As negras minas

O trabalho de mulheres negras nos primórdios do Mercado Público deixou um legado na gastronomia e na religiosidade do local, além de marcos da cultura afro-brasileira na cidade.

 

No pátio central do antigo Mercado, as mulheres armavam seus tabuleiros para iniciar as vendas: mocotó e canjica, amendoim e pinhão, ervas medicinais. Eram escravas de ganho ou alforriadas, que entraram para a história com o nome de negras minas. O termo se popularizou através do cronista Aquiles Porto Alegre no o séc. XIX. Mina refere-se ao litoral africano conhecido como Costa da Mina, atuais Togo, Benin e Nigéria, onde, no período escravista, ficava a feitoria São Jorge da Mina. “Os nativos dessa região eram a maioria entre os escravizados até o século XIX”, explica Pedro Rubens Vargas, técnico de cultura da SMC e autor da dissertação “O Mercado de Porto Alegre e os caminhos invisíveis do negro: uma relação patrimonial”. Mas a expressão é estendida, diz Pedro, “como símbolo da autonomia da mulher negra por meio de seu trabalho e preservação das permanências da sua cultura”.

Eram quitandeiras, vendedoras e “agências”: parteiras, benzedeiras, leitoras de mão e entendidas no uso de ervas medicinais e de culto. “Como parte importante de sua atividade era o comércio ambulante, as negras minas se concentravam em pontos da cidade onde havia oportunidades de comércio”, resume Pedro. Elas ficavam no Largo da Quitanda, atual Praça da Alfândega, até o Mercado ser erguido. No início, não havia bancas fixas no prédio: sua estrutura abrigava um amplo pátio interno, onde tabuleiros e barracas eram montados para o comércio de variados produtos.

Parte dessas mulheres eram “ganhadeiras”, ou escravas de ganho. “Trabalhavam em troca de uma pequena parte do rendimento de seu trabalho. A maior parte de seus ganhos era destinada aos seus proprietários, visando acumular um pecúlio para a compra da alforria, além do sustento de familiares”, resume Pedro. Mas também havia as escravas alforriadas – nos dois casos, elas tinham garantida ampla circulação pelas ruas da cidade.

Foto: Christiano Júnior

As negras minas estiveram presentes no Mercado desde o período escravista até as primeiras décadas do século XX. Em 1886, quando a Intendência mandou construir 24 chalés dentro do prédio e passou a cobrar aluguéis, os trabalhadores sem condições de bancar o espaço ficaram de fora – incluindo elas, que passaram a trabalhar nas quatro entradas do Mercado, hoje marcadas pelas floras. “Com a paulatina periferização da população negra e sua saída do centro da cidade, o ofício das negras minas também foi desaparecendo”, observa Pedro. “Em especial para a etnia negra, possuem uma força simbólica extraordinária.” Além de marcarem a autonomia no trabalho das mulheres negras, levaram ao cotidiano do Mercado as religiões de matriz africana e quitutes como o mocotó.

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