Carlos Jenecy: barba, cabelo e bigode no Mercado, há 50 anos.

Carlos Jenecy: barba, cabelo e bigode no Mercado, há 50 anos.

      A maior parte dos frequentadores talvez não saiba que o Mercado Público possui uma barbearia. Mas o fato é que ela está lá há 40 anos, tempo em que um dos seus principais personagens, Carlos Jenecy viu muitos clientes branquearem e perder os cabelos. Décadas depois, diz que pensa em trabalhar mais dois, três anos e parar: “Vai passando o tempo, estou com 71 anos. Este profissional está cansando. Não tenho mais pique para fazer 10 ou 12 horas por dia em pé na volta da minha cadeira”, diz.  Mas mesmo assim ainda fica até 12 horas em pé cortando cabelo e fazendo barba dos seus amigos fregueses, uma clientela altamente fiel. Casado há 41, dois filhos, Jenecy viu muita coisa, tanto no seu salão quanto no Mercado. Seu sonho é que o filho continue tocando a barbearia.

 

      Ele começou no Mercado foi em 1972, no salão do seu amigo Ary, falecido em 1996. Na época Jenecy trabalhava na ferragem Franzen e nos fins de semana cortava cabelo no bairro onde se criou, cresceu e conheceu a esposa: Belém Novo.  Inicialmente o salão era onde hoje é o Açougue Salami, no térreo. “Nesta época era com a máquina manual, barba à navalha. Mais tarde mudamos o para o lado do então restaurante Bagé, em 1978”, lembra. No incêndio daquele ano o salão foi destruído por um incêndio, salvando-se pouquíssimas coisas, incluindo duas cadeiras antigas, clássicas de barbearia daquela época – em funcionamento até hoje. 20 dias depois tesouras e navalhas já estavam em ação nas mãos dos hábeis barbeiros. Com a reforma dos anos 90 a barbearia subiu para os altos do Mercado, na sala T4B, onde funciona até hoje. Depois da morte do sócio, a quem tem muita gratidão e sente muitas saudades, comprou a parte da viúva e da filha e abriu sociedade com o filho Mirion, que também é barbeiro e divide a clientela com ele. “Meus clientes não cortam com ele e os dele também não cortam comigo. São clientes fiéis, jamais vão em outros salões. Só para se ter uma idéia da fidelidade dos fregueses, um dos seus clientes certa vez foi para a Bahia, lá permanecendo um ano e meio. Nunca cortou o cabelo lá. Quando vou, logo procurou Jenecy. “Veio direto ao meu salão cortar aquele tremendo cabelo batendo no ombro, jamais vou esquecer”, diz emocionado.

 Mais que clientes, amigos

     Naturalmente orgulha-se muito dos seus clientes, alguns deles famosos: “Já cortei a barba do nosso ex-prefeito Olívio Dutra. Ele só não deixava mexer no bigode. Do (Reginaldo) Pujol e de muitos jogadores, o lateral Altemir, do Elton, do Paulo Lumumba, do ex-lateral do Inter, João Carlos, pai dos gêmeos Diego e Diogo”, diz com satisfação. Também tem uma grande clientela dentro do próprio Mercado, onde sempre teve bons amigos, como Luiz Salami, de quem recebeu muita ajuda. Lembra ainda de Pedro Rocha, Neldo Bortolini e outros que, além de amigos, batalharam contra a demolição do Mercado. Dos tempos mais antigos lembra das brincadeiras quando tinha a barbearia ao lado da antiga banca do famoso Bagé, já falecido. O salão dava para os fundos do forno de uma padaria. Quando menos esperava, colegas da padaria despejavam um punhado de farinha neles. Recorda-se também de Roberto, um “ceguinho” que vendia bilhetes, parceiro de outras tantas brincadeiras: “Só pelo jeito que tocavam nele, ele reconhecia quem era. Uma vez em Teresópolis encontrei ele. Parei o Fusca e toquei nas orelhas dele, que disse: “Jenecy, tu aqui em Teresópolis?” Do salão, onde às vezes é um psicólogo, ouvindo histórias e aconselhando os clientes, também lembra de casos engraçados, como a vez que quase cortou ao meio a orelha de um cliente que estava olhando uma revista de mulher nua e se virou bruscamente para mostrar a ex-vedete Vilza Carla nua. “Foi uma loucura para estancar o sangue, coisas da profissão”.

O cabelo e a moda

     Uma das suas resistências de parar de trabalhar é se afastar dos clientes, que se tornaram verdadeiros amigos. Jenecy hoje corta o cabelo da quarta geração de famílias. Não mudou muito, a não ser na década de 70 quando apareceu a moda de usar cabelo comprido.  Depois voltou como era antes, ou seja cabelo curto, isso quando não é moicano ou até mesmo raspado. Ainda nos anos 70 fez mais um curso no SENAC, onde o filho também aprendeu as lidas com as melenas alheias. “Quando fiquei sabendo, ele já estava formado. Montei um salão em Belém e quando o Ari morreu, trouxe ele para cá”. No Mercado, que considera sua segunda casa, construiu sua vida, desde quando começou com uma máquina manual, tesoura, pente e navalha. “Hoje é tudo descartável. O segredo de uma boa barba? Água morna, rosto bem ensaboado com creme e uma gilete boa. 15 minutos e já está bem feitinha”, resume.

O Mercado na sua vida

     “Quando entrei tinha certeza que ia vencer, porque  a amizade já era grande. Até o Ari se apavorou: eu não esperava que tu tinha tanta amizade assim!” Acha que o velho local de trabalho mudou muito. “Talvez até para melhor”, arrisca, lembrando os tempos em que a situação era mais precária e menos higiênica, com urina dos muitos gatos que habitavam os telhados. “Mas era tempo bom! Falo pra turma que isso aqui é uma família. Quando entrei no Mercado, o Pedro Rocha falou: ô guri, tu não fala de ninguém aqui neste Mercado, porque aqui é tudo parente e quem não é parente é amigo. Tem uma turma nova boa. De um tempo pra cá os guris pegaram a meada e estão firmes. E eu tenho que tocar o barco, é só o que eu sei fazer, né?”, conclui alegre e brincalhão.

COMENTÁRIOS