Antonio Augusto Fagundes: “Mercado Público, um ponto luminoso dentro da noite de Porto Alegre”

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Antonio Augusto Fagundes: “Mercado Público, um ponto luminoso dentro da to noite de Porto Alegre”

Lembranças, reminiscências, evocações líricas e sentimentais acorreram à memória de Antônio Augusto Fagundes, um dos mais importantes nomes do tradicionalismo gaúcho. “Nico” falou sobre os tempos em que chegou a Porto Alegre, evocando lembranças da noite da cidade, bem mais ternas e humanas, onde o Mercado Público era, como ele diz “um ponto luminoso dentro da noite de Porto Alegre”.

“O Mercado Público foi centro um centro irradiador de inquietações culturais muito importante pela multiplicidade das pessoas. De certa forma o regionalismo, a música, estão ligados à história do Mercado. Ali cantava com uma gaita um “gaúcho” que era catarinense, Pedro Raimundo. Com aquela gaita ele se pilchava e começou a fazer música gauchesca”, lembra o tradicionalista. Diz que Pedro Raimundo era um aglutinador, que descobria e prestigiava os artistas, tendo começado no Mercado uma carreira vitoriosa. “Foi o primeiro a espalhar gauchismo para todo o Brasil. Foi para o Rio de Janeiro e São Paulo, onde se tornou famoso através da Rádio Nacional. ” Também começou a viajar pelo interior do Rio Grande. Recorda Nico que não houve praticamente nenhuma cidade importante nos três estados do Sul do Brasil que ele não tenha visitado, cantando e tocando gaita. ”Era uma figura de muito carisma e simpático. Chegava no Alegrete, quando eu era guri, tocava no rádio e depois ia para praça pública e reunião multidões incalculáveis. Os discos dele vendiam como pastel em cancha de carreira. E a carreira dele começou no Mercado Público”, recorda. Nico também lembra de outro nome que era um fenômeno que também se apresentava vestido de bombacha e xiripá, no caso o “gaúcho argentino”, foi Carlos Gardel, o maior cantor de tango de todos os tempos. Gardel se apresentava no Mercado central de Buenos Aires, fato que faz com Nico trace uma analogia com a importância dos mercados públicos como centros irradiadores de gauchismo, tanto aqui quanto em Buenos Aires.

Noite portoalegrenses: pura boemia no Mercado 

O apresentador acha, porém, que a culinária gaúcha poderia ter uma presença mais forte no Mercado Público. Cheguei na época de ouro do Mercado Público”, diz. Informa, ainda que quem vinha do interior tinha que passar pelo Mercado, para mostrar a sua música ou a sua poesia. O Mercado, na sua opinião, não era necessariamente um mundo gauchesco, em si, mas um mundo artístico próprio, um pólo concentrador de todas as influências. “Gauchismo, boemia, serestas, mulheres bonitas, tudo se encontrava no Mercado. Coisas que o modernismo, a insegurança, a televisão, os novos tempos enfim, mataram um pouco, aquele espírito boêmio do Mercado. Eu não vejo mais aquela efervescência que havia”. E sugere que talvez na parte  superior do Mercado se pudesse retomar um pouco o “coração pulsante dentro da noite da cidade que foi o Mercado. “Eu acho que Porto Alegre perdeu muito quando perdeu aquela luz que era o Mercado na noite”, conclui nostálgico.

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