Belmiro Gomes Pires: “O Mercado é uma aldeia”

Os pais Belmiro Gomes Pires e Silvina A. Gomes Gueiral, portugueses, cruzaram o Atlântico e aqui aportaram com duas crianças – Maria Adelina e Manuel, os irmãos mais velhos do nosso personagem Belmiro, que viria a nascer no Brasil, assim como sua irmã mais velha Maria Generosa. Aqui, como muitos imigrantes portugueses desse período, quando Portugal vivia uma época de guerra nas suas colônias, o casal optou pelo comércio. A família da mãe, porém, veio antes. Eles chegaram em 13 de fevereiro de 1961. Começaram trabalhando no restaurante 13, no Mercado Público, onde ficaram seis meses. Depois, compraram restaurantes nas avenidas Voluntários da Pátria e Farrapos. E, como é muito comum nas histórias dos mercadeiros, acabaram voltando, em 1968, para o Mercado. Desta vez, em definitivo para o restaurante 55 – naquela época se costumava chamar os lugares pelo número das lojas.

 

“Era uma época de ouro, nos anos 60. Quem vinha e trabalhava se dava bem”, lembra Belmiro. O “55” ficava onde hoje se situa a peixaria Japesca, servindo comida “pesada” para a sua freguesia, formada em sua maioria por estivadores do então Cais do Porto, que funcionava a pleno. “Se pegar (os restaurantes) 30 anos atrás, eram todos parecidos. Serviam o chamado completo, comida caseira, peixe frito e mocotó”, registra. Na verdade, não muito diferente de hoje, avalia Belmiro. O que mudou é que agora ele serve a la minuta, batata frita, mas o espírito do restaurante ainda é o mesmo – popular, para trabalhadores. Nessa época só o irmão mais velho, Manuel, era quem trabalhava com o pai. O começo de Belmiro, nascido no Brasil, vai se dar mais tarde, ainda menino, com sete anos. Ele gostava de vir para o Mercado, principalmente aos domingos, quando o pai vinha de carro – era dia de levar a família na missa, antes de ir para o Mercado. E o menino gostava de andar de carro. Assim começou sua iniciação no restaurante, adolescência a dentro, trabalhando e estudando. Fez Educação Física na UFRGS e durante 15 anos deu aulas em academia.

 

Surge o restaurante Esporte

 

Em 1970, seu pai comprou a parte do sócio e ficou sozinho no negócio. É a década em que o 55 passaria a se chamar Esporte, nome-fantasia dado pelo irmão mais velho. Em 75, a primeira reforma, consolidando o restaurante. Na década seguinte, mudanças. Em 1987, o irmão Manuel assume o então Esporte, onde fica até 1992, saindo para dedicar-se a novos negócios. Na nova década também ocorreriam grandes mudanças: em 1996, com a grande reforma do Mercado, o Esporte muda de lugar, como várias outras bancas, numa reordenação geral no Mercado. “Naquela época a parte interna do Mercado ficou seis meses sem trabalhar, muita gente quebrou porque aquilo era um canteiro de obras”. O restaurante mudou para o lado do Mercado junto ao Largo Glênio Peres. “Tive que mudar em 15 dias, e deixar um restaurante pronto para um de chão e parede de cimento”, lembra. Desses tempos mais antigos, lembra que a violência, por exemplo, era diferente da de hoje. “Antes o marginal respeitava o proprietário, matavam por coisas sérias, hoje é por qualquer banalidade”, diz. Porém, afirma que tem muitas histórias “pesadas” dessa época. E outras, até divertidas, como a dos pivetes roubando bacia de carne assada que o pai vendia no balcão do restaurante, ou quando tentaram roubar seu casaco da academia. O Mercado era “rodeado de ônibus, e isso atraia muitos batedores da certeira e muitos trombadinhas”, recorda.

 

Vida pessoal

 

Em 1992, casou-se pela primeira vez. Ano em que o pai aumentou sua participação na sociedade, ficando apenas os dois no comando do Esporte. Do casamento, nasceu o filho Henrique, em 1998. Porém, coisas da vida, a então esposa Regina acabou falecendo em 2002. Um período difícil, em que Belmiro teve que dividir-se entre cuidar do restaurante e do filho pequeno, mas que hoje diz estar superado. A esta altura já estava no comando absoluto do restaurante, que ele resolveu rebatizar de Pires (o nome jurídico), como homenagem a toda a sua família que, de uma forma ou de outra, fez parte dessa história. Como a vida continua, casou novamente com Joyce, companheira que lhe deu a filhinha Laura, hoje com oito anos. Para os filhos, pretende dar a opção de escolha, assim como o pai lhe deu. Todos os seus irmãos estudaram, tendo curso superior, e o velho Belmiro deixou-os livres para escolherem o caminho entre seguir no restaurante ou as suas profissões. Acha que o filho deverá seguir na engenharia e vê na menina tendências para o comércio. Diz que ela até já lhe sugeriu ter uma rede de fast food, ou uma churrascaria. De qualquer forma, sempre considerou importante trazê-los ao restaurante para que conhecessem a realidade do Mercado.

           

O Mercado ontem e hoje

 

            A rotina hoje é praticamente a mesma dos antigos tempos do seu pai, com pequenas mudanças, no cardápio e horário, diz. Recentemente o restaurante passou por uma reforma modernizadora, na qual a esposa Joyce teve um papel fundamental, com muitas sugestões, “mudando e quebrando paradigmas”. Isso fez com que se aproximasse mais dos seus vizinhos mercadeiros, visitando os outros restaurantes. Para ele, o Mercado é uma grande aldeia, “onde as pessoas se protegem. Só fui perceber isso de uns quatro anos para cá. Lamento não ter começado essa relação antes”. Acha que deveriam comparar o novo e o velho Mercado para efeitos de divulgação na mídia. Mostrar as diferenças e a evolução. Defende uma relação mais direta e fraternal com os clientes. “Acredito que o Mercado tem que manter nossas origens, com um atendimento mais pessoal, menos burocrático”. O Mercado, diz, está profundamente arraigado na sua vida. Este é Belmiro, um homem profundamente agradecido aos seus pais, amoroso com a esposa e filhos, que trabalha duro diariamente, mas, diferente do guerreiro pai, que não tirava férias, se permite um pouco mais de lazer e descanso para não “virar escravo do negócio”. Um homem realizado, mas que ainda persegue sonhos e novas realizações, forjado no cotidiano, atrás do balcão, vivendo o dia a dia com o seu público simples, mas sincero. Com muitas histórias e lembranças. Perguntado sobre o significado do Mercado para ele, respondeu: “Se o peixe te responder como é nadar no mar, eu te respondo como é trabalhar no Mercado”. Precisa dizer mais?

 

 

Foto: Letícia Garcia

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