As doces lembranças da Páscoa

As doces lembranças da Páscoa

Páscoa sempre esteve relacionada à infância. Momentos de magia, à espera do coelhinho e descobrir suas pegadas e ninhos pela casa. Uma tradição hoje muito diferente e sem a inocência (e fantasia) de outros tempos. Mas mesmo assim, sempre um momento de ternura, recordações, convívio com a família e, claro, de muitas doces delícias.

    Doces lembranças

     “Eu sempre tenho lembranças e adoro histórias. É tradicional: Páscoa, você reúne a família para os momentos de celebração. Aí você se reporta para a espiritualidade, aquela coisa cristã”, diz a enfermeira aposentada Neuza Maria da Silveira, 55 anos, natural de Ijuí e morando há muitos anos em Porto Alegre. Ela se refere, principalmente, ao hábito cristão de comer peixe na Páscoa. Frequentadora assídua do Mercado, Neuza também evoca os ninhos e a família reunida. “E as crianças sempre procurando os ninhos era uma coisa que me marcava bastante. Eu lembro que minha mãe segurava baldes e bacias enormes de casquinhas e aí todo mundo ajudava na limpeza das casquinhas, e depois a confecção da beleza delas, da pintura”, recorda. De família do interior, lembra dos antigos costumes: “Lá no interior, tu lavava até as casas por fora. Se a casa fosse de madeira, então, nem se fala – mais ainda”. A cidade, Ijuí, reunia aproximadamente 16 nacionalidades, informa, com muitos alemães, russos, holandeses, italianos, portugueses e afros. “Então todo mundo ali sempre preparava suas casas, e preparava os ninhos, e as crianças todas festejavam esses dias todos”. Outra coisa que ficou para sempre gravada na sua lembrança era o costume das trocas entre vizinhos – bolachinhas confeitadas, coelhinho, ovinhos e outras guloseimas.

    O importante é manter a tradição

   Diferente dos tempos antigos, hoje as famílias estão mais espalhadas,  com destinos diferentes. Mas Neuza, por exemplo, segue mantendo os rituais: “Eu mantenho a tradição mesmo que, muitas vezes, a família esteja distante, um para cá e outro para lá, e nem sempre dê para a gente se reunir. Eu tenho um filho que está em Brasília, sempre falta um. Mas, mesmo assim, com dois, cinco, dez, ou vinte, eu sempre faço aquele momento de comemoração”.

    Coelhinho de Páscoa

    Outra que tem doces recordações da Páscoa é Neusa Maria Nicolaiewsky, 66 anos, artesã e dona de casa. “Quando eu era criança, nós morávamos na Glória, e meu pai era jornalista e escritor, Antonio Barata, muito amigo do Erico Verissimo. E tinha um médico em Porto Alegre, famoso, Dr. Atalaya de Moura, que era padrinho dos meus irmãos e junto com a esposa, na Páscoa, levavam cestos gigantescos de presente”, recorda. Ela, por “tabelinha”, diz, ganhava, mesmo não sendo afilhada. Os cestos eram colocados no jardim. “Aquilo ficou em mim, e eu preservo, tanto que fui aprender a fazer chocolate”, conta. A tradição continua com os netos e até os filhos, que mesmo adultos ainda ganham o “coelhinho”. E para ela, a Páscoa não pode ter presente que não seja chocolate, guloseimas.

    Uma páscoa em familia

    Já para Zilda de Moraes Martins, 69, nutricionista a Páscoa é uma data significativa, que “sempre nos reporta para determinados pratos, para alguma cerimônia, o coelhinho, crianças”. Com seis filhos e dois netos, diz que sempre procura agradar, principalmente aos netinhos para que gostem e se acostumem com as tradições pascoalinas. “A Páscoa me reporta muito para meus pais. A mãe fazia aqueles ovos caseiros, pintava, colocava amendoim. Hoje a gente coloca nozes e outros ingredientes nos ovinhos. Mas a Páscoa é isso: é ovo. O coelhinho, também, que traz esse simbolismo da Páscoa”, encerra.

    Pouco chocolate

    Mas, assim como muitos tem apenas boas e doces recordações, outros  não. É o caso de Flávio Rosa Viegas, 61, aposentado. Diz ele: “Não tenho lembranças boas da Páscoa porque meu tempo de criança foi muito pobre. Passava no Mercado e olhava ovos, olhava isso, olhava aquilo, e a minha mãe dizia: “um dia a gente vai comprar, calma”. Sei lá, e eu cresci dizendo “um dia eu vou crescer e vou comprar o que eu quero no Mercado Público”. E eu acho que eu faço isso por dois motivos: um que eu gosto de comprar, e outro por dizer ‘”hoje eu posso comprar”. Essa é minha lembrança da Páscoa, muito triste, não boa”, resume.

Fotos: Letícia Garcia

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