Bondes pela cidade

Por 106 anos, Porto Alegre viu-os passar por suas ruas. Primeiro puxados por mulas, depois elétricos e amarelos, os bondes desfilavam pelos trilhos que cruzavam a cidade, nos primórdios do transporte coletivo da capital.

 

Os bondes chegaram à capital gaúcha em 1º de novembro de 1864, instalados graças à iniciativa do empresário Estácio Bittencourt. O primeiro trajeto ligava a Praça Argentina, no Centro, ao bairro Menino Deus. Puxado por mulas, o veículo ficou conhecido como maxambomba, referência a uma locomotiva a vapor do Rio de Janeiro. O percurso, além de demorado, tinha acidentes frequentes, com descarrilamentos dos trilhos de madeira. O alto investimento não trouxe retorno e o serviço foi encerrado em 1872 – ano em que surgiu a Cia. Carris de Ferro Porto-alegrense, que instalou novos bondes de mulas em 1873. Em 1906 foi fundada a Cia. Força e Luz, da qual a Carris fez parte, que produzia energia elétrica – no mesmo ano, a empresa adquiriu bondes elétricos da inglesa United Eletric. Houve um trabalho de nivelamento e colocação de trilhos de ferro nas ruas da cidade e, em março de 1908, os elétricos entraram em circulação. As linhas cruzavam os bairros Glória, Menino Deus, Partenon e Teresópolis, além do Centro. Em pouco tempo, o transporte já dominava o cotidiano da população. A cidade recebeu bondes abertos, fechados e os efêmeros de dois andares, vindos da Bélgica, Estados Unidos e Inglaterra. Os bondes à tração animal e os elétricos conviveram até 1914, quando circulou o último puxado a mula.

Foto: Arquivo PMPA

O transporte se expandiu pela cidade. Em 1930, foi construído em frente ao Mercado Público o abrigo dos bondes, prolongado em 1935. Ali circulavam as linhas Cidade Baixa, Floresta, Independência e Partenon. Nas décadas de 1940 e 50, a Carris chegou a ter 229 carros – neste período, Porto Alegre tinha um dos maiores acervos de bondes do mundo, com um dos maiores projetos de linhas de bonde do Brasil. O bonde não fazia voltas – no ponto terminal, fundos e frente eram invertidos mudando-se os equipamentos de lugar. O motorneiro, condutor do bonde, invertia as alavancas superiores e trocava os comandos para a “frente” do trajeto, enquanto o condutor empurrava os encostos dos bancos – assim, o bonde mudava de direção. O primeiro ônibus surgiu em 1926 e passou a dividir o transporte de passageiros com os bondes. A substituição foi gradual, intensificando-se na década de 1960. Em 8 de março de 1970, circularam os últimos bondes de Porto Alegre – linhas Glória, Partenon e Teresópolis. Com direito a solenidade de despedida e transporte gratuito a toda a população, às 20h30 o último bonde elétrico foi recolhido ao depósito de bondes da Carris. Hoje, há um projeto em andamento na Secretaria de Turismo do município para a implantação do “bonde histórico”, retomando um trajeto no Centro, para fomentar o turismo – e a memória contemplativa da cidade.

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