António Fernandes: “O Mercado é parte da minha vida”

Ele faz questão de frisar que o seu nome é com acento agudo, “senão, não é português”.  E que tem duas datas de nascimento: uma oficial, 21 de maio de 1936, e outra dia nove do mesmo mês e ano. Durante a conversa, falou mais de música e da sua vida do que do Mercado, propriamente. Mas reconhece que boa parte de sua existência passou nele – onde pretende encerrar sua carreira. Casado há “precisamente 53 anos”, tem um filho e paixão pela música. Trabalha na Padaria Copacabana, para onde veio para ficar por pouco tempo e está há 27 anos.

Foto: Leticia Garcia

Até a sua chegada ao Mercado, a história é um pouco longa, ele logo avisa. Músico autodidata, aos 15 anos foi para uma filarmônica, onde tocava sax soprano. Como ele se sobressaía dos demais, mesmo com pouca idade, acabou sendo perseguido pelo maestro. Criou, então, um dueto com um gaitista, que mais tarde seria decisivo para a sua vinda para o Brasil. O novo grupo acabou criando uma rivalidade com a orquestra, mas nesse período o jovem António também trabalhou numa ferragem como acabador ferrageiro – um profissional encarregado da montagem de segredos de fechaduras. Um pouco depois, o gaitista veio para o Brasil e incentivou o parceiro de música a fazer o mesmo. “Vim direto para a cidade de Rio Grande, onde estava sendo inaugurado o auditório da Rádio Minuano. Foi anunciado que eu estava vindo especialmente para isso, mas eu vim mesmo foi para trabalhar numa padaria, onde meu amigo já trabalhava como repartidor”, registra. Já com espírito de negociante, acabou se tornando sócio da padaria – que, casualmente ficava do lado da casa da avó da sua futura esposa. “Eu tenho uma neta muito bonita, que mora em Porto Alegre, e está vindo para fazer uma visita”, anunciou a avó.

 

Rumo à capital

Não era “corujice” de vó: “Era bonita mesmo, uma boneca”, confirma António. Dali em diante, a vinda para Porto Alegre era só uma questão de tempo. O sogro, que trabalhava no porto, passou a incentivar o jovem padeiro a vir para a capital – o que aconteceu no longínquo 1957, depois de vender a sua parte na padaria para o outro sócio. Veio morar no bairro Menino Deus, onde comprou um armazém. Em Porto Alegre, como um líder natural, uma característica sua, fundou um grupo musical e tornou-se um dos diretores do S.C. Internacional. Mas e o Mercado, como entra, afinal, em sua vida? Bem, o nosso inquieto personagem trabalhava, então, no supermercado Costa do Sol, na zona sul, em 1978, onde já entrou como gerente. E com metas de fazer o estabelecimento crescer. O patrão, porém, que era o cantor do Boinas Brancas, grupo de António, não estava muito interessado nisso. E António resolveu “pedir o boné”, porque ambicionava crescer mais e tinha medo de ter sua imagem como gerente arranhada pela pouca expressão do supermercado. “Então vou embora, me dispensa”, anunciou ao patrão. Depois disso, fez contato com os donos da Padaria Copacabana, do Mercado Público. Sua esposa, porém, já havia conversado com eles, Diamantino Fernandes e Ângelo Bessa. Portugueses, conviviam nas festas e bailes da Casa de Portugal, onde António também tocava. Assim, quando ele chegou em casa anunciando que trabalharia na Copacabana, a esposa reagiu: “Que novidade estás me contando: fui eu que consegui, fui falar com eles!”. E, assim, no início de outubro de 1987, António passava a fazer parte da grande família Mercado.

 

Chegando, finalmente, na Copacabana

Quando chegou para trabalhar, perguntou qual era a sua função. “Chega e te impõe”, disseram os patrões. Exigente, detalhista, mas sem ser agressivo, logo se adaptou com os funcionários. Fazia de tudo: comprava, calculava, pegava junto com os outros, abria a casa, inclusive aos domingos à noite. A rotina daqueles tempos e de hoje pouco mudou: chega às quatro da manhã e sai às duas da tarde. Hoje, porém, se reveza com um colega, a cada semana. Também procurou se qualificar, fazendo cursos de panificação, criando receitas próprias, pois acredita que, “para a pessoa poder orientar alguém, tem que ter conhecimento”. Em relação ao público de antes e o de hoje, diz que o atual é muito mais exigente. “Chega a ser agressivo, quer ser atendido, principalmente na época de fim de ano”, compara. Com 27 anos de casa, certamente ele pôde constatar muitas mudanças – desde os tempos em que a Copacabana ficava na esquina da Praça Parobé com o Largo Glênio Peres. “A mudança (na reforma dos anos 90) foi negativa para nós. Antes aqui ficavam os ônibus, as frutas, era mais movimentado”, lembra. A relação com o pessoal do Mercado? Ele diz que pode ser “um papagaio” falando com as pessoas, mas primeiro tem que pegar intimidade – intimidade essa só possível se ele tivesse mais tempo de se comunicar. “Eu me considero uma pessoa responsável, chego e já vou trabalhar. Todo funcionário que trabalhar numa loja como se fosse sua, vai crescer na vida”, resume.

 

Dedicação absoluta ao trabalho

Essa sua dedicação exclusiva ao trabalho, de entrar, trabalhar e sair, faz com que ele quase não tenha lembranças ou vivências do Mercado em geral. Mas diz que tem saudades dos tempos em que a padaria era na esquina e que antes o Mercado era mais aconchegante. Cita clientes fiéis dessa época, que seguem até hoje, como uma freguesa que mora em Ipanema e que vinha até duas vezes por semana na padaria. “É a maior divulgadora da Copacabana na zona sul. Agora está um pouco adoentada, manda um motoboy buscar o pão. Tem muita gente, nós já mandamos cuca, torta, doces para o Espírito Santo, para Brasília, para diversos estados do norte”. Dos grandes acontecimentos, lembra do último incêndio que, porém, não atingiu a padaria, embora ela tivesse que ficar fechada, perdendo clientes. Aos 78 anos, depois de quase três décadas na Copacabana, espera encerrar sua carreira nela. E no Mercado, que, para ele, representa parte da sua existência. Uma boa parte, aliás.

 

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