Belo passeio de uma manhã de verão

Belo passeio de uma manhã de verão

Por Emílio Chagas 

Numa parceria com a Secretaria Municipal de Turismo, o programa Viva o Centro a Pé ganhou uma nova versão e roteiro nesta estação, as Caminhadas Turísticas de Verão. “É um olhar diferente de alguns lugares que a gente passa todos os dias e não presta muito a atenção”, definiu o guia turístico Roque Lemanski. A caminhada começou na Usina e terminou na Praça da Alfândega, reunindo um grupo de aproximadamente 100 pessoas, numa bonita manhã de janeiro.

 

Diante da Usina do Gasômetro – que, na verdade, não é do Gasômetro, mas sim termoelétrica – o pequeno público ouviu as explicações do guia: “Aqui antes existia uma usina de gás carbonatado, que distribuía gás para as casas do entorno e luminárias. A termoelétrica acabou herdando a história”. Sinais, como postes da antiga usina, ainda são visíveis na praça Júlio Mesquita, em frente à Usina, onde está o Aeromóvel, projeto do engenheiro Artur Koester, parado desde os anos 70 tendo, contudo, projeção de funcionamento entre a Usina e a UFRGS. Porém, de concreto, é a sua construção, já em andamento, ligando o aeroporto Salgado Filho com a estação Aeroporto da Trensurb. Em relação à Usina, revelou o guia, foi construída em 1928, com boa parte da sua arquitetura e materiais vindos da Inglaterra. Atravessando a Avenida João Goulart, a primeira parada do passeio foi na referida praça Júlio Mesquita, que em breve funcionará como ponto de embarque e desembarque do Bonde Histórico, previsto para operar em 2015. Seguindo o trajeto, uma parada em frente ao Museu do Trabalho, fundado em 1982, que teve sua demolição impedida através da ação de um grupo de estudantes e professores. Graças a isto, em 1983, o prédio foi tombado como Patrimônio Histórico do Estado. Além de manter acervos da história do trabalho, no Museu são desenvolvidas atividades culturais, como espetáculos no teatro, cursos de artes plásticas, gravuras e esculturas. Em mais de 25 anos, o local criou uma identidade como espaço alternativo, independente e ativo – importante para o cenário cultural porto-alegrense.

 

Uma região histórica

 

Contornando o Museu, a Praça Brigadeiro Sampaio, foi a próxima parada. Também conhecida em outros tempos como o Largo da Forca e tido como um dos locais onde a cidade começou, era onde os escravos condenados eram enforcados. Por este motivo abriga o Tambor, primeiro marco do Museu do Percurso do Negro, instalado em 2010, projeto idealizado pelo historiador Pedro Vargas. Um pouco mais à frente, na Igreja das Dores, outra referência à escravidão. Reza a lenda que por uma praga do escravo Josino a sua conclusão atrasou quase um século. O escravo foi acusado, injustamente, pelo seu dono de roubar materiais de construção da Igreja – telhas e tijolos. Condenado à forca, proferiu a maldição, a qual o seu senhor não veria o fim da construção da Igreja. O fato é que ela teve uma série de dificuldades para ser concluída, e levou mais de 90 anos – não estando, inclusive, completamente pronta. Inicialmente de estilo barroco, ao longo do tempo sofreu muitas alterações, apresentando hoje influência barroca e neoclássica no seu interior e uma fachada eclética no seu exterior. Em 1938, a pedido da comunidade, A Igreja Nossa Senhora das Dores foi tombada pelo IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, na categoria de Sítio Histórico Urbano.  Ainda na região, despontam os prédios históricos do III Exército, que formam um conjunto expressivo no chamado corredor cultural da Rua dos Andradas. 

 

Quartéis históricos e Casa de Cultura Mario Quintana, marcos referenciais

 

São eles o antigo QG do Exército, atual Quartel General Auxiliar do Comando Militar do Sul, inaugurado em dezembro de 1908. É um interessante e original edifício em estilo eclético, na esquina das ruas General Canabarro e dos Andradas. Outro prédio é a atual 8ª Circunscrição de Serviço Militar. Sua construção data de 1828, sendo um prédio em estilo neoclássico simplificado e austero. A terceira edificação é a do Museu do Comando Militar Sul, inaugurado em 1867, funcionando inicialmente como Arsenal de Guerra.  Trata-se de um grande edifício em estilo eclético, ainda com reminiscências do estilo colonial, ocupando todo o quarteirão. Foi criado em 1999 com a intenção de recolher, preservar, conservar e expor objetos referentes à história do Exército da região Sul. Seguindo o passeio, o destino foi um dos mais importantes ícones culturais da cidade, a Casa de Cultura Mário Quintana. Antigo Hotel Majestic, inaugurado em 1933, que teve grande papel na vida social de Porto Alegre, hospedou muitas personalidades famosas, como presidentes, artistas, entre outros, “mas nenhum tão famoso como aquele do quarto 217, natural lá de Alegrete, o seu Mario Quintana, que ali se hospedou entre 1968 e 1980”, disse o guia. Até hoje o quarto do poeta permanece intacto. O prédio foi comprado em 1980 pelo Banrisul que, dois anos depois, cedeu o imóvel para o Governo do Estado, sendo transformado, então, em espaço cultural. Os espaços da Casa de Cultura Mario Quintana estão voltados para o cinema, a música, as artes visuais, a dança, o teatro, a literatura, a realização de oficinas e eventos ligados à cultura.

 

O cerne do Centro Histórico

 

Deixando a CCMQ, alguns metros à frente, o grupo deparou-se com a primeira Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, a Catedral da Santíssima Trindade (Andradas, 880), restaurada em 2008. Originalmente idealizada em estilo gótico, depois simplificado, sua origem remonta à chegada de dois missionários americanos, Lucien Lee Kinsolving e James Watson Morris, em Porto Alegre, em 1890. Alguns metros à frente, na esquina da Caldas Jr. com a Andradas, mais dois prédios históricos: o do Correio do Povo e, em frente, o Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, com as suas peculiaridades arquitetônicas. Em seguida, referências a artistas de rua, como o pintor Dimas que expõe em frente ao Shopping Rua da Praia, aos prédios do Banco Safra e antiga Farmácia Carvalho. Nela, a primeira parada foi para mostrar a Carta-Testamento de Getúlio Vargas. Adentrando a praça, recentemente restaurada pelo Programa Monumenta, nova parada para explicações sobre o monumento ao herói da Guerra do Paraguai, General Osório e, posteriormente, explanações sobre os seus dois mais importantes prédios: o Museu de Artes do Rio Grande do Sul e o atual Memorial do RS, antigo prédios dos Correios e Telégrafos. De ambos foram destacadas as suas arquiteturas e, principalmente, a rica estatuária, essenciais para um belo passeio.

 

Serviço:

Para participar basta fazer a doação de um quilo de alimento não perecível ou ração para cães e gatos. Inscrições para as Caminhadas Turísticas através do e-mail vivaocentroape@gmail.com. Informações pelo fone: 3333 1873.

Fotos: Emílio Chagas 

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