Personagens: histórias diferentes e uma paixão em comum: o Mercado

Especial de Aniversário

No transcorrer deste primeiro ano de existência, o Jornal do Mercado começou o trabalho de resgate e registro de memórias e vivências dos principais personagens do Mercado: os seus trabalhadores e mercadeiros. A seguir, os 12 primeiros personagens do Mercado, pela ordem das edições:

Carlos Correia Mello – Bar Santos
Nascido em 1927, de origem portuguesa, Carlos tem nada menos que 50 anos de balcão, à frente do Bar Santos, um dos únicos que preservou características originais. O Bar Santos é uma viagem no tempo e o velho português de 80 anos diz que tem muitas histórias para contar: “tantas coisas para lembrar que, se fosse escrever, levaria um dia inteiro”.  Leitores não faltariam para ler, com certeza.

 

José Fernandes Boucinha – Bar Embaixador
Junto com sua esposa, Maria Mezzola Boucinha, o português José Fernandes também tem grandes histórias para contar dos tempos antigos do Mercado. Por exemplo, quando os estivadores freqüentavam em peso o velho Mercado e quando os bares ficavam abertos até meia-noite. “Tinha malandragem, mas não era tanto como agora, era um malandro diferente”, diz ele. Eram um casal tão conhecido que quando se atrasavam para vir para o Mercado o motorista do ônibus descia e ia chamar no portão da casa.

Ary Ribeiro
Italiano por parte de mãe e uruguaio pelo lado paterno, Ary chegou no Mercado em 1931. Conheceu e trabalhou com grandes vultos do Mercado, como Dante Mabília, Manoel Maria Marins, Eduardo Reginato, Luis Salami. Pegava o chamado “Bonde Escola” para ir ao Mercado, às três e meia da manhã, junto com os peixeiros. Ary saiu do Mercado com 89 anos, depois de 78 anos de atividades. Uma frase que pode identificá-lo é: “ele é a história viva do Mercado”.

Silvino Gomes Novo – Banca A
De origem portuguesa, Silvino veio para o Mercado no mesmo dia em que chegou de Portugal, 18 de novembro de 1959. Com 20 anos já era chefe na padaria onde começou a trabalhar. Hoje está aposentado, mas continua trabalhando porque, como ele diz “faltando o Mercado, falta tudo”. Ele ressalta a grande familiaridade que existe entre os permissionários e os fregueses: “Os clientes vem aqui, conversam com a gente, contam até coisas particulares, problemas, a gente ajuda para que eles saiam mais aliviados.”

Luis Salami – Açougue rodeio
Cedo o garoto, lá no interior de Lajeado, já descobrira que trabalhar na roça não era para ele. Ele se veio para Porto Alegre, onde desembarcou para trabalhar no Mercado Público, na Banca 35. Lembra dos tempos em que ao abrir os portões do Mercado, às 7 horas da manhã, já havia uma multidão para atender. Salami, 75 anos, é hoje um dos grandes nomes do Mercado, muito respeitado por todos, além de ser uma referência, citado por todos os mercadeiros. Seu nome está associado à história dos açougues no Mercado. E também ao espírito empreendedor e aos sentimentos de solidariedade, pilares do seu caminho de vencedor no Mercado Público.

Claúdio Klein – Banca 43
Já com seis anos trabalhava com o pai, servindo taça de café, pão e manteiga. E com oito já tecia um blusão de lã em uma hora e meia. As diversões do menino, poucas, eram andar de bicicleta e ir ao cinema. Trabalhava durante o dia e estudava a noite. Entrou na Banca 43 carregando pacote, varrendo a banca, limpando azulejos, fazendo reposição e, de quebra, atendendo os clientes. Hoje o ex-remador do Grêmio, é um dos sócios da 43 e um dos que mais batalharam pelo Mercado, estando à frente da Associação dos Permissionários durante 12 anos. Cláudio Klein foi um dos pioneiros nas especiarias do Mercado, quando trocava mercadorias importadas dos navios do porto por produtos da banca. Guerreiro, já escreveu seu nome na história do Mercado.

