Adriana Kauer: “O Mercado amadureceu e eu também”

Profundamente ligada e identificada com o Mercado, Adriana tem mais de 30 anos de convívio com suas centenárias paredes e seus milhares de personagens, anônimos e conhecidos. Uma identificação tão profunda que ela diz que tem “a cara do Mercado”. Pudera: desde criança ela já vinha, trazida pela mão do pai, Tércio Kauer (outro nome importante na história do Mercado), embora tenha começado a trabalhar oficialmente nele aos 17 anos. Hoje, aos 42 anos, mãe de Carolina, 17, ela é uma bem sucedida e inovadora empresária, à frente da sua querida Comercial Martini.

 

Adriana teve que escolher: ser professora, ganhando bem mais do que ganhava no Mercado, ou continuar trabalhando na banca com o pai. “Ele me olhou e disse: ‘se tu queres, vai. Vais deixar de trabalhar comigo para virar professora?’, com aquele olhar de ‘tu vais me deixar aqui?’. Esse argumento me matou”, diz ela, com muito humor. O pai, na realidade, foi um grande espelho para a entusiasmada garota – na verdade, um ídolo. Precursor, inquiteto e muito inventivo, foi o primeiro a implantar uma série de coisas no Mercado – e no Brasil. Ele começou fornecendo embalagens para os mercadeiros, mas sempre com o sonho de ter uma loja no Mercado, que naquela época era muito fechado, quase restrito aos portugueses e aos seus conhecidos. “Imagina o meu pai entrando no Mercado, um alemão com apelido de italiano (Martini). Ele conseguiu uma loja por um golpe de sorte. Ele agarrou a oportunidade com as duas mãos”, lembra. A loja foi comprada em 1983, quando Adriana tinha 12 anos. Ainda não sabia que ali seria o seu futuro. Mas poderia intuir, era seu destino – e vocação. A menina, desde os seis anos, já levava jeito para o comércio. O que ela mais gostava era de brincar que estava vendendo coisas. Fazia anéis de arame e bolos de barro quando chovia. “Eu brincava que era vendedora, hoje eu vendo; brincava que fazia bolinho de barro, hoje vendo material de confeitaria e chocolate. Tudo que eu gostava de brincar, hoje é o meu trabalho”.

 

“Hoje eu sou a continuação do meu pai”

 

Naqueles tempos, lembra, para se ter uma banca no Mercado era obrigatória a venda de alimentos. O sonho do pai, porém, era ter uma loja de embalagens. E o que ele fez? Comprou um freezer e começou a vender picolé. “Aquilo bombou de uma forma impressionante, foi um verão escaldante. E o meu pai, muito visionário, não quis só ficar vendendo picolé da multinacional. Ele isolou uma parte da loja e começou a fazer picolé, vendendo pela metade do preço da marca da fábrica – tinha filas e filas de gente para comprar”, recorda. E depois, o pulo do gato: começou a vender os preparos para as pessoas fazerem em casa, começando a fracionar os ingredientes e imprimir a receita, orientando como fazer. “Foi um sucesso total, um boom gigantesco, com filas em volta do Mercado. Foi o primeiro no Brasil a ter esta sacada”, orgulha-se Adriana. E não pararam por aí as inovações: a próxima foi começar a vender produtos para as pessoas fazerem chocolate em casa – outro sucesso. Nesta altura, Adriana surge como a pessoa “que vai fazer a diferença”. Começou a se interessar e aprofundar sobre o assunto, ler, estudar, fazer aula com culinaristas. Em seguida, um curso de confeitaria artística no Instituto Ballina, em Buenos Aires, que foi decisivo para a qualificação e diferenciação da banca.

 

Qualificação e loja referência em chocolate

 

O pai, o velho parceiro, partiu em 1996. “Acabei levando a loja sozinha, fazendo a administração. Não parei no tempo, foi um busca de novos booms. Hoje está tudo muito voltado para o lado gourmet. Fui para Nova Iorque só para participar de uma aula de como aplicar ouro comestível”, revela. A banca passou a oferecer um mix diverso de produtos para atender o novo boom gourmet, como fava de baunilha, fôrmas importadas e outros. Porém, com os pés no chão. Adriana se referencia muito ao Mercado. “A gente não pode esquecer de onde veio e como começou. Mesmo com todas essas revoluções, eu jamais vou deixar de vender o que nós vendemos um dia – embalagem, produtos para sorvete e picolé caseiro, chocolate. O grande segredo é vender tudo e conhecer muito o que tu vende, e eu posso dizer, eu conheço, sem falsa modéstia, cada item que tem aqui dentro”, sintetiza. A chocolatier informa que a Martini hoje é uma loja referência em vendas de chocolate. “Vem gente de outros estados para conhecer a nossa experiência”. Todo esse conhecimento (e investimento) trouxe resultados, um deles foi o  prêmio nacional como a segunda melhor confeiteira gourmet do Brasil – medalha conquistada em 2012.

 

O Mercado, um conjunto de histórias de vida

 

Tudo isto, porém, ela credita ao Mercado. “Quando a gente olha para o Mercado, não tem que pensar como um prédio, um patrimônio histórico, mas, acima de tudo, como um conjunto de histórias de vidas. Hoje é muito fácil encontrar os produtos que ele tem em supermercados e em outros lugares, mas é toda a aura dessas histórias que tornam o Mercado diferente de tudo, inclusive de outros mercados”, resume. E o que não faltam em Adriana são histórias de vida. Com sua “carinha de mamãe e jeitinho de papai”, praticamente ganhou a filha no meio de uma Páscoa no Mercado, onde muito sono da menina zelou no moisés, dentro da loja. A mesma que hoje já trabalha meio turno com ela. Do Mercado antigo, guarda muito carinho, mas aponta importância da nova mentalidade da recente geração de mercadeiros, que foram estudar e se especializar. “Hoje eu tenho um nutricionista e uma administradora comigo, essa vai ser a fotografia do nosso próximo Mercado. É preciso se dedicar. Somos muito mais empresas familiares do que empresas propriamente ditas, mas com capacidade, competência e pessoas que não pararam no tempo. O Mercado amadureceu e eu também. Tive a sorte de ser filha de quem eu fui e trabalhar onde eu trabalho”, conclui.

 

Foto: Letícia Garcia

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