Apenas há noventa anos

Crônica

 

Apenas há noventa anos

*Sérgio da Costa Franco

Uma varredura pessoal na história de Porto Alegre me levou ao convívio com o ano de 1921 e a um almanaque local, rico de informações.

Considerando bem as coisas, noventa anos é pouco tempo. Os nonagenários andam aí fortes e bem dispostos, cada vez mais numerosos. E é quase certo que estarão dando palpites a respeito desta minha crônica, para acrescentar dados e eventuais correções.

Algumas coisas estavam se despedindo, como uns “fabricantes de carruagens e arreios”, Luiz Rothfuchs & Irmão, que ainda se anunciavam em página inteira, com a imagem de um carro de tração animal, apontando-o como “novo modelo apropriado para campanha, com acomodações para seis pessoas e grade para bagagens”. No mesmo ano, o automóvel estava avançando irresistivelmente, e o “Indicador” já esclarecia que “o ponto de parada dos autos de aluguel é na Praça 15 de Novembro”, ao preço de 10 milreis por hora e 5 milreis por corrida. E embora ameaçado pelo alto preço da gasolina, o “auto” ganhava espaços, e até já surgira, no último verão, uma linha de ônibus para Tramandaí e Cidreira. Verdade é que se tratava de um caminhãozinho adaptado, e que levou 12 passageiros, num tempo recorde de 8 horas e ¼…

Outro ente que então florescia, mas que entraria em processo de sumiço era a navegação fluvial. A Companhia de Navegação Arnt ainda anunciava “vapores” até para General Osório, hoje Muçum, atendia a todos os portos do Taquari. Noventa anos depois, nada resta de sua antiga pujança. E não se consegue um barco sequer para um pulo ali a Guaíba.

Entre os ramos de negócio que murcharam, quando não desapareceram completamente nestes noventa anos, contam-se as alfaiatarias, então prósperas e numerosas, e hoje arrasadas pelas lojas de confecções. E o que dizer das chapeleiras, incumbidas, na época, de adornar com pomposos enfeites as cabeças das damas? “Ao Chapéu Elegante”, “Petit Paris”, “Paris Modes”, todas na Rua dos Andradas, não têm hoje, felizmente, uma única sucessora em matéria de chapéus para senhoras.

Assim como agora entramos decididamente na era da informática, comprando computadores e micros num frenesi, e despachamos as máquinas de escrever para os museus, há noventa anos passados a “coqueluche” eram as Remingtons anunciadas pela Casa Coates, que também apregoava máquinas de calcular e registradoras “National”. De sua parte, a Livraria do Globo entrava na concorrência com as Royal. Umas e outras foram excelentes instrumentos de trabalho, que serviram durante decênios e resistiram à aposentadoria.

Mas o que mais chama a atenção naquela Porto Alegre de 1921 é a ausência de serviços que hoje estão arraigados em nosso cotidiano. A publicidade quase não cogitava de restaurantes, e muito menos de churrascarias ou de pizzarias. Essas modernas instituições urbanas, que hoje até freqüentam nossos lares com a tele-entrega, não existiam há noventa anos. Pelo jeito, só se cozinhava em casa e com as receitas tradicionais das avós.

 *É um historiador, advogado e jornalista brasileiro.

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