Arnildo Marqui “O Mercado é uma extensão da casa da gente”

Arnildo Marqui

“O Mercado é uma extensão da casa da gente”

 

Ele começou quase que por acaso no Mercado Público, em meados da década de 60. Mas o acaso, na verdade, se revelou um destino. Como ele mesmo diz, quem entra e gosta, nunca mais sai. É o seu próprio caso: aposentado, poderia já estar em casa. Mas pelo amor, pela paixão e pela convivência com o Mercado e décadas de balcão, período em que fez clientes que se transformaram em amigos, Arnildo Marqui, 60 anos, continua a trabalhar. Veja aqui a sua bonita história.

 

Ele veio para o Mercado numa espécie de trabalho temporário, em 1965, para trabalhar na época de fim de ano. Garoto ainda, vindo de Santa Cruz, com escala em Cachoeirinha. Foi num oito de dezembro, que naquela época era feriado, quando veio acompanhar um tio no Mercado e um amigo, perguntou se não lhe interessava ocupar uma vaga no Mercado naquele fim de ano. Aceitou na hora e veio trabalhar na banca 21 e “foi ficando”, como ele diz. Era a banca de Luís Salami, um dos grandes personagens do Mercado, que ficava no miolo central do Mercado.  Ele diz que naquela época se trabalhava muito mais do que hoje. “O horário era das seis da manhã às oito da noite  e também se trabalhava nos domingos”, diz ele, que só parou de trabalhar no tradicional dia de descanso quando foi para a Banca 43, onde está até hoje. Outra diferença daqueles tempos é que tudo não terminava no fim do expediente. Aí começava uma espécie de novo turno, com as entregas de ranchos, porque naquela época não tinha supermercado e, muito menos, telentrega. “Tinha pouquíssimos estabelecimentos, mercadinhos. Antes o abastecimento era só no Mercado. Depois é que apareceu o Real e o Dosul (primeiros supermercados de Porto Alegre –NR). E os pacotes eram generosos, iam fazendo e botando dentro daqueles grandes sacos de arroz ou de açúcar, costurados”, lembra. Um trabalho tão duro quanto a capina na colônia, carregando enlatados, charque, batata, arroz, tudo vendido ao estilo dos velhos armazéns, pesado na hora.

 

Quando os clientes falavam em alemão

      Depois foi para a Banca 31, que hoje é a Banca do Holandês. Ele entrou bem na transição, quando saíram os holandeses e assumiram os novos sócios, Wolfemböttel e Bertolini. Era uma banca ainda mais antiga que a 43, trabalhando com os mesmos importados;  presunto cru, cozido, linhas de queijos –  mercadorias que chegavam em barril de 150 kg. “A mais antiga mesmo é a do Holandês, acho que começou em 1918, 1919”, informa. Na banca ele trabalhava direto no balcão e lembra que grande parte da mercadoria era entregue no porto. Mas a maior parte do abastecimento vinha dos grandes atacadistas que dominavam toda a área onde hoje fica o túnel da Conceição, próxima da Igreja da Conceição e a Beneficência Portuguesa. Ali ficavam a Sogenalda, Lacesa, Marabá, Wischeral, Kunzler, os irmãos Cerutti. “O viaduto que tirou o pessoal de lá. Tudo que vinha de fora passava ali na Conceição”, recorda. As rotinas das bancas eram bastante semelhantes, até porque tinham muitos fregueses em comum, conhecidos, que buscavam as especiarias. O principal trabalho inicial era fatiar frios, trabalho simples, mas ao mesmo tempo difícil de atender os fregueses – cada um tem a sua preferência. E a maioria dos clientes naquela época só falava em alemão e até mesmo em holandês. “A gente tinha que ir quebrando o galho.  Até hoje tem alguns fregueses que querem falar em alemão com seu Oscar (um dos sócios da 43 – NR)”, diz ele. Aos poucos, lá pela década de 60, esse costume europeu, dos frios, foi sendo incorporado pelos brasileiros.

