Homenagem póstuma a Celso Marinho Marinho Lemos, o saudoso “Bagé”

 Homenagem Póstuma a  Celso Marinho Lemos, o saudoso “Bagé”

Mesmo sem poder fazer muito esforço, ele fez, sem saber, o seu último passeio pelo interior do Mercado, com a reportagem do Jornal do Mercado. Onde foi recordando pessoas, fatos e, principalmente, lugares onde ficavam as bancas antes da grande reforma do Mercado. Encontrou nesse breve e derradeiro passeio no tempo amigos como o Caroço, da Banca 43, entre outros. Reconstituiu o espaço das bancas que teve e onde trabalhou, feito “um louco”, como ele disse para criar os seus filhos. Celso Marinho Lemos, o conhecidíssimo Bagé, recentemente falecido, que faria aniversário em outubro, integra aqui a nossa galeria de Personagens do Mercado Público.

 

Ele chegou no Mercado em 1953, para trabalhar na famosa Padaria 3 Estrelas, onde ficou sete anos. Mas pela sua determinação não ficaria muito tempo trabalhando como empregado. Logo aprendeu a fazer pastel, trabalhando na banca do Espanhol, onde ficou muitos anos. E ali começaria a se definir seu destino: começou numa pequena banca, nos fundos do Restaurante Treviso, onde vendia muito pastel para toda a vizinhança do Mercado. Porém, através de um amigo, Jorge, que tinha uma banca na Praça XV, pode adquirir o seu primeiro bar no Mercado. O nosso saudoso personagem lembrou que quando chegou segunda-feira para trabalhar o antigo patrão lhe perguntou: “Ô Bagé, o que tu estás fazendo aqui? O Jorge comprou a banca. Tu não vais trabalhar lá?” Custando a acreditar, Bagé só pode responder: “Bah, então estou indo pra lá.” Isto em 1966. O espaço ficava próximo do Bar Naval e do Gambrinus, o bar L, que logo acabou sendo conhecido como Bar Bagé. “Pegava de manhã e só saía à noite”, contou Bagé, lembrando que o forte eram o pastel e as rosquinhas.
A partir daí ele começou a trabalhar mais ainda no velho Mercado. Aos poucos foi aumentando a banca que tinha um “movimentão”, segundo ele. “Beberagem não tinha, mas vendia cerveja. Tinha muitas famílias, moças que faziam lanches de tarde”, disse. Dali em diante o negócio deslanchou. Às cinco horas da manhã ele já estava na banca para atender o pessoal que trabalhava com os açougues que às seis horas já estavam tomando café. “A essa hora já tinha pastel, rosquinha, bolo, tudo pronto”, disse Bagé, saudoso dos velhos tempos. Mesmo com os incêndios, o movimento não parou. “Teve incêndio em todo o quarteirão, menos na minha banca que foi protegida pelos bombeiros”, relembrou.  Também na grande reforma não parou de trabalhar, embora a banca tenha mudado de lugar, passando para o segundo piso. Mesmo assim, a fiel freguesia foi atrás. Mas, como contou Bagé, lá começaram algumas dificuldades. Dívidas, problemas com o movimento. Aí resolveu mudar de ramo, indo para os secos e molhados, no andar térreo. Experiência que não deu certo.
Voltou novamente para o seu ramo inicial, mas o lugar disponibilizado pela prefeitura foi muito prejudicial ao movimento e os tempos já eram outros. Para complicar mais, Bagé adoeceu e o movimento da banca caiu. Safenado já não podia trabalhar muito, logo ficava cansado. Foi para a praia no início de 2008, parou de tomar os remédios e acabou tendo problemas de saúde. Aí parou de vez.

 

As vivências de um grande mercadeiro

Bagé dizia: “Eu gosto demais do Mercado. Se pudesse trabalhar, estava trabalhando aqui, mas não posso mais vim pra cá. Fiz muitas amizades aqui: Luis Salami, que sempre me ajudava. O Ary também, o Antonio Rigoni, o João Fernandes”. O incansável Bagé saía da banca às três horas da tarde. Mas engana-se quem pensa que ia descansar. Ao contrário, ia para fazer bolo para o dia seguinte. Como ele disse “estava sempre trabalhando, de segunda a domingo, quando aproveitava todo o dia para fazer bolos, cinco ou seis para levar na segunda-feira.” Durante o passeio lembrou que tinha “uma freguesia espetacular”, vendendo mais de 100 pratos de comida por dia. De manhã já fritava quatro ou cinco galinhas, fazia carne de panela, carne com molho, panelão de polenta. “O pessoal tomava uma taça de café e já comia um pedaço de carne. A freguesia era das bancas da volta. Brincavam de se queimar com a colherinha e a xícara quente. Era um banca divertida, tinha muita amizade”. E, certamente, o velho Bagé deixou muitos amigos no seu querido Mercado Público.

 

Bagé Filho: “Tinha uma união aqui que fazia o Mercado bombar

     O Jornal do Mercado procurou o filho de Bagé, para saber se a nossa reportagem estava com os dados corretos em relação à vida, e principalmente, à memória do seu pai. E também conferir algumas informações. Ele nasceu em 1967, um ano depois que o Bar foi aberto. Foi em  busca de uma foto, antiga onde aparecem seu pai e amigos, inclusive o garçom Zézinho, do Gambrinus, que começou com o velho Bagé com 14 anos. Lembra que o bar tinha uma única mesa, “grandona” e que dois ou três anos depois o seu pai obteve permissão para ampliar o bar. Com a autoridade de quem freqüenta o Mercado desde “piá” como ele diz, garante que antigamente havia muito mais união e solidariedade entre os mercadeiros. Deixa a subentender que o pai partiu magoado e abalado com alguns fatos e mudanças no Mercado, embora não fosse homem de reclamar. Cita, como exemplo, o tempo dos aniversários do Mercado quando haviam grandes festas, bolo de dois metros (que o seu pai cortava a facão) e a própria vida social entre os mercadeiros e trabalhadores, que era intensa, com festas, bailes e churrascadas. Acha que um dos aspectos da mudança seja o fato de agora estar surgindo uma nova geração, bem diferente dos seus pais.

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