Carlos Urbim, Patrono da 55ª Feira do Livro: A minha bandeira é a alegria de ler

Carlos Urbim, Patrono da 55ª Feira do Livro: A minha bandeira é a alegria de ler

 

Carlos Urbim é jornalista e escritor de livros infanto-juvenis. Mas, muito mais do que isso é uma grande pessoa, com vivências sentimentais, lúdicas e afetivas que trouxe para a sua vida profissional e, em especial, para os seus livros infantis. Nasceu em Santana do Livramento, em 1948. Veio para Porto Alegre aos 19 anos e formou-se em Jornalismo na UFRGS. De lá para cá Urbim passou pelos principais jornais gaúchos, tendo também se destacado como argumentista e roteirista de séries de TV que, invariavelmente, se transformaram em livros. Sua primeira publicação Um Guri Daltônico, de 1984, é hoje um clássico. Outros livros do autor são Patropi, a Pandorguinha, Dinossauro Birutices, Uma Graça de Traça, Caderno de Temas, Diário de um Guri, Dona Juana, Bolacha Maria, Saco de Brinquedos, Rio Grande do Sul – Um Século de História, Os Farrapos, Álbum de Figurinhase Morro Reuter de A a Z, entre outros . Desde maio deste ano faz parte da Academia Riograndense de Letras. Ao receber a reportagem do Jornal do Mercado, Urbim confessou: “Ainda me soa um pouco inacreditável ser o Patrono da Feira do Livro”.

 

O eterno candidato

Não sei a exatidão jornalística, publicaram com dados diferentes de quantas vezes entrei nas indicações para patrono, de cinco a 11 vezes a indicação. Eu próprio fiquei em dúvida. A Câmara (do Livro) adotou a lista na virada de 99 para 2000, não sei bem, mas o certo é que a lista nasceu polêmica porque na primeira foram divulgados, sem nenhuma consulta, 10 nomes para concorrer. A escolha seria feita por votação, através da publicação de cupons nos jornais. Mas naquele momento o Sergio Faraco saiu, dizendo que não era candidato à “miss”. Em apoio à decisão do Faraco saíram também o Tabajara Ruas e o Ruy Carlos Ostermann. E eu também estava nesta primeira lista. Aí também estava o Barbosa Lessa e todo mundo votou por consenso e ele foi escolhido. Foram uns quatro, cinco anos com esta lista de 10 nomes e eu sempre lá. Eu já estava acostumado a verem sempre chamar os outros, as vezes sentados na minha mesa naqueles cafés da manhã, lá no Bistrô do MARGS. Vi chamarem Armindo Trevisan, Frei Rovílio, Alcy Cheuiche, Ruy Ostermann, Antônio Holfeldt, Charles Kiefer.

 

A escolha

Tinha certeza que ia ganhar a Regina Zilberman, que é professora, ficava pensando, doutora, até porque faz muito tempo que não escolhem uma mulher. A lista é elaborada a partir da indicação dos associados da Câmara do Livro. Editores e livreiros, principalmente. Todos os anos o meu votante sempre foi a direção da Corag, sempre recebo oficio da direção informando que o candidato deles sou eu. Depois de divulgar a lista começa um processo com um colégio eleitoral que imagino que sejam  120 votantes – autoridades, secretários e educação e cultura, diretores, acadêmicos, faculdades de letras e também os ex-patronos. Quando se é escolhido patrono, automaticamente passa a pertencer ao COPA, o Conselho dos ex-Patronos. Entidades como a Academia Riograndense de Letras, ARI, Associação Riograndense de Imprensa, AGE, Associação Gaúcha de Escritores também votam. Na AGE o meu nome era o primeiro.

