além disso, foi construído mais um andar, onde fica o salão de festas para a categoria. A Casa também abriga uma cooperativa da Economia Solidária e inaugurou, em julho, o Espaço de Arte Casa dos Bancários. Inaugurada na gestão de Juberlei Bacelo, em 2006, de lá para cá a Casa vem se afirmando com um dos espaços culturais, debates e reflexão mais importantes do Centro Histórico e da cidade.

 

Vocação cultural. Mas a luta continua

“A partir dos debates da preservação ficou claro que este prédio tinha uma vocação cultural. Somos referência a nível nacional e não só no movimento sindical. Isto é importante para a entidade e para categoria, porque quando o Sindicato fala tem mais atenção para disputar as consciências. E a hegemonia também passar por aí”, diz Sinas. Ele lembra que, mesmo muito focado na cultura, o Sindicato não para de lutar. Cita a inauguração do cinema em 2008, quando a categoria estava em greve e havia uma expectativa se o diretor do Banrisul – um dos patrocinadores do projeto que viabilizou o cinema via Lei Rouanet – comparecia ou não, que acabou se fazendo presente na abertura. “Conduzimos a luta, mas também sabemos dialogar e não deixamos de fazer a greve”, diz.

 

Ponto de Cultura e outras iniciativas culturais

O projeto tem várias iniciativas, como oficinas literárias, já no terceiro ano, ministrada pelo escritor Alcy Cheuíche, das quais já resultaram dois livros. O terceiro, em produção, também vai resultar em um docu­mentário para o cinema, dirigido por Hique Montanari, o responsável pelas oficinas de cinema dentro do Projeto Saúde nas Telas. Uma das características do projeto do cinema é realizar mostras temáticas. Mulheres, violência, política, meio-ambiente foram alguns temas abordados. Operando também como Ponto de Cultura, o Sind­bancários realiza uma série de ações, como cursos de fotografia. Também são realizados cursos de formação política, como “Diálogos para Ação” para delegados de todo o Estado. Um curso de pós-graduação sobre Marxismo em parceria com a FAPA é outra iniciativa deste espaço que vem sendo sede de importantes debates, como a reforma da lei Rouanet e foi também um dos territórios do Fórum Social Mundial. E em breve também será um Pontão de Cultura, voltado para a capa­citação de cineclubes e futuros. Para o segundo semestre, presença no Acampamento Far­rou­­pilha com o Piquete dos Bancários e um Festival de Música para a categoria. E, claro, campanha salarial.

 

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