 

Clientes ilustres

      Marqui tem muitas lembranças do Mercado. Do incêndio da Casa das Massas, quando foram destruídas todas as máquinas que nunca puderam ser recuperadas. Da ameaça do ex-prefeito Thompson Flores de demolir o Mercado e do surgimento da Associação do Mercado para resistir à ameaça. Ele lembra que o seu patrão, Bortolini era um dos que liderava a Associação. Conta também sobre uma cliente especial, esposa de Breno Caldas, o todo poderoso diretor da Companhia Jornalística Caldas Jr, que era muito amiga de Lucy Geisel, esposa do então general Geisel, que teria tido participação decisiva para evitar a demolição do Mercado. Na 43 começou mais ou menos como no Mercado em abril de 1974. Avisado que lá tinha uma vaga, foi procurar o seu Oscar, que lhe disse: “A hora que quiser vim, é só chegar”. Chegou e lá está até hoje. Encontrou uma banca com mais sortimento, como queijos, pães alemães, café palheto, frios e enlatados mais diversificados. Na época havia só um balcãozinho de pedra, com uma clientela, a maioria “de origem”, atraída pela qualidade. E clientes famosos, homens públicos como ex-senadores Nestor Jost e Paulo Brossard, Luiz Armando Dariano e Fernando Carvalho, os ex-governadores Amaral de Souza, Jair Soares, dirigentes gremistas e colorados, como Oly Facchin, Renato Souza, Rudi Armin Petry, Mauricio Rosemblat e famílias ilustres, durante gerações.

 

Lembranças do velho Mercado

      Para ele o Mercado de hoje não tem mais o burburinho que tinha antigamente. Lembra que para isso também ajudava o “mercado velho”, com peixe e muita verdura, junto às docas, que foi demolido. “Todo mundo se abastecia. Faziam entrega de carroça, quando abria e fechava ficava gente no portão, era uma correria o dia todo. Por isto, era impossível estudar. Quanto à relação de patrões e empregados, ele diz que não tinha muita regalia. “Era tudo mais sério, não tinha nem tempo, nem era permitido para fazer brincadeira entre os colegas. E com os patrões tinha uma certa diferença”. E um dos patrões que mais marcaram Marqui, foi Manoel Martins, dono da Banca 40, a quem sempre admirou. “Tudo que perguntava, ele tinha resposta e muita paciência. Tinha muito para ensinar – já era abastado, poderia ser orgulhoso, como a grande maioria. Era poderoso na época, mas pessoa simples, simples, simples.” Com modéstia e humildade ele diz que estudou até o quarto ano escolar e tudo o sabe e aprendeu foi no Mercado. “Educação a gente trás de casa”, filosofa.

 

Gratidão ao Mercado

Ele lembra bem do casamento, em maio de 1975. Falou para o patrão que na sexta-feira ia sair um pouquinho mais cedo, porque tinha ensaio do casamento na igreja. Aí o patrão disse: “Só me aparece aqui na quinta-feira que vem. Foi o primeiro que ele me deu uma regalia”, diz, lembrando que naquela época todos casavam ou nos fins de semana ou nos feriados. O resultado do casamento: uma esposa que sempre o incentivou, embora ache que ele trabalhe demais, dois filhos de 34 e 30 anos e uma netinha. Ao Mercado, devota muita gratidão: “Quem trabalha aqui e gosta de verdade, do relacionamento com o público, não sai mais”, diz ele, um aposentado que trabalha pela convivência das pessoas e pelo orgulho de ser funcionário do Mercado. A sua rotina é simples, chega de manhã, faz serviços auxiliares na 43 e logo que se livra deles, vai para o balcão que é onde gosta de estar. Ali tem fregueses de muitos anos, como dona Cotinha, Maria Brochado da Rocha, hoje com 91 anos, que faz questão de ser atendida por ele. Com tantos anos de Mercado, fez grandes amizades. Assim como Manoel Martins, reverencia também Luis Salami, um dos primeiros patrões e amigos, com quem, afirma, muito aprendeu. Para os novos recomenda muita responsabilidade e convicção de querer trabalhar no Mercado. “Ele representa o meu sustento, o meu lazer e tudo o que eu tenho foi o Mercado que me deu”, finaliza o eterno guerreiro.

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