Briane Bicca, uma guardiã da memória

Briane Bicca, uma guardiã da memória - Jornal do Mercado

Foto: Fabricio Scalco

Arquiteta, urbanista e especialista em conservação do Patrimônio Histórico, Briane Bicca faleceu dia 2 de junho em Porto Alegre. Com uma trajetória profissional focada na defesa da preservação do patrimônio histórico-cultural, ela conquistou a admiração de quem passou pelo seu caminho e inspirou muitos a darem seguimento ao seu legado. Foi uma grande defensora do Mercado, em especial no processo de restauração pós-incêndio de 2013, por isso registramos aqui essa homenagem.

 

O Mercado Público vai sentir falta da presença de Briane nos seus corredores. Seja como frequentadora das bancas, seja como coordenadora do Programa de Aceleração do Crescimento Cidades Históricas (PAC-CH), acompanhando a restauração do prédio, Briane estava por perto. Era uma amiga do Mercadão. Quando trabalhou no Programa Monumenta, criado em 2002 e encerrado em 2013, o Mercado foi o seu lar profissional, pois ocupava com os colegas uma sala no segundo piso. Depois do incêndio do Mercado, em julho de 2013, ela passou a trabalhar ativamente na restauração do prédio, liderando a equipe do PAC-CH na reunião de documentos para envio ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) de Brasília, para angariar recursos federais. Um trabalho que executou até esse ano. Briane estava internada há alguns meses e faleceu dia 2 devido à ruptura de aneurisma. Foi sepultada no Memorial Martim Lutero, em Porto Alegre.

 

Trajetória internacional

Briane Elisabeth Panitz Bicca nasceu em 1946 na capital gaúcha. Em 1969, graduou-se em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Dez anos depois, estava concluindo o doutorado em Estudos Urbanos e Organização do Território, Universtié des Sciences Sociales de Grenoble II, na França. Em 89, especializou-se em Conservação Arquitetônica no Centro Internacional de Estudos para a Conservação e Restauro de Bens Culturais (Iccrom) de Roma. No ano seguinte, fez o pós-doutorado em Conservação do Patrimônio Histórico na Palais Chaillot de Paris.

Mas essa é apenas a trajetória acadêmica — o seu trabalho já estava em andamento quando tornou-se PhD. Foi em 76 que integrou o Programa Cidades Históricas e, três anos depois, em Brasília, assumiu a posição de técnica em planejamento no Iphan até 92. Lá, coordenou o Grupo de Trabalho para Preservação de Brasília e foi responsável pelo dossiê que possibilitou o tombamento da capital nacional como Patrimônio Mundial da Unesco em 86. Ao deixar o Iphan, passou a implantar e coordenar o Setor de Cultura da Unesco no Brasil, função que exerceu até 2001, quando retornou a Porto Alegre.

 

Restaurando o Mercado

Aqui, ela tornou-se coordenadora, de 2001 até 2014, do Programa Monumenta (SMC/Iphan), responsável por restaurar diversos pontos da capital, como a Praça da Alfândega, o Monumento a Júlio de Castilhos e a Igreja das Dores. Quando o Monumenta foi encerrado, muitas das atividades passaram para o PAC-CH, do qual ela se tornou coordenadora. O maior e mais extenso projeto, ainda em andamento, é a restauração e qualificação do Mercado Público, que sempre esteve ativo nas mãos de Briane. As obras de restauração após o incêndio de 2013 começaram em 2014 e foram concluídas em 2016.

Para a reabertura do segundo piso, está pendente o PPCI, pois a recuperação das estruturas metálicas e das obras civis (paredes, pisos, janelas, etc.) e a difícil finalização do telhamento (telhas, brises, etc.) foram feitas graças aos esforços da equipe liderada por Briane. Todo o processo da restauração do Mercado envolveu uma série de detalhes técnicos, como uso de materiais específicos e preservação de características históricas, por se tratar de um Patrimônio Histórico e Cultural — assunto que ela entendia muito bem.

 

Defensora do patrimônio

Este ano, Briane encaminhava os ajustes na documentação da terceira e última etapa da restauração do Mercado a contar com recursos do Governo Federal (os R$ 10 milhões restantes garantidos pelo PAC-CH, de um total de R$ 19,5 mi). São 15 projetos para qualificação do prédio, como pavimentação e reestruturação do esgoto, tarefa que, agora, terá continuidade com a equipe do PAC-CH Porto Alegre. Briane ainda integrava o Conselho Superior do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) e o Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU). Com seu olhar atento e cuidadoso, foi uma incansável defensora do patrimônio histórico e cultural, da memória do Brasil, enfim. Aos que ficam, resta expressar a solidariedade à família e manter vivo o seu legado — construções que permanecem, mostrando a força da sua história.

