Biblioteca Pública Estadual: guardiã da memória da nossa história

Biblioteca Pública Estadual: guardiã da memória da nossa história

Por Emílio Chagas 

Hoje é quase inimaginável a majestosidade de uma obra como ela, em pleno começo do século XX, numa pequena cidade, provinciana, como a Porto Alegre de 1912. Mas, seguindo os ventos europeus, em especial os que sopravam o positivismo de Augusto Comte, ela foi erguida nesse ano, constituindo-se um dos principais marcos do patrimônio arquitetônico da cidade. Morgana Marcon, formada em biblioteconomia pela UFRGS e diretora da Biblioteca desde 2003, lidera uma equipe de 30 pessoas, entre bibliotecários, historiadores e equipe técnica, e sonha em ter um prédio em condições de guardar e proteger o máximo de documentação do patrimônio histórico do Rio Grande do Sul. Mas, por enquanto, está envolvida, diariamente, com o processo de restauro.

A obra teve duas etapas, a primeira com início em 1912, sendo concluída em 1918. Porém, explica Morgana, o diretor da época, Victor Silva, achou que estava ainda pequena e decidiu ampliá-la. Em 1922, por ocasião das comemorações do centenário da Independência do Brasil, ela foi inaugurada. Projetado pelo engenheiro Affonso Hebert, o prédio foi todo pensado para ser a biblioteca, com parte do mobiliário comprado no exterior, com predomínio do estilo Luís XV, harmonizando com sua fachada neoclássica. “Este é o maior restauro que o prédio já passou. A ideia é recompor a biblioteca como era. Quando foi construída, a população era bem menor, inclusive com salas separadas para homens e mulheres”, informa a diretora. A primeira etapa da obra incluiu as infiltrações, tubulação, pisos, entre pisos, reconstituição das vigas de madeira e do parquê, original, praticamente 100% recuperado. Além disso, as aberturas foram restauradas, assim como os vidros coloridos, originais e trabalhados, reconstituídos depois de um longo período de pesquisas, bem como o vitral da porta de entrada. Já os famosos bustos, que estavam pintados de branco, readquiriram a cor do mármore original. “Naquela época tinha muita influência da Europa, todos os palácios e prédios eram suntuosos”, diz Morgana, lembrando a riqueza dos ornamentos da biblioteca. À exceção do parquê, com madeira trazida do Pará, tudo veio de fora, informa ela, como a estanteria que segura os livros (vinda dos EUA), a escadaria alemã, entre outros detalhes.

 

Recuperando a pintura-mural das paredes

 

Existe uma correspondência, informa a diretora, em que o então governador Borges de Medeiros, que se alojou numa das salas da Biblioteca enquanto o palácio Piratini estava em reforma, em que ele ordena colocar gramas de ouro na tinta das paredes douradas internas do prédio. O mobiliário feito aqui no Rio Grande do Sul, pela firma Jamardo e Filhos, também é considerado riquíssimo. Morgana lembra, inclusive, que as cadeiras que hoje estão no Salão Negrinho do Pastoreio, no palácio Piratini, foram levadas no período do governador Euclydes Triches, assim como outros ornamentos, como ânforas de mármore que estão na ala residencial do Palácio. “Está tudo catalogado e listado, porque no final do restauro a ideia é que tudo isso volte para a Biblioteca”, registra. Outro aspecto crucial é o restauro da pintura-mural de 95% das paredes da Biblioteca – a parte mais cara e demorada da obra. As paredes inicialmente possuíam pinturas, em forma de murais, feitas por Fernando Schlatter, que foram cobertas em todos os salões nos anos 50, paradoxalmente, por ordem de Ado Malagolli, sob o pretexto que desviavam a atenção dos leitores e não possuíam valor histórico. “Somente três salões escaparam, onde ficava a parte administrativa – os salões Mourisco e Egipcío e um no térreo, onde funcionou o gabinete de Borges de Medeiros”, revela Morgana. Trata-se de um trabalho extremamente demorado e caro, custando mais da metade da segunda etapa da restauração da obra, cerca de R$ 8 milhões. “Este trabalho vai demorar anos, indo além desse projeto. É feito manualmente, com a retirada das camadas de pintura, bem lento e muito qualificado”, explica.

 

Acervo e memória da história rio-grandense

 

A primeira etapa do restauro teve início em 2006, com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES), através da Lei Rouanet, do Ministério da Cultura, e custou R$ 2.556.000, tendo a prestação de contas já sido realizada. Um novo projeto, para dar sequência, já foi encaminhado para o Minc e nele estão incluídas a recuperação dos lustres, colunas de mármores, fonte histórica do pátio interno, luminárias, climatização, acervo, segurança e acessibilidade, já que, por ser um prédio antigo, não haviam acessos especiais e, embora haja um elevador, ele não comporta o tamanho de uma cadeira de rodas. Esta segunda fase custará R$14 milhões, incluindo os R$ 8 milhões da pintura-mural. A previsão de conclusão é para o final de 2015, porém até lá o prédio já estará aberto para espetáculos, recitais e visitas guiadas, entre outras ações. A proposta é que seja uma biblioteca-museu, com eventos culturais, conservando a memória e documentação histórica do Rio Grande do Sul. Estão sob sua guarda no acervo obras raras e importantes, como todo o teatro de Simões Lopes Neto, livros ainda em manuscritos, encadernações especiais, edições limitadas e até as chamadas pecaminosas. Enfim, a idéia é deixar a Biblioteca com a parte histórica. Já para a parte de pesquisas, consultas e empréstimos de livros, Morgana informa que está sendo procurado um outro prédio, que funcionará como um anexo da Biblioteca. E também já existe um projeto para uma grande biblioteca, em um prédio moderno, que funcione também como um ponto turístico e de visitação pública. Até porque, com 240 mil livros hoje, a Biblioteca não tem mais por onde se expandir. “A nossa biblioteca tem que guardar a memória e história do Estado, e ter um dos maiores acervos. Esse é um dos meus objetivos desde 2003”, conclui ela.

 

Os bustos de mármore – uma atração à parte

 

Eles são quase imperceptíveis para quem passa. Mas um olhar mais atento vai perceber os bustos de mármore que representam os meses do calendário positivista, cada um representando uma área, a ciência, a política, a religião, etc, colocados na fachada do prédio. A biblioteca é contornada por 10 bustos dos patronos do calendário positivista, caracterizando os diversos aspectos do conhecimento – Júlio César, São Paulo, Carlos Magno, Dante, Guttemberg, Shakespeare, Descartes, Frederico III, Aristóteles e Bichat. Ficam faltando três personagens do total de 13, a saber, Moisés, Homero e Arquimedes. A fachada, em si, é de tradição clássica, inspirada em modelos greco-romanos, classificada como neoclássica.

 

Fotos: Emílio Chagas

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