 

O prêmio

Na hora que ganhei o prêmio, e isso repercutiu bastante, falei que pegava o prêmio com as duas mãos, porque estava faceiro. A gente vem trabalhando há 25 anos e escolhi a literatura infantil para me expressar. Tem os que consideram literatura Infantil algo menor. Tenho certeza que a maior parte (acadêmicos) nem conhece o que eu faço. Existe uma prevenção contra o livro infantil. O meu ponto de referência vai ser o Cais, bem no meio da gurizada. Já fui informado que este ano a sala do Patrono vai ser lá, todo enfeitada com motivos dos meus livros. Parece que vai ser uma casa toda forrada de bolacha Maria.

 

Literatura e jornalismo

Eu represento dois setores. De um lado, talvez seja a maior parte do meu trabalho, a literatura infantil. Represento os que no Rio Grande não tem vergonha nenhuma de dizer que escrevem para criança. De outro lado, represento os jornalistas, a minha categoria profissional. Vou fazer disso uma bandeira. Os dois patronos mais recentes, Kiefer e o Holfeldt também tem livros infantis, mas são muito mais conhecidos pelas suas atividades acadêmicas e de professores. O Holfeldt na área de teoria da comunicação, ensaística  e o Kiefer, hoje talvez mais reconhecido como um dos grandes oficineiros, ensinando gente a escrever. Além dos meus livros infantis, tenho quatro trabalhos publicados que são resultados do meu trabalho como jornalista. História, memória, cultura riograndense. Primeiro foi a série para TV “Rio Grande, Um Século de História. Nesta época eu editava cadernos na ZH e não queria largar, era um trabalheira. Tinha que escrever um texto inédito por dia durante dois anos para este série que era em capítulos. O resultado está em um livro. Depois de 11 anos na redação de ZH foi direto para RBS TV trabalhar no Núcleo de Especiais, que produzia documentários e programas especiais. Ali trabalhei com Claudinho Pereira e Beto Souza – com quem fiz um documentário sobre os 40 anos da Legalidade, com depoimentos do próprio Brizola e um sobre lendas de Natal.

 

Método e projetos

Eu aproveito tudo. O roteiro sobre a lendas, me rendeu o livro O Negrinho do Pastoreio e Outras Lendas, para a gurizada. Escrevi,  linha a linha, respeitando o texto de Simões Lopes Neto. Só fiz uma tradução para uma linguagem mais acessível para crianças, com ilustrações maravilhosas do Rodrigo Rosa. Também trabalhei sozinho na série “Guerra dos Farrapos”, que depois foi transformado em livro, que tem projeto gráfico da Clô Barcelos, premiado três vezes. Um dia voltei a Livramento e era Semana Farroupilha e estava olhando os gaudérios. Olhei pro céu e estava passando um bando de caturritas e ali comecei a escrever “A Guerra dos Farrapos para Crianças”. Também escrevi  para crianças, a convite, a Historia do SC Internacional, em 2004, para comemorar os 95 anos do Inter, a partir de 95 de depoimentos.

 

Crianças e livros

Eles (as crianças) já estão nascendo agarrados no mouse. Eles tem isso, tem a internet, a TV, mas eles tem que estudar. Tem que aprender a escrever, a ler nesse vácuo é que vai um escritor de livro infantil. Os primeiros textos que eu fiz, nem estava pensando nisso, eu já era um jornalista,  trabalhava o dia inteiro. Aí me vi com um filho embalando no colo, depois veio outro. Chegava em casa, louco pra me jogar no sofá, tomar uma cervejinha, ficar molinho, mas não podia, tinha os dois moleques, dentro de casa. Eu tinha que virar cavalinho. Uma hora eu dizia, chega! E aí: “ah, pai conta um história…”. E tu conta uma história e outro dia eles querem que contem de novo. E tu, inventa, né? Eu me perdia no dia seguinte. Um dia não sabia mais o que eu inventar e falei: então, tá! Hoje vou contar a história de um guri que eu conheço muito bem, que tem um negócio no olho e por causa disso ele faz confusão com as cores. Aí quando vi que eles tinham dormido, pensei: esta história eu não vou perder! Fui pro cantinho e comecei a escrever, nasceu meu primeiro livro “Um Guri Daltônico”, publicado há 25 anos atrás, quando eu já era um “mangolão” de 36 anos. E morrendo de vergonha de mostrar, porque o que era esperado da gente era um livro de teoria, ou um romance para derrubar todo mundo. Mas não, era um livro livro infantil. O livro está vindo para a Feira, vai ter um lançamento especial, com uma edição comemorativa. E depois disso foram surgindo os outros livros.

