Caminhada Literária: personagens e autores nas ruas de Porto Alegre

Centro Histórico, por Emílio Chagas 

    

 Um dos roteiros do programa de julho foi um passeio pelo mundo literário de escritores gaúchos, em pleno centro de Porto Alegre. Orientada por Luis Augusto Fischer, professor de literatura brasileira da UFRGS e pelo arquiteto Glênio Bohrer,coordenador do Programa Viva o Centro, a caminhada com aproximadamente 200 pessoas, percorreu ruas e praças fundindo história, ficção e memórias literárias dos dois últimos séculos da cidade. 

     Diante do busto do escritor Alcides Maya, na praça ao lado do antigo Cinema Capitólio, o professor Luís Augusto Fischer começou a sua aula-passeio. “Era uma figura central na cultura gaúcha. Na sua época, só para se ter uma idéia, era mais importante que Simões Lopes Neto”, disse Fischer sobre o escritor que foi, também, o primeiro gaúcho a fazer parte da Academia Brasileira de Letras. Depois o grupo, puxado por Fischer e o arquiteto Glênio Bohrer enfrentou o frio de uma tranquila manhã de sábado e seguiu a caminhada, interrompida logo a seguir, no início das escadarias do Viaduto Otávio Rocha, esquina com a rua Fernando Machado. A parada serviu para o professor falar um pouco da famosa Rua do Arvoredo, onde morava o temível açougueiro que, reza a lenda, fazia linguiça de carne humana aí por volta de 1860, história que já rendeu calhamaços de papel e um conhecido romance de Luís Antônio Assis Brasil, “Cães da Província”. Seguindo pelas escadarias, no alto da Duque, nova parada. Desta vez para que Fischer e Glênio falassem um pouco da antiga geografia da cidade que era dividida pela atual Duque de Caxias. Ali eles lembraram que na parte de baixo ficava a parte mais pobre e a no outro lado a elite portoalegrense. Para exemplificar melhor estas diferenças, Fischer citou uma crônica de Apolinário Porto Alegre onde ele cita o que para o professor seria uma antecipação das brigas de gangues: o confronto entre os grupos Tintureiros e Bagadus. Na breve explanação o atento público ficou sabendo também da existência de inúmeros becos na região, sendo o mais famoso o Beco do Poço.

Viaduto Otávio Rocha    

Com a construção do Viaduto, iniciado em 1938 e concluído em 1932, tem início na cidade um processo de desenvolvimento, tanto urbano como econômico. Este crescimento fez com que surgissem os primeiros grandes prédios na região, principalmente na Duque de Caxias. Na famosa rua, onde hoje está o Colégio Sevigné funcionou a primeira Escola Normal da cidade, que teve entre tantas alunas célebres, a escritora Luciana de Abreu, uma mulher revolucionária para sua época. Ali também funcionou a primeira Faculdade de Direito, em 1910. Numa região que respira história política, social e literária, um pouco mais na frente, nova parada. Desta vez na peculiar Rua 24 de Maio, remanescente da época dos “becos”. Ali a parada foi para falar do historiador, crítico e ensaísta Gui¬lhermino César, mineiro que adotou o Rio Grande do Sul. Menos de 500 metros à frente, uma rápida parada na chamada Praça do Portão, onde está hoje a estátua do Conde de Porto Alegre, trazida da Praça da Matriz. O local servia como uma espécie de forte e proteção à cidade das ações dos aventureiros, salteadores e invasores. Dela também se controlava a chegada dos barcos e navios no Guaíba, segundo um morador da região. Nas suas proximidades, a Confeitaria Rocco, com seu inconfundível estilo, que serviu de palco para a vida social e política da cidade por várias décadas, a partir de 1910.  

Qorpo Santo

Da antiga Praça do Portão para a Praça Dom Feliciano foi um pulo. Ali, Fischer deliciou-se em contar histórias de Quorpo Santo (um “maluco beleza” da época, na definição dele) que esteve internado em determinada época da sua vida na Santa Casa de Misericórdia para ter examinado seu estado mental, em 1860, aproximadamente. Qorpo Santo acabou indo para o Rio de Janeiro onde também não foi vaticinado como “louco” e voltou a Porto Alegre. Aqui escreveu crônicas e 17 peças de teatro, uma dramaturgia que, para críticos importantes como Yan Michalsky, é considerada precursora do Teatro do Absurdo, de Beckett e o Ionesco. O professor também mostrou onde ficava a famosa Roda dos Expostos da Santa Casa, onde ficavam as crianças rejeitadas e abandonadas no século XIX – uma delas a própria Luciana de Abreu. Quem pôs fim nesse cruel processo foi o médico Mario Totta, que também escreveu o livro “Estriquinina”, junto com o cronista Paulinho da Azu¬renha. Por ironia, o monumento do médico-escritor na mesma Praça Dom Feliciano está em estado lastimável, sem o busto de Totta e com sua base agredida por pichações – como a maioria dos monumentos de Porto Alegre. A praça também era o local de encontro dos poetas simbolistas da cidade, uma geração que deu Álvaro Moreyra e Eduardo Guimaraens, entre outros.

