Adão Pacheco “O Mercado é a minha segunda família”

A Casa da Erva-Mate, ou Banca 33, onde chegou “gurizinho”, em 1982, foi a primeira e única em que ele trabalhou no Mercado. Natural de Cachoeirinha, mas residindo em Gravataí, Adão nasceu em 27 de fevereiro de 1966. Casado, um filho, Welinton, que trabalha com ele na mesma banca, tem três netinhos – de quatro e dois anos, e mais um de oito meses.

Foto: Letícia Garcia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Esta banca era do meu tio. Minha família era de poucas posses, passava por dificuldades, e ele me chamou. Comecei a trabalhar aqui sem experiência nenhuma, e ele foi me ensinando. Tudo o que eu sei sobre erva-mate e cuia, devo a ele. O tio se aposentou em 1993, passando a banca para mim e meu sócio Gilmar (Giovanaz) uma parte da banca.” O tio, Reni João Groff, casado com uma tia de Adão, continua como sócio majoritário. Tudo em família, em síntese. No Mercado, a banca é uma das mais antigas no gênero, com mais de 50 anos – sendo, inclusive, a pioneira. O guri começou sem conhecer nada, aprendendo com o tempo, por isso o início foi com serviços gerais. Depois, passou para o balcão:  “Eu gosto muito de trabalhar com comércio, a gente atende bastante turistas, tem uma diversidade bem grande, acabamos conhecendo gente do mundo todo”.  A banca trabalha exclusivamente com produtos gauchescos, tendo na erva-mate e nas facas os carros-chefes. Tem produtos de várias faixas de preços. “Por exemplo, temos cuias de R$ 10 a R$ 1 mil, assim como as facas. Mas as ervas são, mais ou menos, do mesmo preço.”

 

 

O paraíso das ervas e facas

A banca é concorrida, muito procurada pelos aficionados da cultura gaúcha, principalmente na Semana Farroupilha em setembro. “A gente vende bastante erva-mate e cuias para o pessoal expor no Acampamento. As facas vendem muito, principalmente para churrascos, porque a gente grava o nome, geralmente para presente no Natal e dia dos pais.” São muitos os modelos: artesanais, importadas, com aço alemão, que são as mais vendidas. “Elas são um pouquinho mais caras, mas têm garantia vitalícia, o que ajuda a vender. Temos marcas como Rodeio Criolla e Cascavel, que é industrializada, mais barata, mas de qualidade.” O público é variado, incluindo clientes famosos como os atores Thiago Lacerda e Isabelle Drummond. “Eles ligam, a gente manda pelo correio para o Brasil inteiro.”  Alguns deles frequentam a banca praticamente desde a sua fundação, como é o caso do “seu” Veloso, hoje com 80 anos. “Agora, ele está meio doente, mas vinha uma ou duas vezes por semana aqui. E se ele não comprasse erva, dava um beijo em cada um de nós. Por causa da doença, não vem mais. Ele liga, pede a erva e os filhos passam e levam.”

 

Ervas e suas misturas famosas

A banca também é famosa pelas misturas de ervas. “A gente indica, os clientes gostam e vão repassando para os amigos.” Cita como exemplo a famosa “mistura do Eninho”, uma das primeiras. “Ele é surfista, conhece muita gente, e o pessoal vem aqui comprar. E agora tem a do Thiago Lacerda, que colocou uma ‘notinha’ na Zero Hora dizendo que fazia a sua aqui e muita gente vem procurar a mistura dele.” A rotina, 35 anos depois, é igual até hoje, diz. Ou seja, chega todos os dias, de segunda a sábado, às 7h30 e sai às 19h30. Ultimamente ele e o sócio Gilmar se revezam, fazendo uma escala onde cada um trabalha três dias. “De manhã, a gente toma chimarrão todos os dias, até umas 9h. Depois a gente tem que dar uma parada por causa do movimento, mas o mate é todo dia.” E todos os cinco que trabalham na banca fazem de tudo – no caixa e no balcão. Diz que nunca imaginava trabalhar no Mercado. “Tenho um irmão que é engenheiro e eram esses os passos que eu ia seguir, só que o horário do Mercado era bem complicado, e acabei desistindo.” Para quem está começando, diz que o importante é se informar. “Tem bastante informação hoje com a internet, mas isso aí não é o mais importante. A gente procura ensinar, dar um apoio. E em pouco tempo eles (os novatos) já sabem tudo.”

 

As grandes mudanças do Mercado

Em relação aos produtos gauchescos, acha que é um segmento bom, “mas já está um pouquinho saturado, principalmente no Mercado. Tem muita loja igual. Para começar (um negócio) neste setor, eu acho que não dá mais – já tem bastante gente que trabalha com este produto aqui.” Depois de três décadas e meia no Mercado, viu muitas mudanças. Acha que a estrutura melhorou bastante. “Agora está ‘meio atiradinha’. Antigamente o telhado era baixinho, quente, sujo, mas agora está limpinho, bom de trabalhar. O mercado era bem diferente, eu gosto mais deste agora, está bem melhor na organização, limpeza e bem mais seguro.”  Outra diferença é em relação ao público que, segundo ele, antes só comprava o “bruto”, isto é, arroz, feijão e outros produtos básicos. “Não tinha shopping, supermercado grande, aí o movimento era maior. Agora o cliente está mais elitizado. Claro que ainda continua aquele que vem comprar 1/2 kg de erva, mas também vem o que quer comprar uma faca de R$ 1 mil, uma cuia de ouro e prata.” Das lembranças, diz que acompanhou a história de Daniel de Souza, menino de rua que foi “adotado” pelo Mercado, hoje especialista em bacalhau, atendente da Banca do Holandês. “É a história mais legal que eu conheço aqui.” Além disso, o incêndio de 2013, um momento difícil e a lembrança mais marcante. Felizmente a sua banca não foi atingida, mas parou por quase 40 dias. O Mercado? “Em termos financeiros, é tudo o que eu tenho. Em termos pessoais, muitas amizades. É a minha segunda casa.”

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