Ângelo Bessa de Souza: “o Mercado foi a minha universidade”

O jovem português chegou ao Brasil com 17 anos. O serviço militar se aproximava e Portugal, na época, estava em guerra com as suas colônia africanas, de onde muitos jovens voltavam com malária, mutilados ou mortos. Os pais decidem, então, enviá-lo ao Brasil. Veio com a famosa Carta de Chamada remetida pelo tio Adelino Pinto de Souza (“que foi meu segundo pai”), com quem começou a trabalhar aqui. Ele pegou os tempos do Mercado. O pai, um grande comerciante em Portugal, vinha de vez em quando dar uns “puxões de orelha” no filho.

1961 foi o ano da chegada. Seu tio tinha um pequeno restaurante no Partenon. “Cheguei e tinha um lar. Isso para mim, que era um adolescente, foi muito importante pela educação, para a minha formação”, diz. O garoto nascido na cidade de Baião, na região que ele considera mais bonita do país, às margens do rio Douro, tinha, contudo, idéia de voltar para o Portugal. Mas, foi ficando e criando raízes. Só voltou a passeio. “Hoje me sinto mais brasileiro do que português”, afirma. Ficou dois anos no Partenon. Depois o tio Adelino e Ângelo Fernandes, que mais tarde viria a ser seu sogro, compraram o café Soberano no Mercado, onde ele já entrou como sócio, com dinheiro emprestado pelo irmão. Dois anos depois fizeram uma fusão com a Fiambreria Seleta e a padaria Nossa Senhora de Fátima, na esquina do Mercado, junto à Praça Parobé. Da fusão dessas três casas surgiu a Padaria Copacabana, em outubro de 1964. Ângelo tinha apenas 22 anos, enquanto os outros sócios variavam entre os 60 e 70 anos. O garoto trabalhou duro, em todos os setores da padaria. A vontade de vencer suplantava a intensa carga de trabalhos, praticamente 24 horas por dia, incluindo sábados, domingos e feriados.
Os bons tempos do Mercado
Ele recorda os bons tempos do Mercado: “Porto Alegre tinha uma vida intensa. Por causa dos bondes, era uma vida noturna muito forte, saudável, não havia assaltos. De madrugada vinham os músicos e mulheres muito bonitas das boates. A noite era uma festa no Mercado, com várias casas abertas como o Treviso, Graxaim, entre outros”. Tomavam café na padaria depois da noitada. O forte, então, era o famoso sanduíche de pernil assado no forno. “Era um almoço. Hoje ficaria muito caro”. O movimento era intenso. Padarias eram poucas na cidade. A Pão de Açúcar no Mercado era apenas um posto de vendas da padaria Brasília.
Tradição portuguesa na produção de pão
Ângelo não chegou a ser repartidor de pão. “Foi um pouco antes de mim o tempo das carroças. Eu já peguei a época das camionetes”, Afirma. Lembra que aqui era a única região do Brasil que se vendia pão de meio quilo. Hoje é praticamente só o cacetinho, mas a padaria ainda faz o antigo pão e vem gente de longe para comprar, assegura. A padaria chegou a ter cinco portas, mas com a reforma dos anos 90, perdeu espaço. Os sócios com ele hoje são Diamantino, filho do sogro e Manoel Augusto, o Maneca, filho do seu tio. Ângelo é o único sócio fundador vivo. Cita a grande tradição dos portugueses no fabrico do pão. Foi no seu país onde se começou a fazer pão no formato que conhecemos, garante, lembrando a santa portuguesa, Isabel, padroeira dos padeiros que fez o milagre dos pães. “Os primeiros portugueses que pra cá vieram abriram grandes padarias e outros trabalhavam com reparte, que era um negócio fácil e barato: só tinha quer comprar uma carroça e um jumento. 90% das padarias eram de portugueses”.
Ângelo e as mudanças no Mercado
Para ele o Mercado foi aos poucos selecionando a clientela. “Antes as bancas eram umas verdadeiras barracas. Hoje o Mercado está mais limpo. Melhorou bastante, continua sendo um bom ponto comercial, muito bem freqüentado, uma tradição. Todo mundo gosta de vir ao Mercado. Pode até ser quase comparado a um shopping pela sua beleza arquitetônica, bancas e tradição”, analisa. Acha fundamental os próprios proprietários atenderem, com toda a gentileza, coisas que não existem nos grandes supermercados. “O cliente gosta muito desse tipo de contato, quando compra a sua erva, a sua carne, o seu pão”. Satisfeito, diz que está aposentado, mas continua trabalhando por prazer. “Tudo o que eu sei, aprendi aqui”, afirma. Conheceu o sogro no Mercado, que acabou sendo sócio da padaria também. A futura esposa, Maria Margarida, Ângelo foi conhecer mais tarde. “Ela passava pelo Mercado, estudava no Centro e foi aí que tudo começou. Uma pessoa tão importante na minha vida que, se eu tivesse encontrado mais duas ou três como ela, teria me casado com todas, mas sempre foi só ela”, brinca. Do casamento, dois filhos: Francisco, proprietário da Padaria Pão de Açúcar e Ana Paula, proprietária do Café da Brasileira. Ou seja, tomaram o rumo do comércio. “Assim como eu segui os passos do meu pai”, diz, orgulhoso.
O Mercado hoje
Com 50 anos de Mercado, olhando para trás, sente-se realizado. “Foi muita coisa, muitas glórias, derrotas, tristezas, alegrias. A primeira tristeza foi quando eu, cheio de dívidas, até os ca“
Hoje existe mais rivalidade, antes haviam mais confraternizações, convívio, aniversários, casamentos. Acho que existia mais união”.
belos, tive a notícia que iam demolir o Mercado. Me apavorei, bateu um desespero grande”, aflige-se. Mas, como diz o próprio Ângelo, “tudo não passou de um susto e para ele o Mercado continua até hoje, cada vez mais jovem”. Outro susto foi o incêndio que queimou todas as bancas do Quadrante 4, incluindo a parte da padaria. E na reforma ficou quase um ano fechado, “com despesas de todos os tipos”, quando foi ajudado por um cliente, que lhe emprestou 20 mil reais para que Ângelo pagasse sem juros e como pudesse. Exemplos que fazem o nosso personagem ser muito agradecido. “E honrado de viver nesta cidade e nesta terra que eu tanto amo”. Sente saudades dos tempos em que “a gente ficava aberto toda a noite, com segurança, e tranquilidade”. Acha, sim, que o Mercado é uma grande família, mas acha também que já foi melhor. “Hoje existe mais rivalidade, antes haviam mais confraternizações, convívio, aniversários, casamentos. Acho que existia mais união”. De qualquer forma ele diz que conquistou até mais do que almejava. Conselho para novas gerações? “Que para se ter sucesso na vida, é fundamental gostarmos daquilo que fazemos. Anexando à isso trabalho, garra, inteligência e um pouco de humildade. E a vitória por certo chegará.”

 

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