Carlos Roberto Ferreira da Silva: um herdeiro da tradição do peixe

Ele está no Mercado há 25 anos. Natural de Porto Alegre, nascido em 1970, tem dois filhos que trabalham com ele na peixaria Rainha do Mar, que passou, há alguns anos, a levar o nome-fantasia Beto Pescados na fachada. A mudança se deu quando os antigos sócios saíram. A banca vem ainda do tempo do seu pai.

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Foto: Letícia Garcia

 

 

 

 

 

 

 

Nos tempos mais antigos do Mercado, a área das peixarias era conhecida como “Coreia”. No começo, eram banquinhas de pedra, aproximadamente 60 delas, sem dono fixo. “Ninguém era dono de nada. Os peixeiros ficavam esperando para entrar e, quando abria, jogavam um tamanco para marcar a banca”, conta Carlos Roberto. Os peixes eram vendidos até as 11h, depois passavam os fiscais e cortavam os rabos – sinal de que não poderiam mais ser comercializados. Isso, claro, pelas precárias condições de conservação dos pescados na época: eles eram acondicionados em tonéis com gelo. Ali trabalhava o seu pai, Paulo Nunes da Silva, no tempo em que o peixe era trazido ainda do Mercado Livre. Depois disso, o pai estabeleceu, junto com outros sócios, a sua banca – onde Carlos Roberto, conhecido como Beto, teve a sua iniciação no Mercado. “Comecei a trabalhar como empregado na banca do meu pai. Depois que ele faleceu, assumi com os outros sócios e já trouxe meus filhos junto.” Depois dos tempos heróicos da Coreia, com reformulações no Mercado, foi formada uma cooperativa, surgindo daí a peixaria Rainha do Mar, da família. Beto diz que foi para a banca “porque já gostava do ‘meio’ do peixe, de pescar”. Com o seu pai, o trabalho começava às 5h, quando eles “tiravam” (carregavam) o peixe que ficava nos caminhões em volta do Mercado – o mesmo processo de hoje. O mundo do peixe sempre esteve na sua vida. O pai fazia parte de uma turma de pescadores históricos, como João Lopes da Cunha, o Chinga, fundador da Japesca, e Alfredo Singnoretti. “Sou dos poucos ainda desse tempo. Aqui no Mercado, é muito comum isso de ir passando de geração em geração, principalmente no peixe.”

 

TRABALHANDO EM FAMÍLIA

E por falar nisso, os filhos Eduardo e Felipe também estão continuando a tradição. “Um deles, eu achei até que não ia gostar e é o que mais está gostando. Fica no caixa, que é melhor para trabalhar. A gente passa 12 horas aqui dentro, trabalha de pé, é puxado.” Além da banca, Beto também expandiu os negócios há oito anos, montando o Beto Pescados, um atacado que fornece peixe para as outras peixarias, trabalho que antes era feito somente pela Japesca. Em relação à freguesia, diz que hoje, se perdeu muitos clientes por causa do peixe congelado. Tenta compensar com um atendimento diferenciado, buscando privilegiar a venda individual, para pessoas que vão levar o produto para casa, e não de empresas, como restaurantes, por exemplo. Os carros-chefes são tainha, filés de pescada e de abrótea, corvina em postas ou inteiras para assar. Ele destaca a questão do atendimento das peixarias: “Às vezes, alguns acham que as pessoas estão brigando, mas é a tradição do Mercado com o povão, aquele ‘griteiro’, até demais. Sempre que se vai na casa dos ‘antigos’ e está aquela ‘conversalhada’, alguém sempre diz: ‘olha, abriram os portões do Mercado!’”. Acredita que, antes, no tempo do seu pai, tudo era mais individual. “Agora a gente briga por uma coletividade, para as peixarias crescerem. E tenta não deixar cair. Estamos numa época que está muito difícil para todo mundo, brigando para não quebrar. Aqui é uma família, comigo (na banca) são sete, e no total umas 35 pessoas nas peixarias.”

 

DE AVÔ PARA PAI E PARA FILHO

A rotina não mudou muito dos tempos em que começou e os de hoje. Chega ao Mercado às 5h30, descarrega os caminhões para a sua e também para outras bancas e sai às 19h30. “O meu dia é aqui dentro. Quando os meus filhos estavam crescendo, só via eles nos finais de semana. Estavam dormindo quando eu saía e quando eu voltava. Para ver crescer, tem que estar junto.” Com uma vivência tão intensa no Mercado, estabeleceu relações com os colegas. “Claro, sempre tem alguma divergência nas questões profissionais, mas não pessoais. Tem que saber separar. Também não tenho a mesma relação com todos, mas me dou com todo mundo.” Essa relação fácil e amigável já vem da época do seu pai, de quem herdou inclusive o apelido. “O pai tinha o apelido de Paulo Banana e eu sou conhecido como Beto Banana”, diverte-se. A brincadeira vem de tempos mais remotos, dos avós, que eram pescadores. “Eles saíam de caíque para pescar, largar a rede, e levavam um cacho de banana, um pão e um refrigerante para comer. E o meu avô era o Gentil Banana – não cheguei a conhecer, mas até o apelido foi herdado.”

 

MELHORAR SIM, PERDER A TRADIÇÃO, NÃO

Beto lembra que o Mercado tem muitas tradições, como comprar a granel, por exemplo. Sobre as mudanças desde a época em que começou, acha que Mercado melhorou 90%, principalmente em termos de higiene. “Claro que tem muita coisa para arrumar, ainda mais depois do incêndio. Quem vinha no tempo da Coreia e vem agora, vai dizer que está parecendo um shopping. Mas não é isso que a gente queria que acontecesse – a gente quer que fique melhor, mas mantenha a tradição.” Porém, não é um saudosista. “Saudades eu tenho porque vinha trabalhar com meu pai. A época mais difícil para mim foi entrar na banca depois que ele morreu, porque tinha o cantinho dele e eu chegava e ele não estava. A saudade fica, mas as coisas foram melhorando, e ele me ensinou muito.” As lembranças mais marcantes são também as mais recentes, ligadas ao incêndio. “Achei que a gente ia perder tudo que adquirimos. A gente via lá da rua e achava que não ia existir mais o Mercado.” Assim como muitos outros mercadeiros, diz que o Mercado é tudo na sua vida. “Nasci, vivi e sempre dependi do peixe, até hoje. Foi de onde eu consegui tudo que eu tenho até agora. O Mercado é um estímulo para vir trabalhar. Se eu saísse daqui, não se arrumaria um lugar igual para trabalhar”, conclui.

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