 

Jornalismo, novas gerações

Eu sempre tive dois empregos, saía de um ia para outro. Estive no Diário de Notícias, Rádio da Universidade, Folha da Manhã, Zero Hora, Diário do Sul. Editei o Segundo Caderno de Cultura da ZH e também uma publicação infantil, Zé H, por dois anos e meio. Tinha o José Antonio Silva, o José Weis, a Ana Barros Pinto, o Achutti como fotógrafo. Uma pena que acabaram, porque ali estava o leitor do futuro. A minha geração saía do curso e chegava na redação com extrema humildade, valorizando a experiência acumulada de quem estava lá dentro. O melhor curso de jornalismo que eu fiz foi em botecos, não foi o da vida acadêmica. Ficava esperando todo mundo para ir pro Itabira, Porta Larga, Copacabana, Pampulha, Adelaide’s, Chão de Estrelas – muitas vezes vi na noite o Lupicínio Rodrigues dando uma canja. Ficava encantado com os jornalistas mais velhos. Tenho um respeito mágico por eles, como o João Borges de Souza, o Floriano Corrêa, que sabiam mais do que todos os professores juntos. Vinham de jornais que já tinham história, como A Hora, uma redação só de comunistas, socialistas. Acho que hoje, tudo mudou, inclusive o perfil sócio cultural econômico da redação. Quando comecei nós todos éramos uns “pés de chinelo”, de classe média para baixo. A gente tinha uma visão solidária, eram quase todos os socialistas, havia uma preocupação com o coletivo. Hoje não, são todos de uma elite econômica e tem uma outra forma de ver o mundo. Se precisar eles pisam na cabeça do colega. A sociedade ficou individualista, esse sentimento mais solitário, mais aberto, mais tribal, se reduziu a eu e meu umbigo.

 

Porto Alegre e a Feira do Livro

Cheguei em Porto Alegre para estudar jornalismo com 17, 18 anos. A primeira vez que eu vi a Feira foi em 1967, como estudante. Era meia dúzia de barraquinhas em cada alameda, ligada por uma guirlanda de biquinhos de luz. Parecia uma quermesse paroquial lá de Livramento. E isso foi crescendo na frente da gente. Lá por 1980 era a Feira do Livro e o “bar nota 7”, que era  o nosso ponto de encontro, os jornalistas e um que outro escritor. Nós nos sentíamos meio donos da Feira. A gente dizia: “então, tá: a gente se encontra depois das 7 ali, na frente do pavilhão do autógrafos, no bar”.  A gente mais bebia e jogava conversa do que comprava livro ou ia nas barracas. Era a grande referência. A gente percebia que era a grande festa cultural de Porto Alegre, a quermesse da cidade que foi ganhando essa proporção. Hoje  transbordou da Praça da Alfândega, não só para o Cais, mas para os centros culturais, foi ganhando um outro viés. Hoje no programa tem oficinas, cursos, palestras. Hoje vejo não mais como aquele recanto familiar, mas um grande evento, talvez o maior do Brasil, assim aberto, direto na rua. Tem as bienais, do Rio e São Paulo, que são maiores, o pavilhões imensos, onde predomina o comércio mesmo. Mas a de Porto Alegre tem o balão, a maçã do amor, a pipoca, o xerife La Porta. E esse aspecto um tanto provinciano,  interiorano é o que mantem este encanto da Feira do Livro, por mais que ela se modernize. Qualquer gaúcho tem orgulho da Feira.

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