Arcioli Paulo Alves, o Paulinho: “O Mercado precisa ser mantido como ele é”

Nascido em 14 de maio de 1963, natural de Soledade, casado e com uma filha de 22 anos, ele chegou a Porto Alegre no ano de 1987. Mas não veio direto para o Mercado Público: ficou trabalhando durante oito anos como garçom em um restaurante da rodoviária. Foi lá que se deu a aproximação com o Mercado, através de um cliente assíduo, que passava para tomar a sua cervejinha no fim de tarde.

Foto: Letícia Garcia

O cliente, Toninho (Antonio Sandler), nascido em Arroio dos Ratos, trabalhava no Gambrinus, casa que na época era comandada pelo falecido Antônio Melo – também apelidado de Toninho. Numa dessas cervejas vespertinas, o cliente-amigo avisou que o restaurante estava precisando de um garçom. “Lá é bom, e tu vais ganhar melhor. O público é diferente e logo estarás adaptado.” Então Arcioli, mais conhecido no Mercado como Paulinho, foi falar com seu futuro patrão, Toninho. Houve acerto imediato. “Fiquei tão acostumado que, depois de 22 anos, considero o Mercado a minha casa. Hoje fico pensando: por que já não vim direto para cá? Eu poderia estar a mais tempo aqui, foram oito anos perdidos.” Nessas duas décadas, diz, passaram por ele muitos clientes. “Quando eu entrei, vinham em grupos de cinco a oito deles. Uma clientela formada por advogados, gerentes, bancários, gente do ICM (Imposto de Circulação de Mercadorias, da Secretaria da Fazenda) e outros. Quando chegavam, a gente não precisava trazer cardápio, nem perguntar o que eles queriam. A gente já sabia até a quantidade de bolinhos e o que iam beber – chope, uísque, cuba.” Mas como ele mesmo constata, tudo isso foi mudando. Muitos daqueles fregueses morreram, outros se aposentaram ou foram embora para outros lugares. “Hoje a gente não tem mais esse tipo de cliente. As coisas passam, mas ficaram boas lembranças.”

 

Requisitos para ser um bom garçom

Depois de tanto anos, o que é preciso para ser um bom garçom? Para ele, o principal é ter simpatia e atender todos os clientes de forma igual, por mais humilde que seja algum deles. “Não pode diferenciar ninguém, tem que saber como lidar com o cliente. A gente nunca sabe quem está atendendo, se é um doutor, um pedreiro, um cobrador de ônibus – todo mundo é digno de sentar e ser bem atendido.” Assim, ele recomenda: é preciso ter carisma, trabalhar sorrindo, mesmo que se tenha um problema em casa. “Para ser um bom garçom, tem que saber diferenciar as coisas, trabalhar sério, não enganar o cliente, explicar os pratos certinho. Depois ele vai te agradecer.” São seis garçons no Gambrinus, que se revezam no atendimento à movimentada clientela. Uma perda recente abalou a equipe, principalmente Paulinho: o falecimento de Jorge Alberto Bueno de Oliveira, o “Vovô”, o mais antigo garçom do Mercado e da própria cidade. “Foi uma grande perda, enorme. Eu trabalhei 12 anos com ele, lado a lado, sempre juntos. Era muito boa a relação da gente. Ele tinha mais de 50 anos de Mercado.” Quanto ao Gambrinus, acredita que o importante é se diferenciar. Ele destaca o que falava o sempre lembrado Toninho, seu antigo patrão: “Ele dizia que o Gambrinus não é o maior, mas pode ser o melhor sempre. E a gente continua fazendo o trabalho do jeito que ele gostava. O João (Alberto Cruz de Melo, atual proprietário) está tocando como era antes.”

 

A relação com os clientes

Para ele, o Mercado Público é diferenciado, e seus clientes geralmente mostram uma grande simplicidade – assim como os do Gambrinus. “Temos alguns de São Paulo e do Rio que dizem: ‘se eu não passar no Mercado e no Gambrinus, eu não vim a Porto Alegre’. É muito gratificante esta convivência com eles. Tem uns que a gente não vê há cinco anos e eles chegam aqui e lembram o nome da gente. ‘Tu me atendeu naquela mesa, lembra?’ Isso é muito bom.” O início? Diz que não teve nenhum problema quando entrou para trabalhar no restaurante, com colegas, patrão ou clientela. Mas lembra que a primeira semana foi um pouco difícil. “Tinha os clientes da mesa 1, que gostavam de fazer brincadeiras,  algumas que continuam até hoje.” Ele também ressalta que muitos clientes continuam fiéis, alguns com mesa praticamente cativa. Lembra que o restaurante era bem diferente quando ele chegou, e antes da reforma: tinha um pequeno salão na frente e outro nos fundos, com um galinheiro muito próximo. Não raro, os pintinhos se soltavam e adentravam no restaurante. “Acho que as pessoas gostam do Mercado por essas coisas, por ele ser diferente.” Hoje, ele considera sua rotina tranquila: chega às 10h e fica até as 19h. Se precisar, também vai de manhã cedo abrir a casa. “Faço o que for preciso. Gosto do que faço e qualquer profissional tem que gostar daquilo que ele faz. Se não gostar, não vai sair bem feito.”

 

Lembranças do Mercado

Paulinho tem saudades do Mercado antigo. Diz que a sensação é de que ele parecia ser mais movimentado do que hoje, porque as bancas eram mais próximas umas das outras. Gosta dos cheiros que ele tem, do barulho dos caminhões na Semana Santa e de toda aquela agitação. “O Mercado tem que continuar como ele é”, diz, enquanto lamenta os boatos de que querem mudar o lugar dos caminhões para frente do prédio, e as possíveis consequências disso. Cita muitos conhecidos no Mercado, principalmente os mais antigos. Das lembranças mais fortes, lembra do movimento do 1º Fórum Social Mundial, quando recebeu muitos clientes de vários países – e, principalmente, da dificuldade de se comunicar com eles, já que a casa não possuía cardápio em inglês. “Foi tudo só na mímica, mas saíram satisfeitos, me abraçaram. Era muito bom nessa época. O Antônio atendia nas mesas com a gente, recolhia até as mesas para nós. Não era um patrão, era um irmão. Pena, é um tempo que não volta mais.” Para ele, é importante o Mercado ter se renovado, mas considera ainda mais importante que ele mantenha as suas características. “O Mercado é a minha vida, e aqui é uma família”, conclui.

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