 

Mercado Público, lugar de todos

Briane Bicca, uma guardiã da memória - Jornal do Mercado

Acervo do Patrimônio Histórico da UFRGS

Ao longo dos anos, Briane Bicca falou ao JM diversas vezes sobre o Mercado Público, e esse foi um dos seus mais belos depoimentos.

“Desconfio que essa é uma característica de todos os mercados, mundo afora. Diante desses lugares tão diversos que são os mercados, cresce a capacidade de convivência das pessoas umas com as outras. Há um clima cálido, de simpatia, que por si só dissipa ou enfraquece os maus humores. A começar pelos feirantes, que se esmeram em simpatia para atender os clientes, desarmando qualquer ímpeto de agressividade e amainando os mais irritadiços. Se tem a clara impressão de que, quando alguém entra no Mercado, deixa lá fora o que o acabrunha, se torna mais leve e, com essa leveza, se comunica com os outros fregueses e frequentadores. Sente que aquele lugar também é um pouco seu, o que cria reciprocidade nas relações entre fregueses e feirantes. Porque no Mercado se trata, antes de tudo, de relações entre as pessoas.  Mas esse espírito do Mercado Público ainda vai além. Como ele é público, ele é do público, é de todos, portanto, de uma imensa variedade de gentes, que trazem para dentro do Mercado as suas formas de ser. E ele as acolhe. Por isso ele é um lugar de afirmação da cultura feita dessa diversidade de expressões que nele se reflete. Apesar de ser um lugar de compra, ele é muito mais do que um lugar de consumo. É um lugar de reconhecimento, de referência afetiva, de se sentir bem e de bem querer. Essa é a sua marca!”

 


Depoimentos

“Briane imediatamente se afeiçoou ao Mercado, onde sentia-se em casa. O incêndio foi um baque, pois atingiu as salas do Monumenta, com a perda de do acervo de 12 anos. Como Briane tinha o hábito de compartilhar, pois, dizia, nosso trabalho era público, começamos logo em seguida a receber cópias de antigas plantas, de projetos e de pareceres. Praticamente todo o acervo se recuperou digitalmente em pouco tempo. Esse episódio revela o espírito de colaboração, de acolhimento e de atenção da Briane, e que, para mim, é o seu traço mais importante e a sua lição mais duradoura.”

Luiz Merino Xavier, arquiteto da Coordenação da Memória Cultural, SMC/PMPA

 

“Briane se envolvia de corpo e alma em todas as questões relacionadas ao patrimônio e a memória da cidade. Sua postura militante se confundia com sua trajetória; era contundente, mas, sobretudo, generosa. Tinha um perfil agregador e foi das poucas pessoas que conheci que, de forma verdadeira, escutava as opiniões contrárias à sua. Conseguia, ainda, a proeza de negociar com grupos os mais diversos. Sempre penso que ela ensinava aprendendo. Posso me considerar uma pessoa de grande sorte por ter tido a oportunidade de conhecê-la.”

Pedro Rubens Vargas, historiador com pós em Museologia e Urbanismo, técnico de cultura da SMC

 

“Briane! Arquiteta e urbanista defensora dos direitos humanos, pós-doutora em Patrimônio, ativista cultural, conselheira, amiga, gentil, boa ouvinte e um ser político de incrível perfil mediador. Briane Bicca elevou e valorizou os lugares por onde andou e as pessoas com quem conviveu. A ela, nossa gratidão. Aos familiares, nossos sentimentos. Como uma pessoa que tanto valorizou a memória em suas variadas dimensões, é também papel nosso garantir que sua memória permaneça viva!”

Vinicius Vieira, escultor, arquiteto e urbanista, diretor cultural do IAB-RS

 

“Passamos 14 anos juntas trabalhando e batalhando pelo patrimônio. Um exemplo de mulher, que tive o privilégio de conhecer. Ela sofreu demais com o incêndio do Mercado, mas foi à luta intercedendo junto ao MinC para que parte significativa dos recursos destinados ao PAC-CH fosse aplicado na restauração do Mercado. Assim era Briane, determinada, arregaçando as mangas por uma boa causa, nunca fugindo da raia se fosse para o bem comum. Que a sua memória seja sempre cultivada por todos os que a conheceram e que a admiram. Que seu legado seja preservado!”

Doris Saraiva de Oliveira, arquiteta especialista em restauração e conservação de sítios e monumentos históricos

 

 

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