Alexandre dos Santos Pinheiro: “O Mercado é uma escola de vida”

Ele entrou no Mercado quase que por acaso: recém saído do quartel, depois de quatro anos sendo cabo e sargento, porém sem estabilidade, viu-se sem trabalho. Então um cunhado, que já trabalhava na Banca 40 do Mercado, avisou o jovem de 22 anos, nascido em Porto Alegre, que uma banca estava precisando de alguém para serviços temporários.

Foto: Letícia Garcia

Era Páscoa, um dos dois períodos de maior movimento no Mercado (o outro é o Natal), para sorte de Alexandre. A Banca 12 era a indicada, onde ele chegou perguntando pela tal vaga. “Olha, tem uma aí, mas é temporária, é só para a Páscoa mesmo, se você quiser”, foi o que lhe disseram. Tendo como única experiência a de enfermeiro durante o serviço militar, achou que ia ser difícil: “Não tinha nada a ver, mas estava precisando, recém tinha casado, minha esposa estava grávida. Eu peguei assim mesmo. Comecei a trabalhar e a aprender rápido o serviço. No terceiro dia já me perguntavam se eu estava no Mercado há anos e eu respondi, ‘estou só há três dias aqui’. Graças a Deus tenho facilidade em matemática.” Resultado: o garoto desenvolveu rápido o seu novo aprendizado, foi ficando, e quando terminou o período temporário, foi convidado a ficar, já que dois outros funcionários estavam, coincidentemente, saindo. Entrou no Mercado perto da época que casou, uma relação que dura até hoje e da qual resultaram dois filhos. De temporária, a vaga virou permanente e durou 10 anos. “Depois me passaram para o depósito, onde trabalhei como contador de mercadorias e fui motorista. E não parou aí: mais tarde me passaram para cuidar de um açougue que eles (os donos da banca) abriram no Mercado.” O plano era ir transformando o açougue em uma loja de produtos naturais.

CHEGANDO À GERÊNCIA

No novo espaço, trabalhou mais dois anos, chegando a ser gerente. Porém, eram novos tempos – de informatização, mudando o sistema operacional de trabalho. “Eu não estava muito apto, comecei no Mercado antigo, quando tudo era à ‘canetinha’, papel, vendas diretas. Além disso, tive uns problemas particulares, daí pedi para sair.” Saiu “numa boa”, frisa, há cinco anos. Ficou apenas um mês parado. Com as muitas amizades que fez no Mercado, não foi difícil se colocar novamente. “Como tinha conhecido o Paulo Sauer, que tem uma banca macrobiótica, ele me ligou e perguntou se eu não queria trabalhar com ele. ‘Tenho uma vaga, mas é de empregado’.” Aceito o convite, lá se foi Alexandre para sua terceira experiência no Mercado. Em seguida, o gerente da banca, que já passava dos 60 anos, decidiu se aposentar. “Depois de um tempo, recebi meu contracheque e estava escrito ‘gerente’. Achei engraçado, ele não tinha me dito nada.” Dali para frente, seu trabalho passou a ser o de fazer compras, atender vendedores e outras tarefas do cargo. “Hoje estou já há quase cinco anos aqui, já passei por vários problemas particulares, de família, tendo que me ausentar até 20 dias, e a banca sempre me ajudou. Estou bem, antes morava de aluguel, agora tenho a minha casa, uma moto que uso para trabalhar, estou financiando meu ‘carrinho’ seminovo, tudo do Mercado.”

 

UM EXEMPLO DE SOLIDARIEDADE

Alexandre se orgulha de ter ajudado muita gente, nesses 20 anos de Mercado. “Nesse tempo em que estou aqui, acho que já empreguei, indiretamente, umas 20 famílias. Me sinto bem porque ajudei a sustentar várias delas. Pessoas vão na minha casa, dizendo que estão precisando de emprego e aqui no Mercado é uma fonte para quem quer trabalhar.” Também tem muita satisfação de ter ajudado, principalmente, familiares, como um cunhado e, ultimamente, um sobrinho, que está trabalhando na Banca 13. “É como um filho adotivo, criei desde os oito anos. Ele não é um gerente, é tipo um supervisor – esse deu resultado”, diz, acrescentando que também já se decepcionou com muitas pessoas que ajudou a empregar. “Quando a gente é mais antigo no Mercado, cria um respaldo”, diz, explicando o porquê de ser sempre muito solicitado para indicar futuros funcionários em várias bancas. Satisfeito com o seu próprio trabalho, diz que, além de gostar do que faz, sempre batalhou muito para isso. A banca (Sauer), “pequena, mas com bom fluxo”, tem uma equipe de 10 pessoas. “Consegui folga de um dia na semana para a gurizada”, diz. Em outros tempos, lembra, eram comuns as brincadeiras entre os colegas das bancas, “sem atrapalhar o serviço”. Tem saudades do coleguismo e solidariedade que havia. “Hoje não tem mais isso, o pessoal ficou mais reservado, ou é a crise. Tu chegas e já vai trabalhar, sério. Não tem mais aquela convivência, nem tempo.”

MERCADO, UM MODELO DE COMÉRCIO

Do Mercado antigo recorda-se pouco, mas garante que o movimento era três vezes maior do que o de hoje. “Antigamente eu acho que aqui era mais ‘família’, o pessoal era mais unido, e tinha mais liberdade. Hoje parece que está mais fechado, tipo shopping – se sofisticou muito e perdeu um pouco aquele espírito de mercado público, de secos e molhados. E o povo mesmo, que gostava de vir aqui, diminuiu muito.” Os clientes da banca onde trabalha, diz, são variados. “Todos estão se cuidando, tendo uma reeducação alimentar. Temos clientes fiéis que vêm em busca dos produtos que fazem bem, como aveia, granola e outros. Por ser de macrobiótica, ainda tem uma imagem que é mais caro, mas a gente está conseguindo fazer com que os preços cheguem a todos.” Das lembranças, diz que gostava muito de chegar de manhã e ver “aquela fila de gente nos portões para entrar no Mercado e das pessoas ‘brigando’ nas bancas para serem atendidas”. Para ele o Mercado representa “a construção e o sustento da família. “É um símbolo e um patrimônio da cidade, que a gente tem que cuidar. E, também, um exemplo de comércio. Todos os comerciantes e vendedores deveriam passar um dia aqui, para ver como é lidar com o público. Aqui se aprende muita coisa, principalmente a ser humilde. O Mercado é uma escola.”

COMENTÁRIOS