Antonio Dias de Melo, um batalhador do Mercado

Ele tem a sua vida diretamente ligada ao Mercado, ao qual dedicou boa parte do seu tempo. Atuou, juntamente com os seus colegas de Mercado em muitos momentos conturbados deste patrimônio de Porto Alegre, contra a sua tentativa de demolição, na reforma, na fundação da Associação dos Permissionários e no Funmercado. À frente do Gambrinus, Antônio Dias de Mello é um dos grandes personagens do Mercado.

O aniversário de sete anos foi inesquecível: foi num navio, vindo de Portugal, cruzando os mares, para as terras d’além mar, o Brasil. A viagem que trouxe o menino da cidade de Aveiro, “a Veneza portuguesa”, durou um mês. O pai veio como repartidor de pão, em 1951, quando as padarias por aqui eram poucas. Fazia a distribuição do pão, de porta em porta, geralmente por uma carroça puxada por tração animal. O pai estabeleceu comércio na rua Otávio Rocha, onde Antônio, conhecido como Antoninho, começou a vivenciar a vida de comércio vendo-o trabalhar. “Não precisou pedir para ajudar, por iniciativa minha já comecei a ajudar, mas não deixei de estudar”, diz. Com 20 anos já estava terminando contabilidade, quando seu pai fez o primeiro grande questionamento da sua vida. Queria saber se o seu filho desejava continuar com os estudos ou assumir um negócio que ele estava começando com um sócio. Antoninho resolveu assumir o comércio, com o apoio do pai, que também era dono do Café Municipal ao lado de onde hoje é a Pastelaria Nova Vida.

 

Tempos de Boemia
Ele conta que o Treviso ficou muito famoso porque não tinha porta, como o Graxaim, que funcionava 24 horas. Era alí no Treviso que Francisco Alves, passava horas de boemia quando estava em Porto Alegre, ganhando até uma cadeira cativa. Cadeira esta ganha do seu amigo Tércio Kauer. E o surgimento do Gambrinus? Segundo consta foi fundado por volta de 1989 por um grupo de alemães. Eles solicitaram à Intendência um local para confraternizar. “O Mercado foi um prédio muito grande para a sua época. Dizem até que era para ser construído em Buenos Aires”. Nele funcionava uma série de atividades, das mais diversas, como funilaria, atacados, hotéis… dá para imaginar? Segundo o raciocínio de Antoninho, deve ter sobrado algum canto, que acabou sendo cedido para as reuniões dos intrépidos alemães, grandes tomadores de chope. O Gambrinus, assim, se iniciou, segundo Antoninho, de um grupo de amigos, uma espécie de confraria. Assim ficou até os anos 30, quando alguém desses encontros, tornou a casa mais comercial. Antoninho lembra que na primeira reportagem que saiu sobre o Gambrinus, falava-se nesses alemães, que ao longo do tempo acabaram trazendo dificuldades para a casa. Pela idade estavam deixando de ser consumidores, mas continuavam exigentes e tinham restrições com alguns frequentadores, negros, principalmente. O bar estava indo à falência, quando então Antoninho resolve escancarar as portas para vender bebidas, chope. “Em dia de verão vendia 300 litros por dia, 10 caixas de cachaça por semana”, conta. Mas ele, contudo, não gostava. Achava o ambiente pesado, sempre tinha aborrecimentos.

Nos anos 70 o prefeito era Telmo Thompson Flores, afeito à obra e construção de túneis. E queria demolir o Mercado. Havia um projeto para a construção de uma certa “esplanada central” no lugar do Mercado, um prédio de lojas e com espaço embaixo para venda dos permissionários. Iria liberar a área para o trânsito, um dos argumentos é que o Mercado atrapalhava a ligação da avenida Siqueira Campos com a Julio de Castilhos. A verdade também é que o Mercado estava muito abandonado, o que reforçava a idéia da sua demolição. E, então, Antonio Mello, ainda jovem, participou do movimento para recuperá-lo, um grupo de influentes permissionários uniram-se para defender o Mercado. Nascia então, em 1967, a Associação dos Permissionários, assinam nomes como Manuel Almeida Andrade (Presidente), Manuel Maria Martins, A. Toniolo, Dante Mabília, Dalcy Salami, Luiz Salami, Irmãos Rossato, Reni João Groff, Pozzebon Irmão Ltda, De Paoli Cia Ltda entre outros.

 

Batalhas
“Achamos por bem defender o Mercado. Um grupo foi ao prefeito com a proposta de pintar, arrumar e fazer o que fosse preciso para recuperá-lo. E em três anos, então, o Mercado seria entregue para o Prefeito, que aceitou a proposta.” O grupo levantou recursos e em pouco tempo o Mercado já tinha outra cara. Daí em diante começou a mobilização pela defesa e permanência no Mercado, com um apoio expressivo da imprensa, especialmente do grupo Caldas Jr. A luta deu resultados e o Mercado não veio abaixo. Antoninho também suspeita que, na verdade, o general Médici tenha dado uma ordem expressa de não destruí-lo. Anos mais tarde viria outro momento importante, a reforma do Mercado, a qual Antonio acha que foi um projeto arrojado de restauração, sem mutilar o grande patrimônio de Porto Alegre.

Hoje o seu grande orgulho e olhar o passado e perceber que de um pequeno balcão com três ou quatro mesas, construiu sua vida, formou uma família, conquistou amigos e tornou o Gambrinus um dos melhores restaurantes de Porto Alegre.

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