Ary Ribeiro: “O Mercado é a minha segunda casa”

Italiano por parte de mãe e pai uruguaio, Ary chegou no Mercado em 1931, levado pela mãe, com 11 anos, direto para a Banca 44, de Dante Mabilia, começou lavando os copos, ficando três anos, lá se vendia muito sorvete e salada de fruta. Passou pela Banca 45 da Dona Raquel Reginato, esposa do Eduardo Reginato, durante oito anos. Em 1935 foi trabalhar com o português Manoel Maria Martins, grande importador de frutas, da famosa banca 40. Onde ficou durante 36 anos e meio. Depois de apenas um mês aposentado, foi chamado por Luis Salami para trabalhar em seu açougue. Em seguida Salami ampliou o seu negócio, ocupando o espaço de cinco bancas, “era um tempo de muito trabalho”.

Começava a trabalhar às 5 horas da manhã e ia até às 22hs. O Mercado abastecia a cidade, atendia a vários restaurantes da região: Chalé da Praça XV, Dona Maria, Restaurante da Azenha, Gambrinus, Naval e até o Supermercado Real. Quando a carne começou a faltar, o Luis Salami comprou um caminhão, “Boi­adeiro”, para buscar a carne no interior do estado – assim ele eram uns dos poucos que ofereciam carne, completa Ary. Recorda com saudade da época em que o Mercado era uma família “quando a gente comemorava alguma coisa, todos iam”. Foi nessa mesma família que ele constitui a sua, dona Haidee Rocha Ribeiro trabalhou na banca do Vitório Mabilia, antiga banca 5. E entre um olhar e outro, ou pelo jeito amigável do rapaz, ela acabou sendo fisgada.
Na “família” Mercado Ary tinha muitos amigos, Luis Salami e Delmiro Salami, eram alguns deles, com quem saía para jogar bolão no Grêmio, outro era Ernesto Vial, sempre pron­to pa­ra tomar uma cerveja ou simplesmente dar u­ma volta. Lembra também da família Mancuso, proprietários de uma grande padaria, onde comeu muita empada de galinha e camarão “ficava esperando na fila pra comer, era o meu café da manhã”.

Em muitas noi­tes, lembra de dormir na casa de seus patrões, para no dia seguinte retornar ao o Mercado, pois pegava o primeiro bonde às três e meia da manhã, chamado “Bonde Escola”. Era quase nesse mesmo horário que os peixeiros da época esperavam o abrir do portão. Com baldes de peixes nas mãos, e ao ouvir o sino tocar, aden­travam ao Mercado. Ao entrar iam logo demarcando o “seu” espaço nas mesas de concreto. “Eles entravam e atiravam pedras em cima das mesas para segurar o seu lugar, disputavam pelo melhor lugar”. Nove horas no relógio e o sino voltava a tocar, era a ordem para que as vendas fossem suspensas. Cortava-se então o rabo do pescado. “Na época não havia gelo para conservar os peixes, depois desse horário a vigilância não permitia mais a venda”.
Já entre sorrisos, ele conta que quando podia, na hora do almoço, depois que fechavam as “bancas” das peixarias. Ele e o filho do Ildo Mancuso, mais o Ernesto, “filho do Cal­vi­nho”, faziam times de ping-pong. Jogavam em cima das mesas, que na época eram feitas de cimento. “Era certinho. U­ma par­te de lá e outra de cá, com um murinho no meio, uma me­sa perfeita! Uma vez foi feito até um campeonato de ping-pong e o Mercado saiu vencedor”.
Já são quase duas horas de conversa, quando a fome começa a bater. Ele lembra do sabor do sorvete “era muito bom, cada sabor tinha seu detalhe. Adorava misturar. Eu estava sempre inventando algo novo”.

Lembra das origens da Bomba Royal, inspirada na Força Aérea inglesa, nos tempos da II Guerra Mundial. “Antigamente eram tradicionais a salada de frutas, a salada tropical e o sorvete, vindo da Itália”.
O soverte era enrolado em papel de seda, para manter a temperatura. “Sempre, antes do sorvete era servido um copo de água bem gelada”. O primeiro congelador foi comprado pelo seu Martins, dono da Banca 40, recorda Ary. Lembra ainda do “seu” Mota, um gringo de bem com a vida, que cantava uma ópera por dia. “todos os dias, lá estava ele, com aquele vo­zerão”, era o folião número um do carnaval de Porto Alegre. Já o Antoninho, do Gambrinus, estava sempre com um charutinho na boca, não tirava por nada, fumava de um lado e soltava a fumaça por outro. Quantas conversas tivemos, lembra ao olhar o restaurante.

Cármino Mazaferrro, da Banca 48, é outro “personagem” que vem aos devaneios de Ary, “quando o colorado ganhava, ele soltava vários foguetes, bem ali no meio do Mercado” para completar a festa chamava todo o time para a sua banca, onde festejavam a vitória. Da famosa enchente de 41, lembra quando a água começou a sair pelos bueiros, chegando a uma altura de dois metros. Na manhã seguinte, quando começou a chuva, a água já estava pelos joelhos. Foram 15 dias com a água a dois metros de altura e o Mercado fechado.

Do trabalho, do dia-a-dia e das brincadeiras de rapaz ficou as amizades sinceras, “se era amigo, era amigo mesmo”. Basta circular pelo Mercado por alguns instantes ao lado deste simpático senhor, para perceber o quanto é bem quisto pelos permissionários. Frases como “O seu Ary é a história viva do Mercado. Temos saudade daquele tempo Ary.” Surgem a todo momento. “Hoje eles me conhecem, mas do meu tempo de guri, não tem mais ninguém. Naquela época estávamos sempre nos ajudando, se alguém tinha um problema, todos ajudavam”, conclui. Ary saiu do Mercado com 89 anos, depois de 78 anos de atividades. E entre um sorriso acanhado e feliz agradece e diz que ainda tem muitas histórias para contar.

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