Ameaça de demolição

Centro de abastecimento, prédio histórico, marco cultural, espaço de cidadania. Mesmo carregando tantos significados, o Mercado Público não passou imune à onda de progresso que procurava desenhar a cidade como pista para automóveis.

Acervo Museu Joaquim Felizardo/PMPA

 

Foi a partir de 1945, fim do Estado Novo, que surgiram as primeiras intenções de derrubar o Mercado para “abrir espaço à modernidade”. A proposta era construir um novo mercado na Praça Assis Brasil e construir no local atual um prédio administrativo, para “limpar” a região central – era época de boemia nos bares Naval e Treviso, coisa vista com maus olhos pela administração. A ideia não foi para frente. Tempos depois, no final dos anos 1950, surgiu o Plano Diretor, que passou a servir de argumento para a demolição, já que incentivava a estruturação da cidade para receber os carros. O prédio antigo era visto como empecilho para o desenvolvimento da capital. Então surgiu a proposta de sua demolição para que passasse por ele a Avenida Perimetral, ligando as avenidas Siqueira Campos e Júlio de Castilhos, com a construção de um estacionamento no espaço restante. O prefeito Célio Marques Fernandes, nomeado pela ditadura militar, apoiou a ideia, mas não tinha recursos para levá-la adiante. Seu sucessor nomeado, Telmo Thompson Flores, conseguiu o dinheiro. Isso porque, a partir de 1969, o país passou a receber incentivo internacional para modernizar suas capitais. Thompson colocou o prédio sob forte ameaça. A ideia era derrubá-lo para a passagem da avenida, transferindo seu comércio para um novo espaço, a ser construído entre as avenidas Júlio e Mauá – exatamente onde ficava o Mercado Livre, já posto abaixo sob administração de Flores. A ameaça de demolição chegou ao auge nos anos 1970. Então a sociedade reagiu em peso – jornalistas, mercadeiros e população em geral se mobilizaram em defesa do Mercado. Walter Galvani, na época editor do Correio do Povo, esteve à frente do movimento, convocando o posicionamento de todos. Jornais, que antes anunciavam como certa a demolição, começaram a se encher de artigos bradando pela permanência do prédio. Com a mudança do governo municipal, assumindo Guilherme Villela, a ideia da construção da avenida foi descartada. A campanha para evitar a demolição do Mercado acabou desencadeando, em dezembro de 1979, seu tombamento como Patrimônio Histórico e Cultural de Porto Alegre.

 

Conhece uma história antiga do Mercado? Escreva para redacao@jornaldomercadopoa.com.br

Recentes
Antigos

COMENTÁRIOS