Alex dos Santos: “O Mercado é a alma do Centro de Porto Alegre”

A história de Alexsandro Rondon dos Santos, nascido em 28 de março de 1980, natural de Porto Alegre, casado, pai de um casal de gêmeos (Pedro e Lauren), começou mesmo antes de ele ter nascido: seus pais frequentavam o Mercado há muitos anos. A primeira lembrança que ele tem é de ser levado pela mãe para fazer compras no Mercado antigo, bem no meio, onde ficava a Banca Central.

 

Foto: Letícia Garcia

Ainda garoto, já passava pelos seus corredores. Começou vendendo picolé onde atualmente fica o Camelódromo, nas paradas de ônibus. Picolés que ele comprava na região da antiga doca das frutas, em frente ao Mercado Público. Mais tarde, por volta dos 17 anos, procurava emprego e um amigo indicou um lugar no Mercado: “Comecei como auxiliar de cozinha no Restaurante Castelo. Trabalhei, mas eu achava que aquilo ali não era para mim, queria alguma coisa melhor. Então fui trabalhar na Flora Kolesar (Banca 45), em meados dos anos 1990”. Ali ficou durante cinco anos, onde aprendeu muito com os colegas e, principalmente, com a proprietária da banca, Dessa Kolesar. Define a experiência como a sua escola e “faculdade”. A “pós-graduação” se daria no próximo trabalho, a Banca do Holandês, onde ficou quase 10 anos. “Ninguém começa por cima, mas por baixo. Eu comecei varrendo a banca, limpando, abastecendo, em funções gerais. Mas, como sou muito curioso, de ‘meter os peitos’, comecei a atender. Eu já tinha experiência como balconista, mas nunca tinha trabalhado com fiambres. E fui atendendo, até que um dia o patrão disse: ‘não, não, tu és muito bom para estar limpando – a partir de amanhã tu só atende, vamos contratar outra pessoa para a limpeza’. Assim começou minha carreira ali.”

 

Especialista em fidelizar clientes

Depois chegou a vez de mais uma mudança, quando foi para a Banca 38, onde está até hoje “batalhando pelo pão nosso de cada dia”. Sua rotina: chega todos os dias antes das 7h, recebe as mercadorias, organiza a banca, define na sua equipe quem faz o quê. “Segunda-feira, por exemplo, é o dia da organização e da limpeza. É quando vejo o que é preciso comprar para a semana, o que falta, e atender os clientes.” Na 38, trabalham com ele, aproximadamente, 30 pessoas. Com todos esses anos de Mercado, desenvolveu uma relação especial com os clientes – tem alguns desde os tempos do Holandês. “Geralmente me procuravam pelo nome e eu sempre procurei fazer amizades com eles, além daquela coisa do ‘compra e vende’. Aí a gente vai criando uma afinidade. Hoje são muitos, e o meu forte como funcionário sempre foi isto: fazer clientes assim. Sempre dou uma atenção especial quando chegam pela primeira vez, até criar um envolvimento.” Depois, diz, com o tempo, vai direcionando para os outros colegas. “O meu diferencial é este, conseguir atender bem, fidelizar o cliente e depois passar para os meus colegas. Mas estou sempre supervisionando, para saber se estão sendo bem atendidos, perguntando se está faltando coisas, novidades, sempre interagindo com eles.”

 

A evolução do Mercado

Sobre as mudanças do Mercado, acha que ele precisa progredir em “algumas coisas”, como um todo. Concorda, porém, que, em relação ao Mercado antigo, já progrediu muito. “Hoje, por exemplo, a maioria das lojas são informatizadas, tem ar condicionado. Antes era tudo somado na caneta, ventilador. Todos esses avanços trouxeram um público melhor para o Mercado. As bancas evoluíram.” A tecnologia, para ele, é uma ferramenta essencial para tudo. Mas para o Mercado crescer mais ainda, diz que teria que ter um estacionamento. “Isso é fundamental, porque muitas pessoas deixam de vir por não ter onde estacionar. O sábado antigamente era um dos dias mais fracos. Agora, como é possível estacionar no Largo Glênio Peres, é o melhor dia – imagina se fosse assim todos os dias…” Tem muitas boas histórias e registros para contar. Como ter atendido o cozinheiro de Paul McCartney. “Foi muito legal, ele veio aqui na 38, pediu uma caipirinha para tomar – parecia que estava tomando água, estava com uma sede…” E, como muitos mercadeiros, aponta como a lembrança mais forte o último incêndio do Mercado. “A banca não foi atingida, mas foram 38 dias de incerteza. Era uma escuridão, e todo mundo trabalhando aqui dentro, se reorganizando, na expectativa do dia da reabertura.”

 

Gratidão ao Mercado

Lembra que, alguns momentos antes da reabertura, estava todo mundo preparado, mas não se via ninguém lá fora. Ele resolveu, então, ir aos portões, que ainda estavam fechados. “Tinha aquele mar de guarda-chuvas de pessoas esperando para entrar. Quando abriu, tinha gente chorando, dizendo que estava com saudade de voltar a comprar. Este Mercado tem algo especial, uma alma, uma força que não tem igual.” Lembra que tem pessoas que trabalham há mais de 50 anos no Mercado, outras que compram há duas, três gerações. “É nas horas mais difíceis que o Mercado mostra a sua força. Quantas pessoas dependem dele, clientes, famílias, fornecedores que integram esta engrenagem? É o que sempre digo para a minha equipe: tem que ter um olhar mais amplo sobre isto aqui.” Definindo o Mercado como uma “família grande”, tem muitas e boas relações com os seus colegas de trabalho de todas as bancas: “Todo mundo se dá e se conhece aqui dentro. O Mercado abraça todos, e todos os dias. A minha faculdade da vida foi aqui, que me tornou a pessoa que sou hoje. Aprendi muito aqui e todos os dias eu aprendo uma coisa nova. Entrei um guri e hoje sou um homem, graças ao Mercado Público.”

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