João Fernandes – Bar Naval
O grande timoneiro do Bar Naval, que comandou do seu balcão por 47 anos, veio de Portugal em 1958. Um ano depois o Mercado já estava no seu caminho. E nunca mais se afastaria. Um dos seus orgulhos, reconhecido por toda a cidade, é ter mantido as características próprias e originais do Bar Naval, que fazem dele um dos bares mais famosos e folclóricos da cidade, tendo completado 100 anos recentemente. Para ele, o respeito vale mais do que o dinheiro. E com o seu incansável trabalho, conquistou o respeito de Porto Alegre por ter conduzido o Naval como um bar emblemático, reduto de boêmios, artistas, jornalistas, intelectuais e populares.

Antonio Dias de Melo – Gambrinus
Veio de Aveiro, “a Veneza portuguesa” e fez seus sete anos no navio, na viagem que duraria um mês até chegar ao Brasil. Começou a ajudando o pai, enquanto estudava. Sua vida está intimamente ligada ao Gambrinus, que começou como um grande reduto germânico, com muitos alemães, conhecidos por serem grandes tomadores de chope. À frente do Gambrinus, Antoninho se tornou um dos grandes defensores do Mercado, principalmente na época em que pretendiam demolir o grande patrimônio arquitetônico da cidade. Foi um dos fundadores da Associação dos Permissionários. Um trabalho desprendido e generoso, de quem poderia simplesmente cuidar apenas do seu restaurante, o Gambrinus, um dos melhores da cidade.

Lair José Groff
Ele sabe dia, hora e ano em que chegou no Mercado – 1962. Lair Groff diz que veio direto de Gramado Xavier para o Mercado Público. Até agora a rotina é dura: acorda às cinco da manhã e já vem para o Mercado, voltando para casa depois de fechar às sete e meia da noite. Na sua banca, trabalha com os filhos Lair Groff Júnior e Graziela. Júnior prepara-se para assumir a banca no futuro e no trabalho tem uma relação profissional com o pai. Os dois tem visões diferentes em alguns assuntos, mas se entendem. A exemplo do pai, Júnior também começou cedo na banca, aos 15 anos. É o Mercado Público, mantendo a tradição de geração para geração sem conflitos, pelo contrário, de muita harmonia.

Ademir Sauer, Banca 26 e Daniel Josué, Banca do Holandês
Esta é uma história singular, que só poderia ter o Mercado como cenário. Daniel era um menino de rua, que vivia de fazer graxa e biscates, junto com seu irmão. Vinham da zona norte, caminhando pelas ruas, até que bateram nas portas do Mercado. Daniel pedia um pão aqui, um café ali, um ovo acolá, até que encontrou Ademir, da Banca 26. A convivência passou a ser diária até que o menino de nove anos pediu emprego para Ademir. Era muito comunicativo, tinha carisma e Ademir resolveu apostar. Conta que tinha que botar um banquinho para o menino trabalhar, com um guardanapozinho maior que ele. A aposta deu certo. O menino cresceu, trabalhou 25 anos na banca até que resolveu “andar com as próprias pernas”, conforme diz, e foi trabalhar na Banca do Holandês. Mas sem nunca esquecer a gratidão que tem pelo seu eterno “padrinho” Ademir.

Tommaso Dilo Renzo – Banca Central
Os Dilo Renzo, três irmãos, vieram de Morano Calabro, pequena cidade italiana que só em Porto Alegre tem mais de cinco mil descendentes diretos. Tommaso chegou da Itália com 18 anos, em 1959. Logo o Mercado entraria na sua vida, para nunca mais sair. Depois de algumas passagens por açougues e bancas, acabou comprando a Banca Central. Atravessou reformas e modificações diversas, mas sempre esteve ali, plantado no “cruzeiro” central do Mercado, onde os afro-religiosos acreditam estar assentada a Pedra do Bará. Tommaso nunca “viu” nada, mas lembra quando os religiosos passavam jogando moedas e mais moedas que caíam até dentro da banca. À noite os empregados recolhiam uma por uma. “Chico”, como é conhecido de todos, 40 anos depois, é uma das figuras mais conhecidas e queridas do Mercado. Vai ver, além de muito trabalho, foi o “Axé”do Bará que ajudou…

COMENTÁRIOS