Airton Malfatti: “O Mercado é a minha casa”

Nascido em 26 de setembro de 1956, natural de Barros Cassal, casado, dois filhos (um que trabalhou no Mercado, hoje mora em Santa Catarina) e dois netos, veio do interior em 1973. Trabalhou uns dias na Banca 12, de Desidério De Paoli, que era amigo de seu pai. Na verdade, foi apenas um apoio inicial para a chegada do jovem de 18 anos: em seguida, passaria a trabalhar na Banca 2, dos Cauduro, onde ficou de 1973 a 1978.

 

Foto: Letícia Garcia

“Já vim com emprego mais ou menos arrumado, pois tinha vários amigos no Mercado. A Banca 2 era de secos e molhados. Então, o Tommaso (Di Lorenzo), da Banca Central, me fez uma proposta boa. Comecei na Central em agosto de 1978 e estou com eles até hoje. A Central era bem no meio do Mercado, toda de vidro, até as portas. Foi assim até a grande reforma do Mercado (na década de 1990), quando mudou mais para o lado.” O novo funcionário começou como balconista.

Logo já estava fatiando os frios. “Eu fazia de tudo um pouco, atendia, arrumava o balcão. Como era uma banca pequena, não tinha depósito, que ficava onde hoje é a Agropecuária Banca 15. Tinha câmara fria, a gente trazia de lá toda a mercadoria de manhã, enchia bem a banca. Depois ia abastecendo, às 10h, às 13h, e assim durante o dia, trazia um carrinho lotado.” Naquela época, o Mercado era muito mais movimentado. “Hoje quando dá um movimento bom numa sexta-feira, todo mundo fala ‘que baita movimento’, mas naquele tempo era assim todos os dias.”

Tudo mudou, segundo ele, com a reforma. Também atribui a queda do movimento à abertura de novos supermercados e à saída das paradas de ônibus do entorno – das praças Parobé e XV. E da própria Feira do Peixe, que era feita entre as avenidas Júlio de Castilhos e Mauá. “Quando veio o trem (Trensurb), tiraram. Aí, começou a diminuir o movimento. E depois, com a modernização do Mercado, caiu mais ainda.”

 

Da colônia para o Mercado

O seu trabalho não mudou muito, mas hoje está só na “fatiação”. “Tem que fatiar não tão fino, nem muito grosso, uma fatia tem que ter uma média de 10 g”, ensina. O que mais sai mesmo são os frios fatiados, queijos e salames. No balcão, agora ele atende muito pouco. Um trabalho o qual nem imaginava um dia fazer. Antes trabalhava no interior, na roça, como colono. Plantava fumo, feijão, arroz. Mas o Mercado não era algo completamente desconhecido: já tinha um irmão, Azemiro, que trabalhava na Banca 40, e primos também. “Depois veio toda a família para cá, até o meu pai veio. Dois outros irmãos meus vieram para o Mercado, mas só eu continuo – um já faleceu, o Hamilton, que era o mais novo e trabalhava na Banca 16 com o Reni Groff, e o Olívio, que foi trabalhar fora.”

Lembra que o Mercado antigo tinha um telhadinho no meio e muitos gatos. “Quando chovia, o Mercado enchia de água. Todas as bancas tinha calhas, que não davam vencimento do volume da chuva que caía.” Para ele, naquela época o Mercado era bem melhor do que hoje, mais agitado. “Hoje é mais calmo, mais rigoroso.” Naquele tempo, todo mundo também fez muitas amizades. Mas o Mercado mudou e os antigos colegas e amigos foram saindo. “Começou a entrar gente nova, gurizada que não é como os antigos. Trabalham, mas não são muito de fazer horário. Muitos desistem quando sabem que começa cedo. Na época antiga, o pessoal encarava mesmo. Da minha época são poucos.” Seus clientes mais antigos permanecem fiéis.

 

Ligação afetiva com o Mercado

A Banca Central sempre pertenceu a três irmãos: Tommaso (já falecido), Anunziato e Biagio Di Lorenzo. Airton chega às 7h na banca e imediatamente já começa a cortar os frios. Encerra suas atividades às 19h, quando vai para casa, em Alvorada. Não tem dúvidas de que o Mercado hoje está bem mais bonito. “O que falta é melhorar a segurança na volta, que é perigosa. Se fosse mais seguro, o pessoal vinha mais. Naquela época, a gente podia andar de madrugada aqui no Centro que não acontecia nada. Hoje, depois que o Mercado fecha, tem que sair correndo para casa.”

Outra lembrança é dos antigos aniversários do Mercado. “Era bem mais organizado. O Mercado era fechado, botavam mesas aqui dentro, faziam churrasco. Hoje é aquele bolo ali no meio e mais nada.” Assim como muitos colegas mais antigos, considera o Mercado a sua própria casa. “Gosto tanto daqui que nem penso em sair. Passo mais tempo nele do que em casa, onde só vou para dormir. A gente fica 30 dias fora e sente saudade, tem vontade de voltar. Se eu não venho para o Mercado, não me sinto bem.”

 

A marca dos incêndios

Airton é um homem feliz com o seu trabalho, do qual gosta muito, e alimenta um grande afeto pelo Mercado. “Ele tem tudo de especial, me criei aqui dentro. A gente tem muitas lembranças boas, principalmente dos amigos. Infelizmente, muitos já partiram.” Dos acontecimentos mais marcantes, lembra dos incêndios – de 1976, de 1979 e o último, de 2013. A diferença, registra, é que nos dois primeiros, em pouco mais de 30 dias o Mercado já estava funcionando. Isso porque ainda não era um patrimônio histórico tombado – isso aconteceu no final de 79. “Agora já estamos há quase cinco anos e não fica pronto.” Nenhum dos incêndios chegou a atingir a Central. Mas ele é mesmo um saudosista do velho Mercado: “Deixou muitas saudades, até para os clientes.

Antigamente, além de vir mais gente, tinha produtos coloniais, vinha da colônia e já se botava para vender. Hoje não pode, tem que ser industrializado.” A própria Central mudou muito. Antes vendia carne de porco, de frango, de gado, miudezas. “Trabalhava muito com porco, vendia um ‘horror’, toneladas, principalmente nessa época de fim de ano. Frios também saíam bem mais, chegando a vender até mil pães de sanduíche. Mas teve que mudar porque a (Vigilância em) Saúde não permitiu funcionar como um açougue e fiambreria.” Sem dúvida, outros tempos.

COMENTÁRIOS