Califórnia da Canção Nativa: O nativismo no palco

Ilustração: Giovani Urio

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

A Califórnia da Canção Nativa foi o primeiro festival de música regional do Rio Grande do Sul. Em 2016, chega à 40ª edição, depois de 45 anos de seu surgimento em Uruguaiana/RS. Este emblemático festival desencadeou a criação de outros eventos semelhantes pelo estado e foi palco para o nascimento e a consolidação do nativismo, vertente musical e cultural que fortaleceu o regionalismo gaúcho a partir dos anos 80.

 

“Califórnia é uma palavra de origem grega e significa ‘conjunto de coisas belas’. No Rio Grande, era usada para designar ‘carreira da cancha reta’ e deu nome também às incursões guerreiras de Francisco Pedro de Abreu, o Moringue, a terras cisplatinas”, explica Luiz Machado Stabile, atual presidente do evento. Stabile está ligado ao festival desde sua criação – e foi também o primeiro patrão do CTG Sinuelo do Pago, que começou a realizar o evento com apoio da Prefeitura de Uruguaiana. A Califórnia surgiu depois que a milonga “Abichornado”, de Colmar Duarte e Júlio Machado da Silva Filho, foi desclassificada do I Festival da Canção Popular da Fronteira, promovido por uma rádio local em 1970. A versão mais aceita da história diz que a música ficou de fora por ter temática gauchesca – a criação da Califórnia seria uma resposta, para uma valorização do local, colocada em prática quando Duarte assumiu a patronagem do CTG Sinuelo. A primeira edição foi em dezembro de 1971 no Cinema Corbacho/Cine Pampa. Stabile define o festival como fundamental para a cultura rio-grandense. “Despertou uma consciência de respeito às nossas raízes culturais e foi forte motivação para reconhecer e valorizar nossa arte e nossas origens”, afirma. “Simboliza uma nova etapa e um novo tempo para nossa cultura e nossa arte – especialmente musical.”

 

NATIVISMO

Composições de todo o estado passaram a se inscrever para disputar o prêmio máximo, a Calhandra de Ouro – nome que homenageia um pássaro comum no pampa gaúcho. Também são premiadas as melhores canções nas linhas Campeira, Manifestação Rio-Grandense e Livre, além de prêmios para intérprete, composição, entre outros. Nomes como Leopoldo Rassier e César Passarinho marcaram a história do evento, que foi palco para muitos músicos regionais despontarem. “A Califórnia inaugurava um movimento no sentido da qualificação estética da música regional, procurando (e conseguindo) elevá-la a um patamar superior de sofisticação através da canalização de esforços de um contingente cada vez maior de artistas”, escreve Álvaro Santi em sua pesquisa “Do Partenon à Califórnia: do nativismo gaúcho e suas origens”. Segundo o autor, o termo “nativista” só passaria a ter uso corrente com a disseminação dos festivais de música nativista pelo estado nos anos 80 – o que aconteceu a partir da Califórnia, que incentivou músicos a cantarem temas regionais. “A expressão ‘canção nativa’ é ao que tudo indica de onde se originaria ‘nativismo’”, escreve Santi. O nativismo, movimento artístico-musical urbano, canta o regional aliado a temas sociais, numa ponte entre o passado e o presente gaúcho. Seu surgimento coincidiu e ganhou ainda mais impulso com a explosão fonográfica dos anos 80, que levou essas canções para dentro das casas.

 

TERTÚLIA LIVRE

Desde a 2ª Califórnia, muitos participantes passaram a acampar em barracas, primeiro na sede do CTG Sinuelo do Pago e depois no Parque da Associação Rural de Uruguaiana, num espaço que ficou conhecido como “Cidade de Lona”. Neste local, os acampados realizavam as chamadas “tertúlias livres”, feitas por artistas que nem sempre estavam participando do festival, mas que desejavam compartilhar suas produções. “A partir de 1983, a fim de possibilitar o acesso de um número maior de pessoas ao festival, este passou a ocorrer num palco montado ao ar livre, junto à Cidade de Lona. A mudança foi um sucesso”, escreve Santi. O festival foi realizado ininterruptamente de 1971 a 1999. Depois, de 2001 a 2005, quando houve novo hiato. Realizou-se, depois disso, nos anos de 2007, 2009, 2013, 2014 e 2015. A interrupção em alguns anos, segundo Stabile, foi devido, “quase invariavelmente, a problemas de ordem financeira”. Mas sempre houve o desejo de não deixar o festival desaparecer: “A Califórnia continua a ter grande importância. É ainda considerada a ‘mãe dos festivais nativistas’”, reforça seu presidente.

 

LEGADO VIVO

A Califórnia da Canção Nativa tornou-se Patrimônio Cultural do RS através da Lei 12.226/2005 da Assembleia Legislativa. Além de outros festivais, a Califórnia inspirou o surgimento de programas de rádio e televisão, que disseminaram a música regional. Também fortaleceu – se não praticamente fez nascer – todo um mercado de música local, com CDs, LPs, shows e fandangos embalados por música regional. Segundo Santi, a Califórnia introduziu a criação poético-musical no âmbito do tradicionalismo, até então focado na pesquisa e no resgate de uma tradição, prioridade nas duas primeiras décadas de movimento. Atualmente, a Califórnia da Canção Nativa é organizada pelo CTG Sinuelo do Pago e pela Fato Singular Projetos Culturais e Eventos, com apoio da Prefeitura de Uruguaiana. A 40ª edição, gratuita, será realizada em 10 e 11 de dezembro de 2016 no Teatro Rosalina Pandolfo, mesmo local do antigo Cine Pampa, e terá patrocínio de Ipiranga e Prefeitura de Porto Alegre. Este ano, não será competição, e sim uma mostra de músicas de edições anteriores para celebrar sua história.

Saiba mais: “Do Partenon à Califórnia: o nativismo gaúcho e suas origens”, de Álvaro Santi (Editora da Ufrgs, 2004)

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