Airton Ortiz, Patrono da 60ª Feira do Livro “A literatura tem que ir atrás dos leitores”

Centro Histórico, por Emílio Chagas

Airton Ortiz, Patrono da 60ª Feira do Livro “A literatura tem que ir atrás dos leitores”

O patrono desta edição da Feira, um dos mais importantes e maiores eventos da indústria do livro do continente, é o jornalista, escritor e fotógrafo Airton Ortiz, de 60 anos. Ortiz tem 16 livros publicados, sendo 10 de reportagem, três de crônicas, dois romances e um de fotografa. É considerado o criador do gênero Jornalismo de Aventura, onde é, ao mesmo tempo, repórter e protagonista da reportagem. Já ganhou diversos prêmios tanto jornalísticos quanto literários. A experiência de patrono não é nova na sua vida: já ocupou o “cargo” em outras 20 feiras do livro do interior do Rio Grande do Sul. Além disso, recebeu dez indicações ao título do evento literário porto-alegrense – e desta vez emplacou. O seu próximo livro, “Paris”, será lançado nesta feira. Quanto à crítica mais frequente à feira, sobre o seu crescimento ele não concorda: “Queriam o quê, que a feira diminuísse? A cidade aumentou, a população aumentou, a feira tem que aumentar também, até para ter espaço para receber essa gente toda”.

Foto: Luis Ventura



Em seu discurso como Patrono da 60ª Feira do Livro de Porto Alegre, o escritor Airton Ortiz se entusiasmou: “Vamos fazer da Alfândega uma praça de batalha em prol da leitura, das coisas boas que a gente sempre encontra nos livros. Vamos deflagrar nesta praça de batalha uma revolução armada com a mais poderosa das armas: o livro”. Para ele, todas as ideias são armazenadas nos livros e é a partir da leitura que elas são disseminadas. “Se engana quem acha que se faz revolução com fuzis; nós fazemos revolução com ideias”. Para ilustrar, cita os exemplos das revoluções Francesa e Farroupilha, da Inconfidência Mineira, ou até mesmo Ghandi, “que libertou a Índia com uma ideia, a da não-ação”. Prometendo a “revolução do livro” nesta Feira, Ortiz diz que a leitura é a mais intransigente das ações, transformando rebeldes em revolucionários. “A leitura é libertadora porque nos ensina a pensar, e quem pensa age de maneira consciente, e quem é consciente é um homem livre. Por isso, a leitura nos liberta de tudo e de todos, inclusive de nós. E, assim como a Revolução Farroupilha teve o seu
slogan, a nossa também tem: quanto mais livros, mais livres”. Nascido em Cachoeira do Sul, há 15 anos ele vem se dedicando à literatura de 
aventura, contando suas próprias viagens pelo mundo. O primeiro livro foi publicado em 1975, ano da sua chegada a Porto Alegre.

        

Conscientizando sobre a importância do livro

Ortiz tem longa tradição de envolvimento no meio da produção livreira e literária gaúcha: por 15 anos esteve à frente da Editora Tchê!, que publicou, entre outras coisas, uma importante coletânea sobre os nomes mais expressivos do estado, “Esses Gaúchos”. E como patrono, na verdade, ele só vai dar continuidade ao seu trabalho neste meio: “Vou continuar fazendo o que eu venho fazendo na minha vida profissional toda, que é conscientizar as pessoas sobre a importância do livro e da leitura. Eu venho dizendo, principalmente nas escolas, que ler é um ato de rebeldia porque transforma pessoas descontentes em revolucionários. E essas pessoas são as que fazem as mudanças e transformam o mundo”, diz. Para ele, a feira é o momento em que se gera uma grande oportunidade desta bandeira ser ampliada e ser levada para um grande público. Ele lembra que o evento é largamente divulgado na imprensa e atrai milhares de pessoas diariamente, durante os seus 15 dias de duração. E do papel dos escritores e editores nesta “batalha”. “A literatura tem que se aproximar e ir atrás dos leitores, é uma responsabilidade dos autores escreverem textos acessíveis que as pessoas possam ler, é uma responsabilidade também da indústria editorial colocar no mercado livros de qualidade com preços compatíveis”, registra.

Foto: Mariana Fortes

Ortiz na apresentação oficial da programação da Feira

Leitura e mercado editorial

“A leitura é o único instrumento que as pessoas têm para evoluir, tanto do ponto de vista profissional como do pessoal. Então, ela tem que ser democratizada, da melhor forma possível”, afirma. Por sua vez, o mercado editorial gaúcho, na sua constatação, passou por uma concentração muito grande. “As editoras, para enfrentarem as concorrentes internacionais que entraram no Brasil, uniram-se ou acabaram fechando. E, ao mesmo tempo, houve também uma grande concentração de livrarias. Há uns 10 anos eu falava que iríamos ter no Brasil umas 10 livrarias, hoje não temos nem isso. E isso é ruim”. A solução para ele é ter políticas públicas de divulgação e distribuição do livro, fazendo com que ele seja um produto popular, “saindo de circuito o lucro e que tenha apenas uma função social”. Sobre a nossa produção literária, tem uma visão otimista, dizendo que temos muitos escritores ótimos e que não é por acaso que estão sendo publicados no Brasil inteiro. Lembra também que há “uma quantidade enorme” desses escritores que continuam morando em Porto Alegre e são publicados pelas grandes editoras do centro do país. Não só publicados, mas ganhando muitos prêmios, acrescenta. “De toda aquela geração antiga, que teve o seu ciclo encerrado com a morte do (Moacyr) Scliar, surgiram novos escritores muito bons, como o Taylor Diniz, a Cintia Moscovich, o Sérgio Napp, o Carlos Urbim, o Mario Pirata, enfim, uma quantidade enorme de escritores aqui que não devem nada aos melhores escritores nacionais”, afirma.

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