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Bábà Diba: Doçura nos ebós (comidas) na virada do ano

Especial de Natal

 

Babalaorixá iniciado na religião em 1980, Baba Diba de Iyemonja é de tradição Jeje e é o terceiro zelador da Comunidade Terreira Ile Axé Iyemonjà Omi Olodo. Uma das lideranças mais expressivas da comunidade afro-religiosa, é um dos articuladores do movimento contra a intolerância religiosa e ativo militante da comunidade negra. Aqui ele fala sobre a relação das religiões de matriz africana e o Mercado e as características afro-religiosas de fim de ano.

A importância do Mercado e do Bará para a comunidade negra
Na sua opinião, os religiosos de matriz africana tem no Mercado um espaço de resistência negra. “Ali os negros trabalharam e criaram um depósito sagrado, como o Bará do Mercado, garantindo diariamente o sustento”, diz ele. É, também, um espaço de troca, “um grande escambo onde se compra tudo”, em função de possuir tudo o que se precisa para as liturgias religiosas. Mas, assegura, tem um “quezinho” que incomoda a comunidade: “A árvore de natal sempre fica em cima do Bará do Mercado”. Explica que os religiosos gostariam de ter um espaço claramente demarcado, com lajotas diferentes, vermelhas, com inscrição identificando o local e um cofre para as moedas que são ali depositadas. Essas moedas seriam depois revertidas para instituições de crianças ou pessoas idosas negras. O religioso informa que já existe, inclusive, um projeto do CEDRAB, nesse sentido. “O diálogo foi cortado, alguns permissionários tem resistências. Existe um racismo flagrante lá, a questão étnica é muito complicada. Mas vamos retomar, já estamos conversando com o secretário da Cultura, Sergius Gonzaga. Se acontecer vai ser uma grande vitória, porque o Bará do Mercado é um patrimônio do povo negro gaúcho”, afirma.

A virada do ano e Iemanjá regendo 2010
Em relação às festas de fim de ano, Diba informa que tratase de uma cultura diferente. “É outra teologia, uma festa cristã. A gente está mais em preparação da virada do ano, começa
uns dias antes para fazer as comidas, (ebós) para os orixás. Como estamos numa sociedade branca e capitalista a maioria das famílias ligadas aos terreiros acabam entrando nesta coisa de troca de presentes”, observa. De qualquer forma, acha que existe uma festa semelhante nesta época na África, onde também se trocam presentes. “A África foi o berço da humanidade ,então a gente pressupõe que tenha existido alguma coisa semelhante, tudo que veio depois foi recriação do que já existia lá”. Mas, se o natal é uma data sem significado especial para os afro-religiosos, a virada do ano não. Diz Diba: “A virada é importante, nos últimos dias do ano já começa a se trocar a regência dos orixás. Este ano foi muito complicado, de doenças, epidemias, mortes em massa”, explica.

Ebós, festejos no Mercado e esperanças para 2010
2010 será regido por Iemanjá, “a senhora do pensamento”. Como diz Bábà Diba, espera-se que toda esta enxurrada tenha servido para dar uma boa limpada no ambiente para que o ano seja de consolidação de saúde, econômica e de prosperidade, sem tantas perdas nas lavouras, de casas, com as enchentes. O ebó (alimentação) na virada do ano pede muita comida branca – canjica, cocada, doce de côco, arroz de leite. Quanto às comemorações no Mercado, Diba afirma que infelizmente as religiões africanas não tem uma unidade. “Cada grupo faz as suas cerimônias em separado no Mercado. A virada geralmente é na beira da água, nas praias ou no Guaíba, para se reverenciar Iemanjá”. Mas, afirma, se houvesse esta unidade a homenagem poderia ser no Mercado. Axé!

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