Tempos de Erico Verissimo e Mario Quintana     

Descendo a rua da Praia, antigo reduto de footing e desfile das famílias em tardes provincianas, o roteiro parou junto à Galeria Chaves, um marco na cidade com sua arquitetura renascentista e uma espécie de pré-shopping Center. E, quase junto à ela, a antiga Editora e Livraria do Globo, hoje transformada em um ponto comercial. Na Globo, outra geração de escritores. Ali trabalharam Erico Verissimo, nos anos 30, como editor e Mario Quintana, como revisor. “Erico foi o primeiro a escrever sobre Porto Alegre, era um escritor urbano antes de O Tempo e o Vento”, disse Fischer. A editora e livraria também era um ponto de referência e encontro de políticos, como Getúlio Vargas. Cruzando a Galeria Chaves, que está passando por uma grande reforma, com seus arcos romanos e colunas jônicas, o grupo chega ao fim de seu passeio cultural, justamente na Praça XV, entre o Chalé da Praça XV e o antigo Abrigo dos Bondes. “A história da cidade pode ser contada por suas praças”, disse Fischer, lembrando que a Praça XV começou como Praça Cond’Eu, depois passou para Praça Paraíso (em função das prostitutas, no início do século XIX) e, finalmente, para o nome atual. Ali, informou o professor, era um ponto de confluência, principalmente da colônia alemã que predominava no norte da cidade. Os germânicos ricos (que moravam na av. Independência) e os mais pobres, da Floresta em diante, costumavam se reunir nas imediações, principalmente no Chalé e no Bar Naval, no Mercado Público, para derrubar incontáveis chopes. Nas proximidades, o Mercado Público, cenário de algumas páginas de “Os Ratos”, clássico romance de Dyonélio Machado. Para fechar dentro de um clima de literatura, o professor encerrou a caminhada lendo o trecho final de um conto do livro “Pedras de Calcutá”, de Caio Fernando Abreu, onde duas personagens que se reencontram depois de muito tempo no centro, acabam tomando um chope no velho Chalé da Praça XV.

 

Resgatando a dignidade do Centro Glenio

Bohrer, coordenador do programa, informa que o Viva o Centro existe, neste formato, desde 2005. Ele vê com boas perspectivas o futuro do Centro Histórico. Cita a reforma do Cine Imperial, prédio que abrigará também o Centro Cultural da Caixa Econômica Federal, as obras da Praça XV que estão começando, a recuperação do Largo Glenio Peres (em parceria com a Coca-Cola), a Praça Farroupilha e o próprio Cameló¬dromo. Todas são a¬ções, segundo ele, para trazer um convívio mais huma¬nizado na área central. “O centro vinha numa curva descendente, estava muito mal falado e temido, mas a partir de agora as pessoas estão com outro olhar, inclusive com muita gente voltando a morar aqui”, disse ele. Como prova dessa revita¬lização Glênio cita também recentes investimentos na região, como a Petiskeira, lojas Pompéia e a recuperação da Galeria Chaves, todos de altos valores, que demonstram a valorização do Centro. Ele também lembra a importância do Programa Monu¬menta, do futuro projeto do Cais do Porto e aposta nos Portais da Cidade como um fator decisivo para a qualificação de toda a área trazendo, inclusive, pessoas que não costumam vir ao Centro. 

Saiba: Viva o Centro a Pé 

O Programa é realizado duas vezes por mês, saindo sempre das proximidades do Caminho dos Antiquários, às 10 horas da manhã e faz parte do Programa de Revitalização do Centro. Normalmente é conduzido por especialistas em história e arquitetura. Para acompanhar a caminhada solicita-se 1 k de alimento não perecível e as inscrições para o programa pode ser feitas neste e-mail vivaocentroape@gmail.com. 

Mais informações:

33331873 – 3333. 3289 

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